Perguntinha Heideggeriana

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Quem nos mantém unidos, o medo ou o amor?

Discussão - 16 comentários

  1. Blog Mallmal disse:

    Se for pra responder sob a ótica do filhote do Kant, é claro que é o medo.
    Na minha opinião pessoal, não tenho certeza. Diria que 70% medo e 30% paixão (não amor).

  2. Luciana Christante disse:

    O medo, o medo da solidão; não foi para nos salvar disso que foi inventado o amor?

  3. Eron G. M. disse:

    Se por “amor” se tem uma necessidade egoísta, sim, é o “amor”.

  4. Sibele disse:

    Opto por uma terceira via: a necessidade.

  5. Aleph disse:

    Nem um nem outro: A CULPA!

  6. Daniel Christino disse:

    êita perguntinha difícil.
    Bem, pode ser que o Mallmal esteja sendo irônico, mesmo assim sou obrigado a dizer que Heidegger nunca foi kantiano. Aliás, um dos maiores arranca-rabos que ele protagonizou foi com Cassirer, o maior neo-kantiano da sua época. Outra coisa importante é lembrar que Heidegger não fala em medo, mas em temor. O temor não é um sentimento, é uma tonalidade afetiva, uma disposição – assim como o tédio. O temor diante da morte é um modo de ser que nos coloca diante de nosso ser mais próprio, a finitude.
    O amor é uma disposição derivada do nosso ser-com-os-outros. Nós nos ocupamos com as coisas do mundo, os objetos inanimados. Diante dos outros, nós nos pre-ocupamos. Do amor pode nascer uma ética. O que nos mantém juntos, entretanto, é nossa abertura para as possibilidades, nosso projeto de nós mesmos.
    Entretanto, para Heidegger, o temor é mais originário do que o amor.

  7. Resposta para um médico: Segundo as pesquisas sobre vinculo amoroso, tem a ver com os hormonios vasopressina e , liberados após o orgasmo e também liberados durante a amamentação. Sendo assim, se o amor tem sua base bioquímica diferente do medo (hormonios de stress tipocortisol etc), acho que poderiamos dizer que o amor é tão real (enquanto propriedade emergente) quanto o medo, de modo que o medo não é mais básico que o amor.
    Mas engraçado que tanto o sexo (e possivelmente o apaixonamento) como o medo são geridos principalmente pela amidala cerebral (em diferentes regioes da mesma), que é muito importante para a formaçao de memórias emocionais. Talvez a co-ativação das diferentes regioes é o que cause um aprendizado pavloviano que estaria na base do comportamento sado-masoquista.
    Então talvez esta seja a origem da pergunta Heiddeggeriana. Algum psicanalista ou biógrafo sabe se Heiddeger era sado-masoquista? O modo como ele tratou sua amante judia e suas simpatias pelo nazismo talvez indiquem uma tendencia sádica.
    LOL…

  8. Da ultima coluna do nosso amigo Reinaldo Lopes:
    Não podemos nos esquecer também do aspecto emocional: é com a mãe que qualquer tipo de mamífero aprende o que é afeto. Esse elo prazeroso e cheio de carinho entre dois indivíduos é mediado principalmente pelo hormônio conhecido como oxitocina. Alguns dados intrigantes sugerem que o elo duradouro entre homem e mulher na nossa espécie, bem como a parceria entre machos e fêmeas de espécies monogâmicas, vem da cooptação da oxitocina para outro papel no organismo. Portanto, o que chamamos de amor, do ponto de vista biológico, seria só uma variação sobre o tema comum do amor de mãe, como você pode conferir nesta coluna anterior.
    Lembrei do nome da amante-aluna de Heiddeger: a famosa filósofa Anna Arendt

  9. Karl disse:

    Heidegger não pode mesmo ser considerado kantiano. Entretanto, não só fala de medo como também o classifica (no paragrafo 30 de “Ser e Tempo”). Concordamos entretanto, que para ele o medo era uma disposição, configuração do ser. Por isso, a idéia aqui era fazer a leitura que Paul Ricoeur fez desse medo heideggeriano como um elo com a realidade muito mais fundamental e primevo que a relação sujeito-objeto na qual a ciência se dá. Com certeza o medo antecede a culpa pois esta depende do surgimento de algum tipo de ética. Já a necessidade é mais dificil. Se falamos de fome ou sede, por exemplo, estas são tão primordiais quanto o medo, ou mais. Entretanto, muito mais que nos unir, elas nos separam.
    Por fim, toda vez que tento uma abordagem reducionista de alguma função cerebral superior como o afeto, amor, culpa, etc, chego a um grupamento de neurônios, padrão de ativação, neurotransmissor ou hormônio. Fico animado e percebo 2 coisas: 1) a possibilidade de intervir sempre mexe com milhares de outras coisas e o efeito é quase o mesmo que se não conhecessemos as vias. 2) Como pode se dar a psicanálise nesse contexto? Ou, como ela se atreve a sobreviver à neurociência? Me desanimo.
    Obrigado pelos brilhantes comentários.

  10. Daniel Christino disse:

    Karl, concedo que para sua discussão o uso de medo ou temor não tem diferença nenhuma e não diminui nem um pouco seus insights filosóficos – instigantes, sempre. Nem quero parecer muito pedante ou arrogante ao dizer o que vou dizer. Me perdoe se soar desta maneira, minha intenção é só esclarecer. 🙂
    Heidegger não usa o termo alemão comum para medo Angst; ele usa Furcht. Ele faz isso porque precisa das regências preposicionais que este último comporta para explicar a dinâmica da tonalidade afetiva (disposição): umfürcht, fürcht aus, etc. A tradução brasileira – péssima em muitos outros lugares – acertou neste caso, na minha opinião, ao optar por “temor” e não medo. A tradução inglesa usa fear, mas porque fear pode derivar em fearsome, fearsomeness, etc. coisa que o nosso medo não pode fazer. Por isso boa parte da comunidade filosófica em língua portuguesa adotou a expressão temor! Outro problema está aqui: a tradução clássica de Ser e Tempo em inglês usa, para tonalidade afetiva, a expressão state of mind; ora, state of mind trai profundamente a raiz do termo alemão Stimmung, que está ligada ao contexto sonoro (voz, afinação). Com isso Heidegger queria interditar leituras psicologizantes das tonalidades afetivas. A interpretação de Paul Ricoeur é corretíssima porque expõe claramente a originariedade das tonalidades afetivas como modos de ser-em (configurações) do Dasein, como existenciais.
    Acho que a psicanálise sobrevive à neurociência na medida em que a consciência – independente da sua fisiologia – precisa chegar a alguma compreensão de si mesma, a algum sentido para a sua singularidade. Temos uma imagem de nós mesmos que excede a funcionalidade biológica e não pode ser reduzida a ela. Mesmo que a explicação fisiológica esteja certa, nós simplesmente não falamos o idioma do nosso corpo. A evolução nos obrigou a desenvolver um cérebro capaz de formar uma imagem de si mesmo através de um sistema de símbolos intencionais (Husserl). A psicanálise nos ajuda a ser no mundo de modo intencional, significativo. A fluoxetina, sozinha, nunca dará conta do recado.

  11. Karl disse:

    Apesar de reconhecer que temor ficaria melhor porque permite o verbo temer, na minha tradução está escrito medo! (Ed. Vozes, 3a ed, trad Márcia Schuback). Fui até ver de novo 🙂
    Chegamos ao ponto!

  12. Sibele disse:

    Nossa! A discussão foi a fundo, mesmo…
    E concordo com o Daniel (“A fluoxetina, sozinha, nunca dará conta do recado”). Acreditar no contrário remete ao Soma imaginado por Huxley em “Admirável Mundo Novo”. Utópico.

  13. Sibele disse:

    Bem, Karl… sobre sua edição traduzida, é bom desconfiar…
    Veja matéria “O mundo maravilhoso da palavra intraduzível”.

  14. Samantha disse:

    O que nos mantém unidos é o medo do amor… desde que o último seja um mistério… o medo, aparentemente, todos nós conhecemos bem.
    mas o que será o medo?
    o que será o mistério?
    food for thought!

  15. Chloe disse:

    Hoje pela manhã, enquanto caminhava na esteira (devia estar correndo) pensava sobre filosofia da linguagem, em especial sobre a pergunta: ‘a linguagem pode contribuir para o conhecimento da realidade?’
    Comecei a divagar sobre outras formas de ‘conhecermos’ a realidade.
    E se pudessemos apenas percebê-la, ao invés de ‘significá-la’,
    Como seria o mundo sem a linguagem falada/escrita?
    E se todos fossemos surdos-mudos?
    Conclui que provavelmente teriamos inventado uma linguagem de sinais (muito antes das Libras).
    Mas, e se também fossemos cegos…? Teriamos o contato com os outros e também de alguma forma inventariamos uma maneira de nos comunicarmos.
    E por mais que eu pensasse em mais um ‘e se’, sempre voltava a idéia central da troca de informações de alguma forma.
    De onde, após ler a pergunta do post, surge-me a seguinte resposta (fugindo das alternativas propostas):
    O que nos mantem unidos é a comunicação!
    Podemos estar unidos sem amor, podemos estar unidos sem medo.
    Mas não se vive, com outro ser, sem comunicação, ainda que esta seja tantas vezes truncada e, infelizmente, passivel de mal-entendidos.
    ; )

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