Subversão

Post Dedicado a um Geófago

Egberto Gismonti deu uma entrevista na Rádio Cultura em 3 de Maio. Entre outras observações ele sapecou “A grande vocação do brasileiro é a subversão. Subvertemos tudo. A política, as leis, as religiões. No meu caso, subvertemos a música.” Talvez por isso, nossa música e ele, em especial, façam tanto sucesso. A mesma razão de nossos políticos não gozarem das mesmas prerrogativas. A mesma razão de não termos confrontos religiosos de importância. A mesma razão do racismo em nosso país ter adquirido uma coloração diferente de outros países. E outras tantas.

Mas e quanto a nossa ciência? Subvertemos a ciência praticada em países desenvolvidos? Antes de mais nada, o que significa subverter a ciência? Com certeza, como no caso da 3529824371_311b84d703_m.jpgmúsica, subversão aqui não significará desonestidade, trapaça ou coisa que o valha. Ao contrário, falamos de uma subversão artaudiana, mix de razão e poesia. Hoje, pelo menos na minha área, há uma fila de professores do hemisfério norte desesperados para vir a um congresso no Brasil. Por quê? Para serem subvertidos por nós! Eles precisam disso. Morar aqui, ninguém quer. A subversão tem que ser na dose certa. É isso que estamos a (e precisamos) aprender.

Nada mais subversivo que falar a língua dos anjos e, também, a língua dos homens. Nada mais subversivo que Kuhn, Rorty, Egberto e Tom. A subversão que conhecíamos já foi legalizada como normal. Não é mais crítica, já não recorta. Hoje eles falam tanto espanhol quanto inglês. A comunidade européia se fecha em copas, exercita o racismo e a radicalidade. O que é ser subversivo? A França é a Alemanha. A Alemanha é o Japão. A Rússia, pasmem, é o Brasil. Mas qual Brasil? Um Brasil pós-ditadura com petróleo! E o Brasil é o quê? Oxímoro e por isso, subversivo e por isso, fonte de subjetividades que questionam o “Ser”. Nas palavras de Suely Rolnik:

“<Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente> – é com essas palavras que Oswald de Andrade inicia o Manifesto Antropofágico. (…) Estendido para o domínio da subjetividade, o princípio antropofágico poderia ser assim descrito: engolir o outro, sobretudo o outro admirado (grifos meus), de forma que partículas do universo desse outro se misturem às que já povoam a subjetividade do antropófago e, na invisível química dessa mistura, se produza uma verdadeira transmutação. Constituídos por esse princípio, os brasileiros seriam, em última instância, aquilo que os separa incessantemente de si mesmos. Em suma, a antropofagia é todo o contrário de uma imagem identitária”.

Qual imagem identitária você tem de si mesmo?

Discussão - 11 comentários

  1. Clarissa disse:

    Eu parei de pensar na imagem que tenho de mim mesma há algum tempo, porque eu sou uma, mas sou tantas ao mesmo tempo (!)… =P

  2. Rudolf disse:

    Clarissa Linspector psicografada! 😮

  3. Sibele disse:

    “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
    Mas um dia afinal eu toparei comigo…”
    (Mario de Andrade)
    Afinal, quem de nós é um só?
    E aí vai a poesia completa:
    O poeta como amendoim
    Brasil…
    Mastigado na gostosura quente do amendoim…
    Falado numa língua curumim
    De palavras incertas num remeleixo
    melado melancólico…
    Saem lentas frescas trituradas
    Pelos meus dentes bons…
    Molham meus beiço que dão beijos
    Alastrados
    E depois semitoam sem malícia as
    Rezas bem nascidas…
    Brasil amado não porque seja minha
    Pátria,
    Pátria é a casa de migrações e do
    Pão nosso onde Deus der…
    Brasil que eu amo porque é ritmo do
    Meu braço aventuroso
    O gosto dos meus descansos
    O balanço das minhas cantigas
    Amores e danças.
    Brasil que eu sou porque é minha
    Expressão muito engraçada,
    Porque é meu sentimento
    Pachorrento,
    Porque é meu jeito de ganhar
    Dinheiro, Eu Sou Trezentos…
    Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
    As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
    Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
    Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
    Abraço no meu leito as milhores palavras,
    E os suspiros que dou são violinos alheios;
    Eu piso a terra como quem descobre a furto
    Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
    Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
    Mas um dia afinal eu toparei comigo…
    Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
    Só o esquecimento é que condensa,
    E então minha alma servirá de abrigo.
    Mario de Andrade
    In: Poesias completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1987. 535p.

  4. Fernando disse:

    Caro Karl, você escreve muito bem dá gosto de ler o seu blog, onde aprendo de forma descontraída.
    Se bem que em nossa política não há uma subversão, precisamos de uma subversão mesmo. Eu não creio na “democracia” na verdade bem podemos chamá-la de plutocracia. Democracia representativa nem é representativa nem é democracia, mas engodo.
    Fico feliz em saber que os médicos do hemisfério norte desejem vir ao Brasil para receber uma dose de subversão.
    Tivemos muitos brasileiros subversivos, na área da educação temos Paulo Freire. Na antropologia temos os irmãos Vilas-Boas, se bem que eles não eram antropólogos lhes faltava o maldito canudo, vulgarmente conhecido como diploma, então esses irmãos são conhecidos como sertanistas. Mas como eu sou subversivo, eu os cognomino de antropólogos.
    Qual é a imagem que tenho de mim? Eu me vejo como um subversivo, solitário e diferente da massa manipulada pela mídia e que não consegue ultrapassar o senso comum.
    Nossa, escrevi muito….
    Mil perdões.

  5. Karl disse:

    Fernando, se vc acha que aprende aqui, imagine eu! Descobri que um blog é a melhor forma de expor ideias e compartilha-las, enriquecendo ambos os lados. São raras as situações nas quais todos ganham, não é mesmo?
    Bem apropriados os versos, Sibele. Diria, Rudolf, que Clarissa está a beirar o pessoismo também.
    Obrigado por todos os comentários.

  6. Sibele disse:

    Obrigada, Karl. Desculpe-me por tomar tanto espaço… mas este poema de Mario de Andrade (que aliás foi um dos animadores do Movimento Antropofágico, junto com Oswald et al), a meu ver, ilustra bem a idéia expressa no texto da Rolnik.
    Eu também aprendo muito aqui. E o que é o aprender senão estabelecer relações, dialogicamente? Artaud, Deleuze, Guattari , Oswald, Antropofagia, resistência à homogeinização… e Geófagos (em especial a crise ali esboçada…)
    E parabéns por esta linda homenagem ao seu amigo Geófago. Aliás, parece-me que ele é admirador de Ariano Suassuna… expoente da 3ª geração desse movimento cultural iniciado no Brasil nos anos 20…

  7. Sandra disse:

    Karl, será que eles querem mesmo ser “subvertidos”, ou simplesmente fazer um pouco de turismo subsidiado?
    Desculpe-me a pouca poesia e a amargura, mas vejo muito pouca “contaminação cultural” ou traços de “subversão” nos professores convidados quando retornam aos seus nichos de excelência.
    Eu sou uma mãe-médico, 24/7, me sinto um médico mesmo quando não “estou” médico e uma vez mãe, sempre mãe. Será um vício de raciocínio? Boh, acho que a imagem que temos de nós mesmos passa pelas nossas ações, são um reflexo delas. E se é isto o que eu faço, o que realizo, é isto o que sou. Facio, cogito, ergo sum.

  8. Karl disse:

    Caríssima Sandra (tava sumida, hein?). A resposta à sua pergunta depende do lado de quem vê. Não nego que muitos pensam da forma como vc descreve, entretanto, tenho exemplos claros do outro lado. Quanto ao seu raciocínio do facio, ergo sum, lembro que ele foi bastante explorado por Marx. Em que pese, a filosofia libertadora desse raciocínio, hoje já não se admite considerar um indivíduo apenas pelo que ele produz. Os efeitos colaterais dessa fórmula são bem piores.
    Não acho um vício de raciocínio. Ser médico é uma experiência muito marcante. Ser mãe deve ser mais, mas sobre essa, eu não posso falar…

  9. Chloe disse:

    Caro Karl,
    e por falar em subversivos…
    Essa postagem, em especial a frase ‘a antropofagia é todo o contrário de uma imagem identitária’, ativou minha memória em 2 textos:
    .
    – ‘Do pensar por si’ – Schopenhauer – um texto bastante árido onde o autor diferencia o ‘pensador’ do ‘mero homem de conhecimento’:
    ‘Ler é pensar com a cabeça de outrem em vez da própria. Pensar por si é esforçar-se para desenvolver um todo coerente – um sistema, mesmo que não seja estritamente completo.’
    .
    – ‘Do gênio da espécie’ – Nietzsche – um texto muito interessante, onde o autor trata da tomada de consciência pelo ser humano e da vulgarização das idéias na medida em que são comunicadas, ou da ‘perspectiva de rebanho’, e do quanto isso distancia a pessoa de si mesmo:
    ‘… cada um de nós, com a melhor vontade de entender a si mesmo tão individualmente quanto possível, de “conhecer a si mesmo’, sempre trará a consciência, precisamente, apenas o não-individual em si, seu “corte transversal” …
    Nossas ações são, no fundo, todas elas, pessoais de uma maneira incomparável, únicas, ilimitadamente individuais, sem dúvida nenhuma; mas, tão logo nós as traduzimos na consciência, elas não parecem mais sê-lo…’
    .
    A influência externa nos afastando de nós mesmos.
    .
    Meu espelho reflete dúvidas diversas, medos, sede de saber e uma lacuna gigante; se é que posso dizer que ‘me vejo’ nele.
    .
    Abçs. ; )
    C.

  10. Karl disse:

    Boas referências…

    Mas, eu mudaria várias coisas nesse (meu) texto… Hehe
    obrigado pelo comentário.

  11. Chloe disse:

    É só mudar! : )
    Uma releitura, uma ‘nova maneira de ver e sentir’, a partir de uma pessoa ‘diferente’!
    Aguardo… ; )

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