Climatério e Evolução

A fêmea da espécie humana sobrevive longamente após encerrar suas atividades reprodutivas. Aliás, sobrevive mais que qualquer outra fêmea de outras espécies (para desespero de alguns genros!). Uma das teorias para explicar esse fenômeno foi lançada há alguns anos: A “hipótese da avó”. Ela sugere que uma determinada prole teria mais chance de sobreviver caso a avó materna estivesse viva, pois poderia dividir o trabalho de cuidar dos pequenos, além de passar o know-how disso para a jovem e inexperiente mãe. Com o indelével passar dos milhares de anos, as meninas tenderiam a viver mais após o período fértil, tornando-se uma característica de nossas fêmeas.

Independentemente dessa teoria dar conta da explicação de todo o fenômeno, há um fato: as mulheres vivem mesmo muito anos após seu período fértil. Mesmo ajustando essa observação à expectativa média de vida (pouco mais de 30 anos) da época. Como toda solução encontrada pelas espécies, esse fato tem seu lado bom (permitiu que chegássemos até aqui) e o lado ruim. O lado ruim é o climatério.

O climatério é o período que antecede a última menstruação (menopausa) até aproximadamente 12 meses após. Algumas pacientes o definem como “a pior fase de toda a vida”. Além das alterações orgânicas, calores absurdos, dores de cabeça sem sentido, insônia e variações de humor, há enfraquecimento ósseo, aterosclerose, alterações cognitivas, disfunção sexual e uma constelação de problemas menos graves mas não menos importantes, que fazem com que a mulher nessa fase seja um desafio terapêutico dos grandes. Um dos mais intrigantes problemas é o rubor/fogacho facial do qual já falamos em outra situação clínica (aqui e aqui).

Os fogachos podem ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite e podem ser ocasionados por uma variedade de estímulos a saber, estresse, álcool, café, mudanças bruscas de temperatura entre outros. A sensação subjetiva é a de aquecimento seguida de sudorese e vermelhidão na pele. Pode haver palpitações. Começa na parte superior do corpo e espalha-se de maneira variável. Duram de 30 s a 60 min com uma média de 3 a 4 min. Muitas referem uma “pressão na cabeça”. Podem permanecer por 1 a 5 anos, mas há relatos de calores por 40 anos. É um sintoma debilitante. Impede a pessoa de dormir adequadamente por meses a fio o que gera mais ansiedade, queda de desempenho e depressão.

Mecanismos

O fogacho é o resultado de um distúrbio do sistema de regulação de temperatura do organismo. Entretanto, dentre os homeotérmicos, a fêmea humana parece ser a única a apresentar esse distúrbio apesar de modelos animais em ratos e primatas terem sido desenvolvidos. Alterações de temperatura de fato ocorrem e podem ser demonstradas por meio da termografia. Por exemplo, a temperatura nos dedos das mão e dos pés chega a variar entre 20 a 33 ◦C. Como resultado do aumento da temperatura na periferia, há uma diminuição na temperatura central que pode ser medida por meio da temperatura retal e timpânica. A sensação maior entretanto, é mesmo na região cervical e facial apesar das variações de temperatura serem bem menores – em torno de 1◦C. Esse aumento de temperatura é causado por intensa vasodilatação local. O papel dos estrógenos na geração dos fogachos ainda não está bem estabelecido apesar de sabermos que mesmo doses baixas são eficazes em eliminá-los. A explicação mais interessante foi dada por Robert Freedman que utilizou o conceito de zona termoneutra. Em uma mulher normal e assintomática a zona termoneutra é de 0,4 ◦C. Isso significa que variações dentro desse intervalo não gerarão nenhum tipo de resposta para autorregular a temperatura. Esses reflexos são integrados no hipotálamo. A supressão repentina do estrógeno ao qual o hipotálamo esteve “acostumado”, aumentaria sua sensibilidade e mesmo variações dentro do intervalo normal desencadeariam respostas termorregulatórias. O que a hipótese não explica é que as mulheres com fogachos não têm calafrios em ambientes mais frescos sugerindo que a explicação só serviria para um dos limites da curva.

Evolução

Hormonal ShiftsUma das perguntas evolutivas que subjaz a toda essa complexidade seria sobre qual a relação que hormônios sexuais teriam com a regulação da temperatura? Uma possível resposta seria a ovulação. A ovulação é um fenômeno altamente dependente da temperatura. Em animais pecilotérmicos, a temperatura do ambiente é crucial para a sobrevivência dos ovos fecundados cujo exemplo clássico são os peixes. O gráfico ao lado mostra como a temperatura corporal da mulher sobe no momento da ovulação, fenômeno que já foi utilizado para monitorar o período fértil com resultados conflitantes. Hormônios sexuais têm influência sobre a termogênese apesar dos mecanismos não terem sido completamente elucidados.

Ficam então, as perguntas: Seriam os incômodos fogachos das mulheres recém-menopausadas, resquícios de um imprinting hipotalâmico pelos hormônios sexuais com fins reprodutivos? Seria o climatério, ao menos no que se refere a alteração da regulação da temperatura corporal, um “fóssil fisiológico” desenterrado pela estranha sobrevida prolongada pós-fértil da fêmea humana? Talvez seja esse o preço a pagar pela longevidade. Talvez seja esse o preço para ver crescer os netos.

Fontes
1. Sturdee DW. The menopausal hot flush–Anything new? Maturitas 60 (2008) 42-49.
2. Hampl R et al. Steroids and Thermogenesis. Physiol. Res. 55: 123-131, 2006.

Discussão - 6 comentários

  1. maria disse:

    eu passei por um climatério artificial induzido por medicação, e tendo a achar que o fogacho é um mecanismo de controle populacional. já que a gente não morre mais por motivos naturais, alguma coisa tem que fazer a gente pular pela janela ou fazer qualquer coisa para fugir do próprio corpo…
    eu pensava que o aumento de temperatura fosse consequência da ovulação… então sua hipótese é que o corpo esquenta esquenta para ver se consegue ovular? interessante. mas aí por que o calor seria concentrado do pescoço para cima?

  2. Tatiana disse:

    Olá, Karl.
    Parabéns pelo texto, como sempre muito bem escrito e esclarecedor! Nesse caso meio assustador e fatalista para as mulheres, mas…
    Olhe, vi essa chamada pra o prêmio saúde 2009 e lembrei de vc: http://www.agencia.fapesp.br/materia/10919/premio-saude-2009-abre-inscricoes.htm Vc não acha que se encaixa na categoria “educação para saúde”?
    Abração e parabéns pelo trabalho!

  3. Karl disse:

    Putz, obrigado. Não sei se eles aceitam posts ; ). O que vc acha, maria?
    Sobre a hipótese: acho que a ligação entre hormônios sexuais e regulação de temperatura existe em função da importância tremenda que ela tem (até para definir sexos, no caso dos peixes) no processo da ovulação. Depois de encerradas as atividades reprodutivas, resta um tipo de “interferência hipotalâmica” do que foi outrora uma ciclagem regular dos hormônios sexuais.

  4. maria disse:

    interessante isso. lembrei agora que escrevi uma matéria este ano sobre qualidade de vida no climatério. não ajuda na discussão atual, mas pode interessar a quem vier parar aqui: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=3781&bd=1&pg=1&lg=
    quanto ao prêmio, não conhecia esse da abril. pelo que entendi, eles querem projetos de pesquisa em áreas específicas de saúde. a parte de educação parece ser um dos critérios de seleção dentro de cada categoria. não sei se este blogue contaria como um projeto em saúde – mas deveria.

  5. maria disse:

    karl, continuei com a dúvida. conforme essa hipótese, o aumento de temperatura não deveria se concentrar no abdômen?

  6. Karl disse:

    Não, por quê? Os mecanismos de conservação ou dissipação de calor se fazem na pele como um todo. Como disse, as variações de temperatura são maiores nas extremidades (membros) mas são mais sentidas no rosto.

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