Sobre a Anti-Ética Médica


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Bem. O assunto ganha corpo e extrapola os limites da mídia comum. A blogosfera se agita e nos bastidores do Lablog todos comentam. Meu delírio persecutório (e alguns colegas) pedem minha opinião. Não posso me furtar do que parece ser uma obrigação, então, vamos lá:

Marcia Angell, a célebre ex-editora do New England Journal of Medicine, a revista de uma única faculdade (de Medicina da Harvard) mas que tem um fator impacto maior que a Science e a Nature (seja lá o que isso realmente queira dizer!), publicou, dizia, um livro em 2004 chamado “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos” já devidamente traduzido e em nosso mercado desde 2007. Nesse livro ela expõe o que seriam as técnicas de marketing da indústria farmacêutica – a BigPharma – que teriam como objetivo confundir o senso crítico dos médicos de modo a facilitar a prescrição de medicações novas, em geral mais caras, que são colocadas todos os anos no comércio milionário da miséria humana. Além disso, discorre também sobre formas como os consumidores podem pressionar seus médicos para obter determinado tratamento, mesmo que tais tratamentos tenhos poucos estudos que suportem sua utilização indiscriminada.

Esse livro e, obviamente, um ambiente favorável, fizeram surgir algumas resoluções, mesmo que tardiamente. Em 17 de dezembro de 2008, a ANVISA publicou uma RDC (resolução de diretoria colegiada – ainda não tem versão na web, mas pode ser baixada aqui. Ver aqui o ponto de vista da BigPharma) que tem no seu Art. 1º: “Este Regulamento se aplica à propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos de produção nacional ou estrangeira, quaisquer que sejam as formas e meios de sua veiculação, incluindo as transmitidas no decorrer da programação normal das emissoras de rádio e televisão”. E também regulamentou a atuação dos representantes de laboratórios junto aos médicos e pacientes. A BigPharma teria 180 dias para se adequar à resolução, o que vai ocorrer em meados de Junho desse ano. E tudo isso eu achei bastante bom. Um forte golpe no carrossel vigente.

Muito bem. Marcia Angell faz a resenha de livros que agora pipocam no mercado americano sobre esse mesmo tema (parece que ele vende bem, como várias coisas em saúde). Acho mesmo que ela tem que bater forte no tema, até porque, o outro lado bate muito forte também e assim, quem sabe discute-se mais e toma-se consciência. Os livros são:

1. Side Effects: A Prosecutor, a Whistleblower, and a Bestselling Antidepressant on Trial by Alison Bass

2. Our Daily Meds: How the Pharmaceutical Companies Transformed Themselves into Slick Marketing Machines and Hooked the Nation on Prescription Drugs by Melody Petersen

3. Shyness: How Normal Behavior Became a Sickness by Christopher Lane

Alison Bass é jornalista especializada em cobrir medicina e tem um blog desde 2008. Nunca tinha ouvido falar. Melody Petersen era reporter do NYTimes especializada em cobertura de laboratórios farmacêuticos (vejam vocês!), tinha lido algumas coisas dela e vai na linha de Marcia Angell. Christopher Lane deu uma entrevista ao Mais! da Folha (que pode ser lida aqui) e que comentei em um post de 20 de julho de 2008. Ele é professor de inglês especializado em ficção britânica moderna e vitoriana além de ter estudado psiquiatria e psicologia (do século XIX).

Ou seja, todo mundo batendo na mesma velha tecla. A questão, disse e repito, é que tenho me debatido com o fato de que, em alguma situações, o médico deve funcionar como um advogado do paciente frente à agressividade da medicina atual. Entretanto, essa agressividade é, muitas vezes solicitada pelos próprios pacientes! Daí, essa hipermedicina pós-humana que foi abordada por ocasião do post sobre Gilberto Dupas, ele mesmo uma vítima dela. O que todos esses autores não comentam é qual o papel de cada um no jogo. A medicina, os médicos e os pacientes, como participantes desta atividade humana, são totalmente dependentes de correntes comportamentais que estruturam um comportamento de rebanho típico de nosso tardo-capitalismo. Um texto recente é brilhante em demonstrar isso (obrigado, maria):

A BigPharma não faz medicina sozinha. Os médicos também não. Muito menos os pacientes.

Discussão - 5 comentários

  1. maria disse:

    belo comentário expandido, karl. obrigada.
    fico pensando é como a gente aprende com essa coisa toda e direciona nossa cultura pra outro lado. um de ser mais saudável, talvez. mas tem como dizer pra uma pessoa que ela tem que comer bem e pouco, fazer exercício, dormir bem, estimular o cérebro de várias maneiras, ter uma vida emocional plena etc. etc.? quando a vida pressiona, quem já não quis um comprimido que resolvesse, magicamente, o problema?
    nos estados unidos, os médicos muitas vezes entregam o assunto ao paciente e ao marketing. já quiseram que eu escolhesse uma pílula anticoncepcional (me recusei) e, quando eu disse que claritin funcionava para a minha rinite, perdi a chance do médico sugerir algo. simplesmente escreveu a receita. inversão?
    o equilíbrio não está em dar todo o poder aos médicos, suponho, mas ainda prefiro contar com o conhecimento deles do que submeter minha própria saúde aos meus não-conhecimentos médicos…

  2. Sandra disse:

    Karl, talvez me engane, mas creio que muitos prefiram ouvir a recomendação do laboratório que ler a monografia do fármaco ou mesmo passar o que resta de seu tempo livre consultando o PUBMED sobre farmacologia de novas drogas. Houve um tempo (faz tempo) onde eu estava dentro de uma estrutura acadêmica importante no panorama nacional e via pouca ou nenhuma motivação dos alunos em procurar respostas por eles próprios, apesar de disporem de uma das maiores bibliotecas da AL bem ao lado. Não creio que tenha mudado muito. Vejo em muitos colegas uma dificuldade em acessar e ler um artigo, mesmo depois da láurea e especializações.
    Não sei quem você seja, nem a sua especialidade, mas posso supor sua ligação com o meio acadêmico e acho que você pode acertar-se por si só da falta de educação para a leitura dos graduandos e pós. Certamente você frequenta congressos médicos.
    Uma coisa que vejo e me causa constrangimento é a avidez por míseros brindes nos vários stands nos eventos médicos. Me faz pensar no que nos tornamos por canetinhas e bolsas. Por outro lado, também é verdade que muitos usufruiram de benefícios da indústria farmacêutica muito além das bolsinhas e canetinhas e amostras grátis. Em especial em relação aos docentes de centros de renome, com patrocínios mais ou menos claros.
    Não, médicos não são imunes ao marketing farmacêutico. Médicos são relativamente ingênuos, não sabem e nem imaginam a real dimensão do mundo corporativo por trás de um fármaco. São incapazes de calcular em plantões e horas-aula o montante de investimento neste mundo.
    Desculpe-me minha amargura e meu desânimo. Talvez seja a “vecchiaia”, talvez seja depressão. Fluoxetina, Sertralina ou Citalopram?
    🙂

  3. Danilo Honorio disse:

    Não sou médico, sou paciente. Ao ir pra um Pronto Atendimento, fiquei perplexo com a quantidade de representantes destes laboratórios (todas moças bonitas e com roupas pregadas ao corpo) passeando pelo hospital. Fiquei me perguntando onde estaria o Conselho de Farmácia e de Medicina que permite esse estado de coisas? Custa-me crer que aquelas lindas garotas sejam meras distribuidoras de planfetinhos e amostras grátis, sem caráter comercial nenhum nessas “visitas”. E onde está a tal ética médica, tão evocada pelos médicos quando se trata de defender seus interesses corporativos??

  4. Karl disse:

    Danilo, acredite: Moças bonitas de vestido colado não são absolutamente nada. A BigPharma pode fazer coisas bem piores. Entretanto, acho que há uma certa confusão. A falta de ética dos médicos não está em relacionar-se com essas pessoas (que aliás, em geral, são muito legais), mas na forma de relacionamento. Essa forma, e nesse ponto com certeza concordaremos, tem sido vilipendiada por muitos profissionais médicos, não-médicos, farmacêuticos, pacientes……

  5. katia maria aprigio alves disse:

    No a constituição todos somos iquais perante a Lei, temos direito,a saúde, o que para muitos profissionais da medicina do qual fizeram juramentos perante aos homens e a Deus. Parecem ser esquezerem disso sou vítima de um grande erro médico, e ai, que traz a dor e as marcas sou ey, fui dianosticada como tendo leximaniose,sem interesse do profissional de saúde que achou desnecessario a biopsia estava na verdade com Leucemia linfocita cronica.Hoje controlada por iniciativa de um grande Angologista, que não me deixou a mercêr da sorte…..

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