Ademar e Ademir

“Seu” Ademar era funcionário aposentado do Banco do Brasil. Tinha 85 anos. Viúvo. Entrou para o “Banco”, como costumava dizer, ainda rapazola. O Banco foi sua vida, como já os empregos não são mais. Não há mais empregos, há trabalhos. (Tem gente até mudando o nome para job). Enfim, “Seu” Ademar era um tipo de pessoa muito gentil. De um linguajar delicado e no limite entre a formalidade e a impessoalidade. Como muitos de sua geração que tenho a oportunidade de assistir, tinha um extremo respeito pela figura do médico. Obedecia cegamente às recomendações, o que me gerava uma enorme responsabilidade. Eu tratava de sua hipertensão e um leve diabetes. Quem me trouxe a vê-lo fora seu filho Ademir. Ele mesmo meu paciente. Excesso de peso, hipertensão provavelmente herdada, ansiosíssimo.

bullous.jpgUm belo dia, Ademir e Ademar na sala de espera. A secretária entrou no consultório comigo. “Melhor atendê-lo primeiro!” Quando ele entrou entendi porquê. Ao tirar sua camisa percebi que seus membros, tórax e dorso estavam cobertos de bolhas em vários estágios de evolução. As secas faziam com que a pele descamasse em pequenas “casquinhas” de pele que logo cobriram a mesa de exame. O diagnóstico não deixou muitas dúvidas. Era um penfigóide bolhoso. Uma doença que causa um aspecto repugnante mas que não provoca nenhum outro problema de maior importância e também não é transmissível. Na verdade, a doença faz parte das chamadas sindromes paraneoplásicas. Os médicos chamam assim doenças associadas a tumores de vários tipos. Quando tratamos o tumor, a doença desaparece. Fui procurar o tumor e achei. Infelizmente, metástases de câncer de próstata nos ossos. “Seu” Ademar já era prostatectomizado mas estava tendo uma recidiva do tumor. Encaminhei-o a um oncologista que disse que a única coisa a se fazer era o bloqueio hormonal. O câncer de próstata necessita de hormônio masculino (testosterona) para crescer. Quando bloqueamos o hormônio, bloqueamos seu crescimento. Assim foi feito.

Passados alguns meses, Ademar e Ademir na sala de espera. Entraram, conversei, examinei, orientei, fiz as receitas. O penfigóide já completamente curado, as metástases sob controle, assim como a hipertensão e o diabetes. Quando terminei, “Seu” Ademar me abordou de uma forma incisiva, como nunca antes: “Doutor, o Sr. já terminou?” “Sim” eu disse. “Por quê?” Nesse momento, Ademir, 65 anos disse “Pai, o Sr. quer que eu saia?” “Seu” Ademar, sem tirar os olhos de mim e com a mão espalmada, respondeu: “Você já tem idade para ouvir essas coisas. Pode ficar!” Eu, estático, acuado, e confesso, um pouco apreensivo, disse “Mas, o que é que foi “Seu” Ademar?”.

Ele então me olhou dentro da alma e disse “Doutor, esse remédio que estou tomando, de alguma forma, altera a potência sexual?” Ademir, sem jeito, “Pai, o Sr. não quer mesmo que eu saia?” Quase caí da cadeira. Inspirei bem fundo e, me aproveitando do ótimo relacionamento que tinha com ele, disparei “Por que, “Seu” Ademar, tem alguém reclamando?” A pergunta parece tê-lo pego de surpresa. Ele recostou-se na cadeira, fez uma cara de “meio sem-jeito” e disse “Sim, Doutor”.

(Me foi irresistível aproveitar da vantagem recém-adquirida na conversa para explorar a situação. Um senhor de 85 anos, com prostatectomia radical (o que por si, já causa um certo grau de disfunção erétil), com diagnóstico de adenocarcinoma de próstata metastático, o problema com o penfigóide, começa a usar um bloqueador de testosterona e reclama de disfunção erétil?! Era demais. Eu não poderia perder a oportunidade.) “E quem é a felizarda, “Seu” Ademar?” O Ademir entortou a boca em sinal de desaprovação.

A essa altura, Seu Ademar já tinha retornado ao seu fleugma habitual e com aquela doçura que só homens de sua geração podem demonstrar sem nenhum preconceito, ele disse “Doutor, tenho uma amiga; 50 e poucos anos. Ela mora sozinha. Ás vezes, eu a visito.” “Sim?” encorajei-o. “Então, Doutor. Posso dizer ao Sr. apenas que ela me recebe muito bem!” Ademir, de braços abertos, Ademar fingindo cutucar as unhas e eu, boquiaberto. Suspendemos a medicação, até porque ele também apresentou problemas hepáticos relacionados a seu uso.

“Seu” Ademar faleceu há alguns anos de complicações cardíacas e decorrentes do tumor. Cuido de Ademir e de sua esposa até hoje. Ele me disse depois que a “amiga” de “Seu” Ademar deu um “certo trabalho” em relação ao espólio do ex-funcionário do Banco do Brasil.  Ademir sente sua falta. Eu gostava de conversar com ele, aquele jeito meio “english”, a camisa abotoada até o colarinho. O “Banco” deve ter ficado triste. Não se encontram muito mais funcionários assim. Pacientes assim, homens tampouco…

Discussão - 9 comentários

  1. Rogério disse:

    O mundo em transformação… cada vez menos veremos histórias como essa… Principalmente, nos termos humanos da abordagem médica. Infelizmente, a medicina está perdendo o exame clínico e a propedêutica, dando lugar a uma medicina baseada em exames, condutas guiadas pelo medo (onde o medo entra algoritimos de livros texto e “guidelines”??).
    Bem, assim como são cada vez mais raros homens como seu Ademar, são cada vez mais raros médicos que olham os pacientes e tomam suas decisões em dados clínicos… Parabéns pelo relato. Desculpe a reflexão fugindo do tema.

  2. Karl disse:

    Ainda vou escrever sobre a “Medicina Baseada no Medo”. Obrigado pelo comentário, Rogério.

  3. Sibele disse:

    (Comentário um pouco atrasado…)
    Mas, Karl, o Sr. Ademar faleceu há “alguns anos”, conforme seu relato… foi antes do “boom” do Sildenafil, Vardenafil e do Tadalafil?
    Ah, sem esquecer do Iodenafil… com o sugestivo nome comercial de Helleva (daí a máxima: Welcome to HELL, EVA”…).

  4. Karl disse:

    Pois é. Já tinha tudo isso. Ele não usava nada!

  5. Sibele disse:

    Então, vc não deveria ter “quase caído da cadeira”, mas literalmente ido ao chão!
    Que fenômeno! “Um senhor de 85 anos, com prostatectomia radical (o que por si, já causa um certo grau de disfunção erétil), com diagnóstico de adenocarcinoma de próstata metastático, o problema com o penfigóide, começa a usar um bloqueador de testosterona”… realmente admirável, ainda mais sem o uso que qq substância…

  6. Karl disse:

    Cara, Sibele. Não se fazem mais funcionários do Banco do Brasil assim…

  7. Sibele disse:

    rsrsrsrs… pois é, Karl… atualmente o funcionalismo público está ficando cada vez mais frouxo…

  8. Tatiana disse:

    Olá! Conheci seu blog hoje e estava dando uma sapeada geral quando vi esse post. Assino embaixo do comentário do Rogério: é verdade que (infelizmente) há cada vez menos seres humanos como o “seu” Ademar, mas também é verdade (infelizmente!!!) que há cada vez menos médicos com essa visão humana.
    Trabalhei 5 anos como monitora de pesquisa clínica e acompanhei o trabalho de médicos em diversas cidades brasileiras, argentinas e peruanas dos hospitais públicos mais capengas às clínicas privadas mais frufus. Nesse tempo de indústria farmacêutica e proximidade com o cotidiano do cuidado a pacientes com os mais variados graus de enfermidade aprendi muita coisa. Uma delas foi avaliar com bem mais critério muitos dos medicamentos e a valorizar mais o chazinho da vovó. Mas a principal delas foi a descoberta de que dá pra contar nos dedos (talvez de uma só mão) os médicos que respeitam e cuidam de seus pacientes.
    Parabéns por ser um exemplar desse espécime em extinção!

  9. Karl disse:

    Tatiana,o Ecce Medicus é o forum para discussão sobre como a prática médica é e como deveria ser. Mais que ditar normas de condutas, é a reflexão que nos interessa. Sua experiência, portanto, conta muito. Espero contar com ela daqui para frente. Seja bem-vinda ao Ecce Medicus.

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