Cafajestagem e Ceticismo

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Um cafajeste e a relação que ele tem com sua(s) mulher(es) é algo a ser melhor estudado. É uma típica relação humana e pode trazer esclarecimentos quanto ao funcionamento de outros tipos de relação que seres humanos perpetram entre si. Se não, vejamos.

Um cafajeste é forte. Forte no sentido de que não dissimula algo que não é. Ele é cafajeste, age como um, veste-se como um e todo mundo sabe exatamente o que ele é. Na hipótese remota de uma mocinha ingênua ter uma ponta de dúvida sobre sua índole, TODAS as suas amigas (e inimigas também) se encarregarão de, na primeira oportunidade, alertar a “pobrezinha”, muitas vezes com um prazer mórbido difícil de explicar, sobre o caráter bastante duvidoso da figura com a qual ela está se envolvendo. E mesmo assim, e talvez por causa disso, não faltam e, provavelmente, nunca faltarão, mulheres aos cafajestes. E por quê? Por que alguém se envolveria com uma pessoa que sabidamente é moralmente deplorável? A resposta é simples: por que uma pessoa assim não deixa margem a dúvidas! Viver no devir é extremamente desconfortável e angustiante. Sabe-se exatamente o que esperar de um cafajeste; e também o que não esperar. Sabe-se exatamente no que acreditar e no que desacreditar. É seguro.

Mas nem todos os homens são fortes no sentido cafajestiano da palavra. A dissimulação é comum. Uma mulher normal sabe que uma boa dose de ceticismo quanto ao comportamento masculino não é nada mau. Porém, a dose desse ceticismo é que é difícil de acertar. Se pouco, podemos estar deixando passar coisas importantes. Se muito, destruirá a relação por falta de confiança.

Rupert Sheldrake no The Edge escreve que “na prática, o objetivo do ceticismo não é a descoberta da verdade, mas a exposição do erro de outras pessoas. Ele desempenha um papel importante na ciência, na religião, na academia e no senso comum. Mas, precisamos nos lembrar que ele é uma arma servindo a crenças ou interesses próprios. Precisamos ser céticos sobre os céticos. Quanto mais militante um cético for, mais forte serão suas crenças.

E Sheldrake descrevendo assim o ceticismo esclarece a cafajestagem: a(s) mulher(es) do cafajeste não almeja(m) a descoberta da verdade. Não necessitam provar o erro de ninguém. Não se utilizam da arma do ceticismo e de suas armadilhas contra si mesmo. (Ser cético sobre os céticos.) Não militam e nem alimentam ilusões. São o que são. E são livres.

Discussão - 10 comentários

  1. José Moreira Neto disse:

    Excepcional esse texto simples,claro e direto e muito interessante

  2. Igor Santos disse:

    E como se alcança esse balanço?
    Como pode alguém saber se está sendo mole, correto ou xiita? Autoanálise é uma coisa muito difícil e crítica alheia funciona tanto quanto tortura.
    Antes de ser cético é necessário ser humilde, mas, novamente, deve existir um ponto médio ótimo, porque humildade demais leva à submissão e de menos não é humildade, é falso moralismo (“só sou humilde quando me beneficia”, por exemplo).
    Estou aprendendo na marra que, na dúvida, a melhor estratégia é ficar calado…

  3. Sibele disse:

    Fecho com o Igor. O balanço é mesmo difícil de ser alcançado. Esperava que o Scienceblogs fosse um canal de diversidade de opiniões, na acepção de Habermas – incluindo até mesmo o ceticismo, não como arma, mas como troca genuína de opiniões.
    E, como o Igor, estou aprendendo a duras penas que a melhor estratégia é mesmo ficar quieta e calada.
    Aí pergunto: elas são mesmo livres?

  4. Luís Brudna disse:

    O Sheldrake deve ter aprendido em uma das conversas telepáticas com um papagaio. 🙂
    http://scienceblogs.com.br/cretinas/2008/09/papagaio-telepatico.php

  5. Caro Karl,
    Duvide-o-dó que existam pessoas livres: agimos por instinto e outras motivações biológicas, em 99,999999999% dos casos (o resto eu deixo para o acaso).
    Um abraço!

  6. Karl, como assim que o cafajeste não dissimula? Só se for entre seus amigos/cúmplices, porque para a mulher que ele quer conquistar, ele dissimula sim, e como! A mulher do cafajeste não alimenta ilusões? Eu diria que todas se apaixonam em algum momento (isso é ser livre?) e se iludem pensando que poderão convertê-lo à monogamia, mesmo que isso signifique a eterna vigilância. A citação sobre o ceticismo é ótima, mas a associação com a cafajestagem não me convenceu :-)Bjs.

  7. Sibele disse:

    [ironia] O eritis sicut dii também serve para os cafajestes? [/ironia].

  8. Karl disse:

    Caríssimos, obrigado por todos os comentários. Excetuando-se o José M. Neto (obrigado), a galera tá batendo forte! hehe. Mas, o que é a vida sem uns tombinhos não é mesmo?
    Igor e Sibele. Passamos a vida procurando o meio-termo entre acreditar e desacreditar. Com frequência erramos a mão. Gosto de pensar em algumas atitutes como ferramentas. Acho que foi isso que o Sheldrake quis dizer sobre o ceticismo. Ele não pode ser considerado uma filosofia de vida, senão vira religião.
    Sibele. Você acha que o SBBr não permite essa troca de opiniões? No que tocar especificamente ao Ecce Medicus, por favor seja explícita, ok?
    Stephen, Sibele e Luciana. A cafajestagem provoca mesmo paixões! ; ). 1) Um cafajeste dissimula TUDO, menos que não é cafajeste. Se assim não for, não merece o “crachá de cafa”, pelo menos no meu modo ver. 2) Luciana, sua “eterna vigilância” é a pura síntese do argumento do post: sob esse ponto de vista, o ceticismo poderia ser encarado como uma “eterna guerra” em busca de uma “paz” projetada e idealizada chamada Verdade. Nesse sentido é que a mulher do cafajeste é livre: apesar de seu infinito sofrimento, ela recusa essa guerra (de saber o que ele anda fazendo por aí – ou seja, a Verdade), aproveita os momentos com ele (que geralmente são MUITO bons, quando se trata dos grandes cafajestes) e vai curar suas chagas depois. A mulher do cafajeste não ama agnosticamente um ponto de interrogação.
    Luis. Acho (espero) que o Sheldrake melhorou depois disso…

  9. Fernando disse:

    Caro Karl, concordo com seu artigo. É incrível como as mulheres (não todas é claro) se apaixonam pelo cafajeste. Muitas mulheres são céticas acerca do caráter dos homens e não poucas afirmam: “homem não presta”. Se “homem não presta” é melhor cair nas mãos do cafajeste assumido do que cair nas mãos daquele que se mostra um bom companheiro.
    Li há pouco tempo num blog um assunto semelhante a este e que gerou muita polêmica.
    Caso alguém se interesse pelo artigo, ei-lo: http://www.osamorais.com.br/2009/04/30/toda-mulher-quer-um-babaca-ou-ser-o-cara-legal-e-uma-merda/

  10. Sibele disse:

    Karl, foi apenas uma impressão que tive. Talvez exagerada e extrapolada, mas ainda assim, uma impressão.

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