Artigonistas e Libronios

2008_09_21_22_30_36_livros_abertos.jpg Já se vão alguns anos desde minha formatura (jamais saberão quantos, hehe) e tive a oportunidade de ver algumas mudanças importantes na medicina, na ciência médica e, como não poderia deixar de ser, na prática médica – um corolário das duas primeiras. Uma das mudanças das quais já falei foi a digitalização dos artigos e a facilidade de encontrá-los em contraposição com a enorme dificuldade de fazer um levantamento bibliográfico antes do advento da National Library of Medicine e do PubMed.

Bem antes disso tudo, a transmissão do saber médico estava vinculada à figura do “professor de medicina”. Era esse professor a fonte das novidades. Era ele quem atravessava o Atlântico uma vez por ano de navio, normalmente em direção à França, mas também á Inglaterra em busca de novidades que seriam repassadas em doses homeopáticas em grandes visitas à beira leito. Depois, os livros importados, as revistas fotocopiadas para, finalmente, chegarmos à verdadeira devassidão de arquivos pdf trocados em emails e pendrives individuais ou grupos de estudo com disseminação geral do conhecimento, computadores de mão e até celulares, levando centenas de megabytes de informações ao bolso dos médicos.

Essa facilidade de estar atualizado às vezes, com estudos que ainda não foram publicados, de ter acesso a centenas de publicações tão facilmente, não poderia deixar de influenciar a conduta do médico. A medicina é uma profissão que depende de um saber científico e a tensão da decisão prática da qual já falamos tanto, é irredutível. Com isso, houve uma diminuição da utilização dos livros técnicos em detrimento aos artigos científicos. Chegando ao ponto dos “pais fundadores” da medicina baseada em evidência decretarem a morte dos livros de medicina.

artigos.JPGQual o papel dos livros de medicina na formação do médico? Será que o conhecimento adquirido por meio de artigos científicos e revisões é do mesmo tipo daquele adquirido junto aos livros?

Poderíamos dividir os médicos em duas populações: os provenientes do planeta Artigon e os do planeta Libron. Artigonistas argumentam que livros demoram a ser escritos e quando publicados já apresentam um grau de obsolescência considerado inaceitável. Os artigos permitem trabalhar dentro da melhor evidência possível por serem atualíssimos. Libronios dizem porém, que artigos causam fragmentação do conhecimento. Não permitem um conhecimento exegético do assunto. “Mas quem quer conhecimento exegético?” – perguntaria um artigonista. “Aqueles que querem ter uma visão crítica de um assunto!” – responderia um libronio, numa discussão sem fim.

A medicina pela sua inerente relação com a prática, talvez seja uma das únicas atividades de cunho científico que permite essa dúvida. Medicina de livro ou de artigo?

Discussão - 9 comentários

  1. Karl disse:

    Não vale dizer que é um meio termo entre os dois!

  2. Fernanda disse:

    Mas, Karl….
    Os objetivos de quem lê um livro e um artigo são diferentes.
    Ao redigir manuscritos científicos, cansei de ouvir de orientador que não colocasse “conhecimento de livro” no texto – pressupõe-se que o leitor já tenha o conhecimento de base sobre o assunto (jamais se explica, por exemplo, como um nefron funciona em um artigo sobre um novo protótipo com atividade diurética). O livro é fonte para quem quer ter uma visão geral do assunto ou quer aprender sobre ele sem a exigência de um aprofundamento prévio.
    O artigo científico tem as últimas novidades sobre um tratamento determinado em condições determinadas. Serve para embasar questões pontuais – e quem fez a pergunta deve ter um bom domínio prévio do assunto.
    Artigos e livros não são excludentes, mas sim complementares. Não vejo motivo para polarizações.
    Parabéns pelo seu blog, é muito bom.
    Abraço
    Fernanda
    http://bala-magica.blogspot.com

  3. Karl disse:

    Fernanda, o objetivo seria a prática médica. Há, e você deve conhecer pessoas assim, quem advogue o abandono dos livros para o ensino de medicina. Só a prática e os artigos… Ciência médica é outra coisa. Artigonistas diriam, como vc, que o artigo contém as últimas novidades de um assunto específico. Um libronio renitente, diria “sim, tratamentos que ainda não provaram sua superioridade, nem foram consolidados na prática clínica”.

  4. Sibele disse:

    Ah, Karl… só vc mesmo! Acha polêmica até entre os planetas “Artigon” e “Libron”, rsrsrs…(e desconfio que vc gostou muuuito mesmo de assistir a “Star Wars”…).
    A verdade é que para algumas áreas, em especial as da Saúde, onde o conhecimento (evidências?) tem um fluxo altamente dinâmico e veloz, realmente o processo de produção de livros tradicional é extremamente moroso. Mas, embora eu creia que os artigos científicos atuais já propiciem uma boa fundamentação teórica, principalmente os de revisão, também acredito que somente livros permitem uma abordagem ampla, exaustiva e aprofundada sobre determinado assunto, coligidas em apenas um recurso, impossível em artigos premidos pela limitação de número de páginas.
    A meu ver, a questão maior não é no formato, se livro ou artigo, mas na rapidez de atualização, acesso e disponibilização dos conteúdos. Vc mesmo narrou a via crucis que era consultar artigos indexados no Index Medicus (faz tempo isso, heim, velhinho). O feliz advento e desenvolvimento da internet resolveu (e ainda está resolvendo) esta questão (ao menos em relação aos artigos científicos), e acho até que as Ciências da Saúde muito contribuíram para alavancar esse avanço de publicações científicas online, na vanguarda de outras áreas, que a seguiram.
    Resta estender essas vantagens tecnológicas aos livros. Já existem várias iniciativas para os e-books (como para artigos, já há bases de dados de e-books especializados). Mas persistem algumas questões, tais como os direitos autorais, a interface desconfortável do texto virtual #que para alguns, é determinante na escolha pelo livro em papel ou pelo virtual#, a portabilidade, etc, etc. O andar da carruagem mostra que aos poucos, estas questões tendem a ser resolvidas. A porabilidade, por exemplo, já encontra boas soluções tecnológicas, como o Kindle, e a tendência é a cada vez surgirem mais e melhores soluções.
    E last but not least, o principal – o leitor. Quando surgiram os artigos científicos online, muitos os desacreditaram. Hoje, são imprescindíveis. Talvez os e-books sigam a mesma trajetória de paulatina adesão pelos leitores.
    Então, mesmo não valendo “o meio termo entre os dois”, fico, sim, salomonicamente, com os dois! 😀
    E viva a união intergaláctica! Viva os Artigons! Viva os Librons!

  5. Rudolf disse:

    Recentemente um professor de física me disse que o que separa as ciências são os métodos. Cada ciência tem seu próprio e isso define sua particularidade. Por exemplo um químico analisando um átomo faz isso de maneira diferente que um físico o faz para o mesmo particular átomo.
    Só disse isso para mostrar que como engenheiro meu conhecimento sobre os métodos da medicina são limitados e não me atrevo em questionar o resultado de séculos de experiência médica. Direi como EU, como engenheiro, trataria um problema (doença) desconhecido. Engenheiros experimentam e erram muito em pequena escala (com coisas baratas = equações, modelos e protótipos) até aprenderem e fazerem uma coisa em que confiam e podem cobrar caro por ela. Por isso gosto de dizer que engenheiro só sabe fazer o que já fez funcionar antes. Acredito que médicos não possuem esse luxo.
    Eu conheceria bem os livros, mas seria cético em tudo o que não parece bem explicado. Assim também com os artigos. Tudo com o que tivesse dúvidas faria meus próprios experimentos. Por mais provado que uma coisa possa ser, sempre se aprende muito experimento elas por si mesmo. Acho que eu só confio no que eu já experimentei. Esteja em artigo ou livros, acredito mesmo no que eu fiz funcionar e não tanto no que eu li ou ouvi a respeito. Ler a respeito me dá novas idéias, mas não me dá novo conhecimento tácito.

  6. Karl disse:

    Caríssimos, eu às vezes acho mesmo que polemizo irrelevâncias… Porém, tive a conversa que motivou esse post muito recentemente com um médico que tem um dos maiores consultórios de São Paulo! Ele acha que medicina se aprende em livro. Um artigo ou outro para “preencher os buracos” deixados pelo textbook. Bem diferente essa abordagem daquela onde cada passo ou encruzilhada médica é submetida a um escrutínio minucioso da literatura e depois, essa quantidade enorme de informações avaliada por meio de um critical appraisal. Não digo que isso não deva ser feito nunca. Pelo contrário, deve ser um procedimento reservado para algumas situações específicas, não contempladas em textos consagrados sobre o assunto, ou pertencentes a casos específicos dos quais não temos dados suficientes para deliberar.
    A base de qualquer conhecimento depende de uma explicação didática, extensa e até morosa, que a velocidade, a exiguidade e a agilidade de informação de um artigo não pode contemplar. Talvez os artigos devam ser reservados às pesquisas, às exceções e, principalmente, à discussão, forma seminal de progressão do conhecimento.

  7. Renan Lopes disse:

    Fala aqui um libronio. Não que eu desacredite nos artigos – pelo contrário, os utilizo quase diariamente. Sou particularmente interessado nas revisões sistemáticas e nos guidelines, por considerá-los mais práticos para o dia-a-dia. Mas compartilho a opinião de quem os reserva para situações específicas ou para formalizar algum juizo crítico, atualizado, sobre alguma QUESTÃO da prática clínica – e graças às questões que surgem que nos direcionamos aos artigos. De forma um pouco diversa, os livros são alicerces de conhecimento que merecem ser constantemente revisados, até o limite de sua atualização. Até mesmo porque, nos dias de hoje, muitos livros trazem informações baseadas em evidências apresentando seu grau de recomendação ou nível de evidência após cada informação. Além do que, poucos Googles ou PubMeds substituem um bom índice remissivo: é bom lembrar que aqueles são “operador-dependentes”.

  8. Sibele disse:

    Karl, este assunto com certeza não é irrelevante, e vc merece todo o crédito por introduzir esta polêmica, que acredito pouco discutida.
    E concordo que o conhecimento, principalmente na área médica, se adquire com muito estudo, extenso e moroso (a graduação em medicina é de 6 anos, complementada com residência/especialização, de no mínimo 2 anos, dependendo da especialidade), tanto na teoria como na prática. A morosidade a que me referi, de forma negativa, é aquela relativa à demora na edição de livros em papel.
    Para a aquisição e fundamentação de conhecimento médico (e de qq outro, a meu ver), os livros-texto são essenciais, e os artigos cumprem o papel de atualização e pesquisa. O que acho (e talvez neste ponto eu não tenha sido clara) é que fica difícil vc renovar sua biblioteca a cada vez que sai uma nova edição do calhamaço de (atuais) mais de 2506 páginas (além do CD-ROM anexo) do “Cecil Textbook of Medicine” (agora na sua 22ª edição, de 2004), por exemplo. Inclusive esta demora na edição de livros foi um dos fatores para os papers ganharem tanto espaço, culminando com o odioso “publish or perish e todas as suas consequencias bem conhecidas.
    E olhe que este estudo em textbooks teria que ser, necessariamente, no idioma inglês. Se fôssemos esperar pela edição traduzida em português, o conteúdo estaria ainda mais defasado.
    Conforme os e-books forem se firmando e ganhando adesão, a atualização dos conteúdos do livro-texto, sua disponibilização e acesso devem ser facilitadas, e quem sabe? Talvez o livro-texto recupere sua relevância, hoje questionada e até, para alguns, perdida.

  9. Fernando disse:

    Caro Karl adoraria comentar, mas como não sou da área, ficarei de bico fechado. Mas é uma discussão interessantíssima.
    Karl como você escreve bem!!!!

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