Mais sobre o Rubor Facial

Interessantíssimo artigo da Plos sobre a ruborização facial que algumas pessoas de origem oriental (japoneses, chineses e coreanos) apresentam após ingerir quantidades, mesmo que pequenas, de etanol.

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Rubor facial provocado pelo álcool no artigo da Plos

Quase 1/3 dos leste-asiáticos têm esse tipo de resposta associada ao etanol, muitas vezes acompanhada de taquicardia e náuseas. Isso é devido a uma deficiência genética de uma enzima hepática chamada aldeído-desidrogenase 2 (ALDH2). O etanol é metabolizado inicialmente a acetaldeído e depois para acetado pela ALDH2. A ALDH2 pouco eficaz dos orientais faz com que o acetaldeído, altamente tóxico, se acumule. Apesar desse achado ser bastante conhecido, o fato novo é que a ALDH2 menos eficiente é associada com risco aumentado para um tipo mortal de câncer – o carcinoma espinocelular de esôfago. Em alguns estudos, a chance (odds ratio) chega a ser multiplicada por 18.

O acetaldeído é o responsável pela ruborização facial e pelos outros sintomas constitucionais, mas também pela carcinogênese pois induz mutações genéticas que facilitam o aparecimento do câncer. Por incrível que possa parecer, a ingesta de álcool em pessoas com deficiência de ALDH2 vem aumentando nos últimos anos. Como estima-se que aproximadamente 540 milhões de pessoas apresentem o defeito genético, podemos imaginar o efeito disso em políticas de saúde pública.

Toda vez que temos um gene que codifica uma mal-adaptação a uma população, principalmente na frequência com que esse alelo incide, surgem dúvidas sobre qual o mecanismo que possa ter sido o responsável pela seleção do gene mutante. Já comentamos que essa pergunta institui a medicina evolucionária. Mas, segundo o raciocínio de um importante pesquisador poderia ser porque os japas beberrões são mais facilmente identificáveis pelas japinhas que assim se interessariam por eles, pois saberiam de antemão exatamente quando eles beberam uns sakês a mais, enquanto que os outros poderiam disfarçar melhor, já que o sakê, diferentemente da cachaça ou do uísque, não deixa o hálito alcoólico. Que tal? Na verdade, esse tipo de raciocínio – a resposta à pergunta: o que selecionou o alelo? – resume tudo que deveria ser investigado no assunto: nossa história evolutiva. Tentar contar essa história talvez seja a tarefa mais biológica que um médico possa desempenhar.

Discussão - 52 comentários

  1. Atila disse:

    Sei de uma melhor, mas não tenho o artigo na mão.
    Não são os japas que toleram menos o álcool, são os outros que toleram mais. Como fonte de líquidos segura nos últimos milhares de anos, já que água potável é meio recente, os europeus consumiam bebidas fermentadas, como o vinho e a cerveja (inclusive davam pras crianças). Enquanto os orientais tinham o hábito de ferver a água, e fazer chás.
    Acho mais interessante do que pressão para mostrar que bebeu.

  2. Sibele disse:

    Será que esta pesquisa seria considerada besteirol pela D. Ruth?
    Afinal, trata-se “só” de japas chegados no saquê… (desconsiderando todas as elucubrações do Karl sobre a enzima aldeído-desidrogenase 2 – ALDH2, ai, que palavrão!).

  3. Karl disse:

    Bebidas fermentadas necessitam de água puríssima para ser feita. Qualquer contaminação estraga definitivamente a bebida, seja vinho ou cerveja. Gostaria de ver o artigo, Átila.
    Sibele, sem dúvida, a pesquisa, que antes era quase “estética”, pelo mecanismo de ação do rubor facial pós-ingestão de álcool em indivíduos leste-asiáticos gerou um importante fator de risco. Hoje o paradigma de atuação da medicina é o risco. Fatores de risco movem nossas ações. A população sob risco nesse caso é de 540 milhões de pessoas; bastante razoável e suficiente para qualquer governo ficar de cabelo em pé. Obrigado pelos comentários.

    • Wilson Soares disse:

      Tenho 35 anos e sempre bebi. De uns 2 anos para cá após beber uma lata fico com rosto vermelho, coração acelerado, quentura na face e falta de ar. Fui ao hepatologista e o exames do figado estão ok, sem doença no fígado. Ele disse que o fígado deixou de produzir uma enzima que metaboliza o alcool. Só que não soube dizer o porque e não deu solução para voltar a produzir tal enzima. Curioso que meu colesterol está alto além de estar acima do peso. Já parei de beber mesmo. Só gostaria de saber se a falta dessa enzima prejudica em outra coisa e se há remedio para voltar ao normal.

      • Karl disse:

        O texto deve esclarecê-lo. Leia-o com calma. A resposta é que não há medicação para isso ainda. A saída é não beber mesmo. Obrigado pela visita.

        • Breno disse:

          Karl – Após o Covid 19 apresentei esses sintomas, você saber se existe algum estudo da relação do covid causar a inimição dessa enzima?

  4. Sibele disse:

    Karl, essa mudança de paradigma acompanha a trajetória dos países desenvolvidos, onde a epidemicidade e endemicidade clássicas desapareceram e só se verificam em situações excepcionais. Os estudos em Genética também contribuíram para esse deslocamento da atuação em saúde, da medicina curativa para a medicina preventiva, baseada nos fatores de risco indicados por vc.
    Apenas acho que aqui (falo do Brasil, mas tb dos demais países na mesma situação sócio-econômica) a atuação médica tem que contemplar as duas modalidades – a preventiva e a curativa, pois ainda perdura uma gama de doenças que pouco ou nada aparecem nas estatísticas dos países desenvolvidos, o que permite a esses uma maior atenção à prevenção e aos estudos dos tais fatores de risco.

  5. Karl disse:

    Átila, bem interessante o link. Vou ler com calma e tentar comentar.
    Sibele, acho que temos setores de Medicina Preventiva bastante atuantes. Mas no Brasil e “demais países na mesma situação sócio-econômica” a preocupação principal é fome e saneamento básico. Quando estivermos pesquisando genes como fatores de risco, estaremos em outro patamar…

  6. Karl disse:

    Acho que está mais para uma reportagem que um artigo, né? Muito curioso o assunto. No final, ele conclui que a presença do gene determinou o não-consumo de álcool e sim do chá pela população asiática. Continuo sem me convencer. Chutaria que isso possa ter um vínculo com alguma doença de forte pressão seletiva – bem na linha da “Sobrevivência do mais fraco”.

  7. maria disse:

    me faz pensar em “handicap theory”, uma das teorias da seleção sexual – o mesmo que tenta explicar a absurda cauda do pavão ou chifres quase impossíveis de sustentar. vai ver as japinhas favorecem, atualmente, aqueles que tomam uns saquês a mais e mesmo assim conseguem ficar de pé e armar uma conversa coerente!

  8. danilo disse:

    ola, apos grandes libações de alcool também apresento rubor facial as vezes acompanhada de taquicardia sem nauseas, nao tenho descendencia oriental, queria saber se o risco de carcinogeneses seria pelo uso em si do alcool em organismo sem “proteção”? ou se a propria falta da enzima é o fator de risco? Uma vez que acho que minha produçao de aldeído-desidrogenase deve ser normal ou diminuida pois tenho necessidade de grandes quantidades de alcool para inicio dos sintomas Caso a carcinogenese seja devido a agressão do alcool vou entra imediatamente com omeprazol… grato

  9. Karl disse:

    Caro danilo. Vc me parece um caso raro de normalidade. O alcool tem efeito carcinogênico hepático via cirrotização do fígado. Quem tem resistência, tem mais risco, pois acaba bebendo mais.

  10. Ronaldo disse:

    Boa Tarde! Gostaria de saber se há algum tratamento para curar essa deficiência do Aldeiro-Desidrogenase 2.
    Obrigado
    Ronaldo

  11. Karl disse:

    Por enquanto, que eu saiba, Ronaldo, a resposta é não.

  12. Lucas disse:

    Quando tomo cerveja fico todo vermelho, meu corpo esquenta, a cebeça começa doer e vem tbm um pressão forte na cabeça. A minha garganta as vezes fecha, mas ñ doi.
    Qual a cura pra isso?
    Me ajudem!

  13. Karl disse:

    Lucas. Por favor não beba, ok? Grande abraço.

  14. Ricardo Cambraia disse:

    Senhores,
    Tenho as mesmas reações que o Danilo… o rubor só aparece depois de longas jornadas etílicas, tipo final de semana prolongado… mas nesse final de semana… após umas 3 horas tomando chopp e depois cerveja…veio o rubor… Perguntas:
    1 – tenho que parar de beber?
    2- que tipo de médico (especialidade) devo procurar para pesquisar meu problema?
    Abraço
    Rioardo

  15. Karl disse:

    Ricardo, você deve ter uma deficiência parcial. Resposta: 1) quanto menos vc beber, melhor; 2) se quiser mais informações sobre isso, procure um bom hepatologista clínico. Grande abraço

  16. Ricardo Cambraia disse:

    Karl,
    Ouvi dizer que um remédio chamado METADOXIL eliminaria com rapidez os ACETALDEÍDOS… Vc tem informação sobre essa droga e seus efeitos para a síndrome do rubor facial?
    Grato
    Ricardo

  17. Karl disse:

    Metadoxil é piridoxina ou seja vitamina b6. Veja essa notícia:
    http://www.crfpa.org.br/Noticias/Outubro%202008/2410not1393.htm
    Larga esse vício, rapá! ; )

    • Gustavao disse:

      Boa noite, qual a ligacao de aldh2 deficiente em orientais, e a aldh2 q citam em artigos q falam sobre descoberta da aldh1 para tratamento de degeneracao apos infarto?
      Obg boa noite.

      • Karl disse:

        Caro Gustavão. Enzimas costumam demonstrar polimorfismo. Isso quer dizer que uma população pode apresentar 2 ou mais variantes de uma mesma enzima codificada por um único locus. As variantes diferem na sequencia de aminoácidos e isso é utilizado para identificá-las. A questão é que existem associações não previstas entre variações enzimáticas e algumas condições clínicas. Uma delas é essa que você citou. Alguns variantes da aldh2 parecem estar associados a infartos do miocárdio mais graves. Muitas dessas associações, entretanto, carecem de significância clínica enquanto outras realmente se mostram importantes e podem até fazer com que tais enzimas variantes se tornem marcadores de certas doenças. Obrigado pela interessante pergunta.

    • Júnior disse:

      Aí galera alguma notícia sobre Alda 1 ? Tipo se deu certo se vai ser mesmo lançado?

  18. Ricardo Cambraia disse:

    Confesso que não bebo tanto… mas me incomoda sobremanera ter que deixar a cervejinha de lado…uma a duas vezes por semana… e ainda tenho um agravante: refluxo gastroesofágico. A sorte é que o refluxo me levou a fazer endoscopias de dois em dois anos e ao uso diário do Pantoprazol… que deve ter segurado um pouco a onda…

  19. Ricardo Cambraia disse:

    Esse texto faz uma interessante distinção entre dois alelos da enzima ALDH, que explicaria a existência de efeitos mais amenos da síndrome do rubor facial:
    http://www.amigosdotransplante.org.br/cirrose%20alcoolica.htm
    “Existem 2 tipos de alelo para o ALDH, o 2*1 e o 2*2. O alelo ALDH 2*2 está presente em aproximadamente 50 % dos descendentes de Japoneses e Chineses. Pessoas que contém este gene tendem a acumular quantidades tóxicas de acetaldeído mesmo após um uso moderado do álcool. Os sintomas deste acúmulo são: rubor facial, aumento da pressão arterial, taquicardia, dores de cabeça, náuseas e vômitos. Consequentemente estas pessoas criam uma aversão ao álcool. Pessoas em que o alelo ALDH 2*1 está pareado com o alelo ALDH 2*2 apresentam uma resposta mais amena para estes efeitos.”

  20. Carmen disse:

    Olá!! Tenho 31 anos e desde os treze fui diagnosticada com uma tipo raro de asma: asma induzida por alcool etílico. Os sintomas vão bem além de face ruborizada e cheguei próximo de um choque anafilático. Não existe tratamento, até onde sei, e pelo que procurei a respeito é uma mutação genetica no gene ALDH-2. Você sabe dizer se é mesma coisa?
    Obrigada!

  21. mesmo sem bebidas de alcool, tenho rubor logo que levanto da cama, mais tomo diazepam e logo o rubor desaparece. Pergunto será isso problema nervoso ou naõ

  22. Karl disse:

    Jorge, consulte um clínico ou gastroenterologista. Valeu

  23. RICARDO CAMBRAIA disse:

    Vc sabe se a Alda-1 já é comercializada?

  24. rafael disse:

    comigo acontece as vezes, depois de passar grande nervoso, após alguns dias desse nervoso, vou beber e percebo um gosto estranho na boca, aí começa o coração acelerar e o rubor é muito forte, mas sem nauseas, será que problemas nervosos podem interferir no funcionamento dessa enzima? Quando não passo nervoso algum nada acontece. Eu percebo uma grande dilatação e muito calor no rosto como se tivesse queimado muito de sol e esse gosto estranho na boca, continuo a beber e depois de muitas mais cervejas o rubor desaparece e o coração desacelera deixando a pele até palida. Me de alguma opinião a respeito por favor. Obrigado

    • Lucas disse:

      Alguém encontrou alguma resposta definitiva? Tenho os mesmos sintomas após beber qualquer bebida alcoólica. Tem dias que tomo um baita porre e fico normal. Outras vezes tomo uma quantidade bem menor de cerveja e lá vem a vermelhidão.

  25. Jesiel disse:

    Olá, faço uso de Rivotril e sempre associei o mesmo com cerveja e bebia normalmente; de uns tempos pra cá não consigo tomar nada e apresento os mesmos sintomas de rubor asiático. Queria saber se o problema está no medicamento ou é enzima; li que o NAC-Acetilcisteína ajuda na redução da toxicidade do acetaldeído e gostaria de saber se procede. Agradeço

    • Karl disse:

      Não é uma boa misturar benzodiazepínicos (Rivotril – clonazepam) com álcool, Jesiel. NAC não resolve o problema. Obrigado pela visita.

      • Wilson soares disse:

        É possível adquirir com o passar de tempo deficiência nesta enzima?? Pelo que li os orientais tem esse problema de nascença. Várias pessoas estão tendo este problema. Ou é algo novo ou tem muita gente tomando antetanol sem saber. Só vejo esta explicação.

  26. Ariany disse:

    Bem,eu nunca tive problemas com bebidas,sempre bebi e nada demais aconteceu!MAS de um ano pra cá venho apresentando urticarias acompanhada de rubor facial,palpitação,uma situação desagradavel que só passa com anti-alergico!As vezes da as vezes não!Independente do que eu bebo eu sinto!Gostaria de saber se essa enzima ALDH2 pode ficar em falta um dia,já que acredito que nasci com ela pois sempre bebi e nunca tive problema com metabolização até ano passado!????

    • Wilson soares disse:

      Curioso. Sinto essas coisas há 2 anos. De lá pra cá só piorou. Com um copo já esquenta tudo, vermelhidao e coração disparado. Tenho um amigo que deu 2 vezes e não deu mais. Muito estranho. Já li bastantes relatos. Houve casos que a pessoa voltou ao normal depois de perder peso e baixar o colesterol. Outras estavam com imunidade baixa e após regularizar voltaram ao normal também.

  27. Everlandro disse:

    Olá, bebo apenas uma lata de cerveja e já começa o rubor e as palpitações, (bebia sempre umas 5). A pergunta é: se eu continuar bebendo posso morrer?

  28. Gustavao disse:

    A dose diária dá L-cisteina é de 1,5g, vc com 6 comprimidos tomou o dobro dá dose diária, pode estar gerando um problema secundário pense bem. Karl o que nos diz?

    • Karl disse:

      Pessoal. Seria preciso fazer um estudo clínico para que pudéssemos entender como a droga agiria. Assim não dá pra dizer nada e eu não endosso nenhum tipo de tratamento nesses moldes.

  29. Rafael disse:

    O meu problema de muitos anos, consegui agora resolver independente de passar nervoso ou muito stress, no dia que vou beber tomo em jejum 1 comprimido de omeprazol de 20mg e espero pelo menos 40 minutos para tomar o primeiro café, é um remédio que nunca tinha tentado tomar para isso, tomei também na época complexo B que resolveu bem mas que agora não surtia mais efeito eu continuava a ficar vermelho e coração disparado ao beber mesmo puco com o omeprazol percebi algo que não acontecia quando eu bebia que era arrotos (antes meu estomago ficava estufado e eu não arrotava de forma alguma) agora saem muitos arrotos e não acontece mais nada.

  30. Gustavao disse:

    Eai galera, alguma novidade sobre o assunto?interessantíssimo o tema!!!

  31. Leandro disse:

    Oi pessoal eu também tenho esse rubor facial quando bebo qualquer quantidade de álcool . Já existe Alda 1 para comprar ?

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