A Epidemia Hiperreal

A célebre estorinha conta que uma mãe passeava com o bebê no carrinho quando uma amiga chega e, encantada com a criança, diz: “Ah, que bebê mais lindo!” A mãe, toda orgulhosa, comete a frase que sintetiza tudo o que eu gostaria de dizer sobre a epidemia da gripe suína: “Você não viu a foto que tenho dele em casa!” Uma das maneiras de entender essa estória nos ajuda a compreender o fenômeno da epidemia da gripe que nos assola (não a gripe, pelo menos, ainda não! O fenômeno!).

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Se admitirmos, pragmaticamente, que somos seres comunicativos e que “produzimos” nossa própria realidade por meio da linguagem e da manipulação de símbolos, temos que aceitar que por vezes podemos “hiper-produzir” uma realidade: uma hiperrealidade. Mais “legal” do que o real, no sentido de mais crível, no sentido também de ser uma produção compartilhada por mais pessoas e por isso, mais real.

Não é uma mentira! Só é mais factível e por isso, mais “cool“. Sempre foi assim. O problema é que em tempos de comunicação ultra-rápida e globalizada, a chance disso ocorrer é bem maior. Ainda mais, quando parece imitar um roteiro hollywoodiano. O povo delira. A quantidade de fontes e textos sobre o fato reproduz-se mais rápido que um vírus. Toma corpo e vida própria. Sim, que importa que morram 200 pessoas anualmente no Brasil de gripe? (sem contar as mortes atribuídas que seguramente ultrapassam os milhares). Que importam nossas mortes violentas? Que importa agora o cerco à Palestina ?

A foto é mais interessante que o bebê real. A pressa em se buscar números, em divulgar, em embargar, matar porcos, criar listas de recomendações, faz a bolsa subir e descer, faz executivos pirarem, empresas falirem, coronárias entupirem. Faz as pessoas ficarem com aquela sensação estranha de falta de sentido, logo ele, sentido, tão importante na nossa vida. Mas isso é que nem gripe. Logo passa. Até a próxima doença hiperreal.

Discussão - 5 comentários

  1. Rogério disse:

    Afinal, o vírus se propaga com a mesma velocidade do vírus Influenza, a mortalidade parece que vai ser muito semelhante a do vírus Influenza (cuidado para idosos e pacientes imunodeprimidos). Ah, não devemos esquecer que ele pode ser traçoeiro, como o vírus Influenza, com mutações inesperadas… para quem não lembra foi, provavelmente, uma mutação que em 1918 levou a milhares de mortes na epidemia da gripe “espanhola”. Até parece que estamos fazendo alarde em cima de uma doença que conhecemos a décadas, e vestiu uma roupa diferente…
    Desculpe, acho que estou enganado! É de uma tal de gripe suína que falam… e olha que ela se transmite de homem para homem, e eu que pensei que era uma gripe comum…

  2. Rogério disse:

    Afinal, o vírus se propaga com a mesma velocidade do vírus Influenza, a mortalidade parece que vai ser muito semelhante a do vírus Influenza (cuidado para idosos e pacientes imunodeprimidos). Ah, não devemos esquecer que ele pode ser traçoeiro, como o vírus Influenza, com mutações inesperadas… para quem não lembra foi, provavelmente, uma mutação que em 1918 levou a milhares de mortes na epidemia da gripe “espanhola”. Até parece que estamos fazendo alarde em cima de uma doença que conhecemos a décadas, e vestiu uma roupa diferente…
    Desculpe, acho que estou enganado! É de uma tal de gripe suína que falam… e olha que ela se transmite de homem para homem, e eu que pensei que era uma gripe comum…

  3. Sibele disse:

    Karl, vc viu os artigos do Ruy Castro e do Luiz Felipe Pondé publicados na Folha de S. Paulo de ontem? Acho que tem muito a ver com este post…

  4. Karl disse:

    Vi. O do Ruy Castro, simplesmente perfeito. O do Pondé, uma argumentação de mau-gosto.

  5. Sibele disse:

    Mau-gosto? Concordo. E me enganei – o artigo do Pondé tem mais a ver com o post Vida: Definição.
    Já o do Ruy Castro é bem deste post, mesmo… a substituição do real pela representação (no caso, o Abelardo pelo Chacrinha).

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