O Médico e o Especialista

Ao avaliar pacientes internados, invariavelmente com alguma(s) doença(s) complexa(s), sou frequentemente intimado a responder a seguinte questão: “Doutor, o senhor não acha melhor chamar o especialista?”. Muitas vezes, no caso, o especialista sou eu mesmo. Outras tantas, não. Há sempre um especialista que pode ser chamado em uma situação de estresse e perigo de morte. Quando o cenário permite, respondo com outra indagação: “E qual pergunta você gostaria que ele respondesse?” As respostas são muito variáveis, mas a maioria se sai com o seguinte raciocínio circular: “Só gostaria de ouvir a opinião de um especialista”.

Antes de mais nada, vamos combinar o significado de alguns termos. Em primeiro lugar, “médico” é o profissional que está cuidando de um determinado paciente (e que obviamente, tem uma licença reconhecida para exercer esse ofício). Esse médico pode ter qualquer “especialidade” seja clínico, cirurgião ou pediatra. “Especialista” é um outro médico, especializado em algum orgão ou, o que frequentemente vem ocorrendo, em alguma doença, que é chamado a dar um parecer sobre um determinado caso. A diferença entre o “médico” e o “especialista” não é a simples diferença entre a “extensão” e a “profundidade”, respectivamente, como querem alguns com a analogia oceânica do conhecimento. Nem tampouco o velho chavão de que o “médico” é o responsável pelo doente e o “especialista”, o responsável pela doença, captaria a totalidade desse encontro. Talvez, essa sutil diferença seja melhor expressa pela dúvida que sempre gira em torno de casos difíceis. É na dúvida que se diferencia o “médico” do “especialista”. O “médico” convive com a dúvida caso veja nisso um benefício ao paciente. O “especialista” quando chamado a opinar sobre um caso que pode ter uma doença que é objeto de seu estudo, não pode tolerar a dúvida. O “médico” pensa em conceitos vagos como qualidade de vida, conforto, convivência com a família. Incansavelmente, o “especialista” procurará excluir ou “incluir” sua doença de modo a definir o que deve ser feito com o paciente. O “olhar” é diferente.

A primeira pergunta do post pode sugerir uma ideia de complementaridade que seria, como de fato muitas vezes o é, benéfica ao pobre paciente. Mas, quando é que esse poço de boas intenções pode dar totalmente errado, colocando o paciente em muito mais risco? A resposta é: quando se confundem os papéis. Um “especialista” deve ser chamado para responder a uma pergunta específica. Não convém ser convocado a dar “uma olhada” ou dar um palpite sobre o paciente. Em situações assim, a opinião de um especialista pode ser desastrosa em termos de exames, custos e sofrimento ao paciente. Por outro lado, há “médicos” que acham que podem dar conta de tudo e atrasam tratamentos, confundem situações ou tratam de maneira obsoleta alguma patologia, também causando prejuízo ao paciente.

Tenho visto pacientes internados com várias equipes médicas a assisti-los, a grande maioria, “especialistas”. De maneira geral, quando a figura do “médico” não existe (ou é fraca), a coisa se complica. Aqui, além de quantidade não ser qualidade, pode ser ainda sinônimo de perigo.

Discussão - 10 comentários

  1. maria disse:

    a dicotomia entre o profissional que cuida do doente e o que cuida da doença é bastante assustadora. sobretudo nestes tempos quase de ditadura das especialidades, em que o organismo acaba sempre sendo visto aos pedacinhos.
    acho que em ciência de maneira geral acontece algo semelhante – só que sem risco direto à vida das pessoas. o cientista se especializa cada vez mais, até quem sabe perder de vista o que aquilo significa de fato.

  2. Rudolf disse:

    uma vez li sobre uma pesquisa que mostrava algumas estatísticas de credibilidade entre uma pessoa dita especialista e uma sem este título falando sobre algum assunto. A credibilidade do especialista era vezes maior. Por outro lado, a pesquisa também se interessou em avaliar o nível de acerto dos especialistas em prever acontecimentos (economicos, politicos etc.) e mostrou que a taxa de acerto dos especialistas nesses casos não se apresentou significativamente diferente da dos “leigos”.
    Não sei dizer se esta pesquisa foi bem feita, mas isso me fez pensar bastante no poder da credibilidade que o título especialista traz. Falando bobagem ou não.

  3. Karl disse:

    Com os médicos acontece algo semelhante. Ver um especialista falando de seu objeto de estudo é fantástico, pois ele fala com paixão e a paixão é contagiante. Há um problema entretanto, quando o especialista é especializado em doentes: como falar de cada um e também de todos?

  4. Sandra disse:

    Gostei muito deste post. Verdadeiro 100%.

  5. Rogério disse:

    Medicina ciência e arte!!!! Afinal o que custa chamar o especialista??? Com raras exceções, eles acrescentam a arte para o caso, coisas que os médicos “não especialistas” nunca imaginariam…
    Vale lembrar a frase celebre do Dr. Gattinoni: “ninguém vê só pulmão, infelizmente, o ser humano é um todo e indivisível…” (São Paulo, 2005 III ISICEM)
    Abraços

  6. Aleph disse:

    Caro Karl,
    o especialista é, antes de tudo, um médico. Não se pode falar de medicina hoje sem citar o papel essencial do especialista, pois o conhecimento médico dobra a cada cinco anos, aproximadamente, o que torna impossível a não existência do MÉDICO especialista. O médico que não é capaz de reconhecer o papel do especialista ou é demasiado egocêntrico – e, por corolário, mal profissional ao ignorar a necessidade de avaliação pelo especialista – ou desatualizado, o que dá na mesma para o doente. O vínculo mais forte ou mais fraco com a família – devo aqui discordar de você – nada tem a ver com ser ou não ser especialista, mas sim com a capacidade inerente do médico de se bem relacionar (empatia, solidariedade, autoritarismo quando necessário e etc.). E por fim, dado o alcance deste blog, deveria fazer uma correção: “patologia”, como você bem sabe, não é sinônimo de doença. Assim, na passagem “confundem situações ou tratam de maneira obsoleta alguma patologia”, deve-se substituir “patologia” por “doença”. Parabéns, mais uma vez, pelo excelente blog!
    confundem situações ou tratam de maneira obsoleta alguma patologia, também causando prejuízo ao paciente.

  7. Karl disse:

    Quem me dera esse blog tivesse o alcance que o Sr. lhe reputa, caro Aleph!
    Devo comentar tuas sempre pertinentes observações e começo imaginando que não dei a ênfase necessária à frase “Mas, quando é que esse poço de boas intenções pode dar totalmente errado, colocando o paciente em muito mais risco? A resposta é: quando se confundem os papéis.” – o que com certeza fez com que tua interpretação da minha avaliação da atuação do (note as aspas, por favor) “especialista” ficasse bastante prejudicada.
    Também devo ter ofuscado o fato de que “médico” e “especialista” pode ser qualquer (note a ausência de aspas, por favor) médico. Papéis são desempenhados a todo momento e alguém tem que assumir o papel de “médico” do paciente.
    Quanto à “patologia” tens razão. Tenho usado “miséria”, “enfermidade” e a comuníssima “doença” para descrever nosso objeto de estudo, sem, entretanto, as mesmas poderosas conotações de “disease”, “illness” e “sickness” da língua inglesa. “Patologia” é um jargão, quase uma “licença literária” de impacto, mas que corretamente, quer dizer outra coisa. Como outra coisa é o que eu não quis dizer e o blog pretende ser divulgativo, “patologia” cumpre seu objetivo de chamar a atenção, assim como o Sr., o teu, de excelente comentador.
    Obrigado pelos comentários.

  8. Paulo disse:

    O comentário postado por Aleph afirma que o exercício atual da medicina não prescinde do especialista porque “o conhecimento médico dobra a cada 5 anos, aproximadamente”. Reconheço o caráter imprescindível do especialista, até por interesse próprio. Tenho dúvidas entretanto se o “conhecimento médico” dobra realmente a cada 5 anos. Da forma como está escrito, fica subentendido que esse conhecimento é “complementar e cumulativo”. O que parece uma grande falácia. Isso me faz lembrar uma lenda sobre o inventor do jogo de xadrez. Um rei fascinado pela engenhosidade do invento permitiu ao inventor pedir qualquer presente como recompensa. Maliciosamente, o inventor pediu que o rei fosse preenchendo o tabuleiro com 1 grão de trigo na primeira casa, dois na segunda, quatro na terceira, e assim sucessivamente em progressão geométrica até que todas as casas estivessem ocupadas. Demorou um pouco até o rei perceber o ardil por trás do pedido. Nem todo o trigo do mundo seria suficiente. A mesma inconsistência parece estar subjacente ao argumento de Aleph. A maior parte daquilo que muitos entendem por conhecimento médico não merece essa denominação. Trata-se de informações de caráter transitório e utilidade prática muito questionável. Talvez o número de publicações ou informações da National Libery of Medicine dobre a cada 5 cinco anos. Se continuar nesse ritmo, em pouco mais de 100 anos, não vai haver espaço físico para mais nada no planeta Terra que não sejam papers médicos. Na realidade, a medicina se aperfeiçoa e avança muito lentamente. Parabéns pelo blog.

  9. Karl disse:

    Obrigado pelo excelente comentário. Espero q o Aleph responda.

  10. Helena disse:

    gostaria que um especialista me explicasse o resultado de um exame de fígado que teve a seguinte observação:
    “” aspécto ecográfico compatível com esteatose hepática leve + pólipo visicular + nefrolitíase a direita.””
    aguardo resposta,
    Obrigada
    Helena

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