Vendetta

Hoje meu filho de 12 anos me fez a seguinte pergunta: “Pai, qual é o instinto do homem?” Eu disse: “Não entendi a pergunta, filho!”. Ele: “Tipo assim (tudo começa com essa locução!), o instinto do joão-de-barro é construir a casinha para sua fêmea, a aranha faz a teia, qual é o instinto do homem?” Eu pensei, pensei e não soube responder.

Ele disse: “Eu acho que o instinto do homem é a vingança”. Eu fiz uma cara de espanto e perguntei porquê.
Ele disse: “Vi na televisão quando um guepardo comeu o filhotinho de um javali. A mãe do javali não quis se vingar do guepardo. Pegou os outros filhotinhos e foi embora. Se isso acontecesse com uma pessoa ela ia querer se vingar do guepardo e ‘mataria ele’. O homem é o único que se vinga.”

O homem é o único que se vinga?

Discussão - 21 comentários

  1. Rafael disse:

    Só mesmo a mente de um criança produziria algo tão brilhante. Filósofos morreria para fazer esta pergunta.
    Bem, macacos, chimpanzés por exemplo não só são vingativos como são conhecidos por criar arapucas para seus rivais, fora as torturas e outras coisas que fazem, sim, eles fazem isso e poucas pessoas sabem disto.
    Mas a vingança humana é diferente, não é tão direta. Nos vingamos de inocentes…
    E qual a diferença entre justiça e vingança? Aceitação social?

  2. Karl disse:

    Ok, Rafael. Mas a frase “o instinto do homem é a vingança” foi pesada de mais para mim, principalmente vindo dele.
    E o pior, estamos de novo a falar de essências!
    Obrigado pelo comentário.

  3. Carlos Hotta disse:

    Será que o instinto de vingança deve ter ajudado a manter o grupo coeso?
    Alguns morcegos de caverna compartilham sua comida quando eles voltam às suas tocas. No entanto, eles não dão comida para quem nunca oferece. Vingança ou controle social?

  4. Karl disse:

    Interessante esse exemplo dos morcegos. Entretanto, acho que o mote inicial foi vingança no sentido de revanche mesmo. A estória do olho por olho, dente por dente seria uma lei “natural”?
    Nesse sentido, um instinto de vingança só poderia ser vantajoso como forma de se fazer justiça; desde que o animal possa compreender o que isso quer realmente dizer. Mas aí, caimos na pergunta do Rafael: qual a diferença entre justiça e vingança?
    Esse “instinto” é tão básico que até uma criança consegue abstraí-lo. Contrapõe a velha questão entre o que é cultural e o que é evolutivo na nossa constituição como espécie. Não poderia deixar de contrapor esse raciocínio ao da “pressão seletiva para ser honesto” já comentado neste blog.

    • Meire disse:

      A vingança tem lá suas vantagens, sobretudo pelo fato de sermos egoístas. Parece-me bem certo que muita gente não age de maneira violenta porque teme as consequências ruins que pode sofrer justamente pelo sentimento primitivo de vingança que sabe ser presente em outras pessoas. Concordo com o moleque, viu. Acho que a vingança é inata.
      Sou humanista, racionalmente contra pena de morte, mas mesmo assim me vejo envolta em desejos íntimos de que certos elementos da sociedade desapareçam do convívio social para sempre e não consigo esconder alguma satisfação em saber que algum criminoso hediondo acabou sendo morto ou que alguém que cometeu um estupro foi quase morto por populares. Envergonho-me disso, mas…
      O sentimento de vingança possivelmente foi um dos motores para a formação de um Estado de Direito. Ela sempre parecerá algo justo para a vítima e por mais que nos pareça mesquinha e bárbara, surge quando nos vemos lesados.
      A sociedade precisou modulá-la e transferi-la para o poder do Estado pois o que ocorre na prática é que muitas vezes a ‘vendetta’ é bastante cruel e desproporcional ao ato que a gerou.
      O sentimento de vingança e de imputar a um desafeto ou criminoso uma pena o mais gigantesca possível é o que vemos nos tribunais das redes sociais..
      Se o povo fosse o Juiz para todos os crimes os ladrões teriam as mãos cortadas e a pena de morte seria generalizada, bem no estilo Talibã.
      Acho que a Justiça nada mais é que um tipo de vingança por procuração.
      Beijo

  5. maria disse:

    um pequeno filósofo, de fato! fiquei aqui pensando.
    será que se vinga quem pode? e poder não é só ter armas mais poderosas (o que a coitada da javalina vai fazer contra o guepardo?), mas também ter cérebro que chegue para formular o que aconteceu, manter a memória e planejar uma resposta. afinal, no calor do momento aposto como a javalina faz frente ao guepardo para tentar defender os filhotes.
    já vi gatos serem vingativos. a gente briga com um gato e ele fica ali olhando com cara de raiva. passa um tempo e algo vem: um xixi na cama, um ataque inesperado. gatos são parecidos com pessoas, por isso gosto deles. será que aprenderam conosco?
    na sociedade, a gente tenta transcender esse instinto da vingança. dizer que pena de morte não resolve nada, que a compaixão e o perdão elevam mais a alma. será que os javalis são mais evoluídos que nós? pergunte ao seu filho, por favor.

  6. Ok, não vamos falar em essências. Que tal Wittgenstein?
    A palavra vem do termo latino “vindicta” e já a encontramos grafada deste modo no século XIII com o significado de desforrar e castigar. O Latim jurídico, entretanto, assumiu para expressão “rei vindicare” o significado de “ação de reclamar uma coisa”. O sentido comum entre eles está, ao que parece, na noção de igualdade ou equilíbrio. Usa-se o termo vingança para qualificar uma ação que procura consertar um desequilíbrio, inicialmente em âmbito individual (vingança) e posteriormente em âmbito coletivo ou legal (reivindicar).
    Eu acho que seu filho – e aqui vem Wittgenstein – ao usar o termo vingança, aludia a este sentido de retribuição ou equilíbrio (são termos da mesma família). O homem é o único que se vinga porque é o único que percebe um sentido de proporção nas ações dos indivíduos. Se tal sentido é instintivo – como queria Aristóteles ao dizer que o homem é um animal político – eu não saberia dizer. Será que nosso mapa mental congênito já contém as coordenadas da proporção e da medida?
    A vingança (vindicta) é uma forma de justiça selvagem. Do mesmo modo, a justiça (rei vindicare) é a vingança civilizada.

  7. Karl disse:

    Homo vindictus!! Gostei.
    Seria esse sentido de proporção contra desequilíbrios – nosso instinto de vingança – o fator que possibilitou nossa vida em sociedade?

  8. Rogerio disse:

    Extrapolando o último pesamento, vingança como um fator para a manutenção do equilíbrio, como a medida exata da proporção dos atos e de seus efeitos.
    A Observação nos fez perceber que na interação entre corpos físicos toda ação leva a uma reação. A vingança pode não ser o fator de equilíbrio, e sim de desiquilíbrio.
    Talvez, a reação da mãe javali, retirar-se junto aos filhotes remanescentes, tenha sido uma reação acertada, provavelmente preservou sua integridade e do resto de sua prole. A vingança poderia provocar sua extinção, embora, em nós humanos, no caso de sucesso provocaria uma sensação de justiça (mas não repararia a perda de um filhote), será que a mãe javali teria o mesmo sentimento???
    A vingança, e a sensação de justiça, são reações e sentimentos humanos. Embora, chipanzés, bonobos, orangotangos e muitas vezes até gatos aparentem ter reações que lembrem vingança, seus fins devem ser outros.
    A nossa vingança e justiça deve ser incompreenssível, para qualquer outra forma de vida desse planeta, nosso instinto difere, em muito, do instinto dos outros seres vivos. Nossa sociedade é como afirma Karl, é moldada pelo instinto de vingança e pela sensação de justiça, cabe a nós saber se ela é auto-sustentável???

  9. Nanda disse:

    Que moleque esperto, esse seu!!!
    Sensacional!!!
    Essas crianças são demais, fazem cada uma!!!
    Tenho um blog só com esse tipo de história de criança… Vou fazer um post direcionando para essa sua postagem, pq adorei!!! hehe
    abraço

  10. Luiz Bento disse:

    Li essa reportagem e lembrei do seu post: http://migre.me/76r
    Macacos planejando algo no futuro? Doido…

  11. Karl disse:

    Interessante, Luiz. Mas a característica principal do chimpanzé é o planejamento de uma ação que na verdade é dirigida contra todos (os visitantes) e contra ninguém (em particular). Não se compara com uma vingança propriamente dita.
    Além disso, devido a seu mal-comportamento o chipanzé estava sendo encaminhado para castração. Imagina se a moda pega…

  12. maria disse:

    já li relatos de vinganças direcionadas em chimpanzé. algo como um deles ser favorecido por um tratador enquanto os outros assistiam detrás de grades. a retaliação era tal que chimpanzés relutam em aceitar brindes exclusivos se outros estão olhando.

  13. Blog Mallmal disse:

    Não. O instinto do homem não é a vingança. Mas a vingança é um privilégio duvidoso dos seres com telencéfalo desenvolvido e polegares opositores.

  14. Cristiano disse:

    Interessante questão. Mas acho que existem um problema de conceito. Não temos e nem nenhum animal mais complexo tem, apenas um único instinto, temos vários. O joão-de-barro tem o instinto de fazer casas de barro, mas não é o único instinto dele, é apenas o que nos chama mais atenção. Ele tem outros, como acasalar, voar, comer, etc… Não da para dizer de fato que um instinto se sobrepõe ao outro.
    Nós como animais mais complexos, temos esses e vários outros instintos também. A vingança é apenas mais um de nossos instinto.
    Acredito que o que nos torna humanos de fato, eh justamente nossa capacidade de poder escolher ir contra nossos instintos. A meu ver, quando nos rendemos a realizar uma vingança, somos apenas animais, mas menos inocentes.

  15. Karl disse:

    Sim, Cristiano. A pergunta é provocativa. Temos discutido bastante aqui o que é o humano, se existe a essência do humano, etc. Seu raciocínio é interessante primeiro porque admite a vingança como sendo um instinto dos seres humanos. Segundo, por definir a humanidade como uma ruptura com os instintos primitivos. A procura por instintos primitivos é uma das marcas da filosofia de Nietzsche e de alguns de seus seguidores, por exemplo. Procurar instintos ocultos em nossos comportamentos é uma prática salutar, quer dizer, ajuda a manter a saúde, e isso tem tudo a ver com medicina. Obrigado pelo comentário.

  16. Fabio disse:

    Não apenas vingança, e sim retribuição e malícia.
    O homem retribui o que sofre, seja bem ou mal, reciprocidade. Talvez seja o mecanismo de espelhar emoções. Raramente é indiferente a uma ação.
    Entretanto o homem também tem malícia, malandragem, instinto de trapacear para tirar vantagem de algo. Uma astúcia maliciosa.

  17. Fiquei maravilhada com a alma filosófica desta criança.
    Estou aqui pensando sobre este assunto e ainda não sei a resposta…hahaha
    Vou colocar no meu blog..ok??(com os devidos créditos) Faz a gente pensar e pensar..
    Bjsssssss
    Rê.

  18. Karl disse:

    Obrigado, Regina. Vi seu post no Maison d’Avila. Faltou só o link para o post original, né?
    Parabéns pelo blog e volte sempre!

  19. […] Pelo jeito, não é só o Homem que tem o instinto/impulso de vingança. […]

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