A Velha Medicina

Costumo dizer aos meus alunos para nunca se esquecerem que a medicina é mais velha que a ciência. Aliás, bem mais velha. Assim como os barbeiros, alfaiates, cozinheiros e açougueiros exercem profissões bem mais antigas que a ciência pós-iluminista que conhecemos hoje, o médico também tem uma profissão que por muitos anos prescindiu da ciência para existir. E nem por isso os médicos eram menos respeitados. A bem da verdade, a máxima de um velho professor de Radiologia e Clínica Médica aposentado era: “Sou do tempo em que a Medicina era péssima e os médicos, ótimos. Hoje, a Medicina é ótima, já os médicos…” Guardadas as devidas proporções e respeitada a ranzinzice própria da idade, a máxima tem um certo fundo de verdade: a associação com a ciência trouxe melhores resultados aos pacientes, mas não garantiu maior prestígio aos médicos. Diriam alguns que o que importa é o resultado com os pacientes. Eu diria que sim. Mas por que tanta infelicidade e doenças? Tanta insatisfação com a medicina, com os médicos, consigo mesmo! Esse “prestígio” que reclamo não é para minha vaidade. Esse “prestígio” é fruto de um reconhecimento que por sua vez, é fruto de um bem-estar, despertado ou provocado por um agente curador (healer), que não existe mais.

É interessante procurarmos então, o momento em que, pela primeira vez, o médico despiu suas vestes obscurantistas, preconceituosas e, porque não dizer, místico-religiosas, e vestiu um avental branco, com intuito de entender o que ocorria com um semelhante que insistia em sofrer. Detalhe, ainda não nos despimos totalmente de tais vestes: o avental não é nossa única fantasia. Nem sei se os pacientes querem isso – acho que não. Mas, quando foi esse momento inicial precursor da virada que transformou a medicina numa profissão diferente do açougue, da barbearia, da alfaiataria e da cozinha profissional?

Foi ao cuidar de seus mortos. Ironia da história. Somente quando o homem propôs-se a tratar seus mortos de modo a conservá-los – por motivos místico-religiosos, é verdade – pelo maior tempo possível é que surgiram teorias que permitiram propostas de tratamento para algumas doenças. Isso ocorreu há mais de 4000 anos atrás, no Egito.

Pensando na origem das certezas médicas para o post que completará a série, cheguei ao Egito e digo que, certamente, muitas de nossas atuais certezas, vêm de lá.

Desenho do Jok do Jokbox.

Discussão - 5 comentários

  1. Bruno disse:

    Acho que Foucault em “O nascimento da clínica” e em outros livros como “Os anormais” e “O poder psiquiátrico” narra bem o momento e o contexto histórico em que o médico coloca o avental, se infiltra na ciência e toma para si poder que iria exercer por anos a fio.

  2. Tatiana disse:

    Karl,
    seus textos sempre inspiram a reflexão; muito bom!
    No meu caso específico, inevitavelmente me faz lembrar dos meus tempos de monitora de pesquisa clínica, quando pela primeira vez convivi muito com o dia-a-dia da prática médica não como paciente (mas também não como médica, que não sou). Queria ter conhecido teu blog antes, seria um alento e um fator motivador para o trabalho!
    Bom, que venha então o texto que fecha a série, a curiosidade é grande!!!
    Abração

  3. Rogério disse:

    Caro Karl, creio que a medicina, assim como suas “certezas médicas” exista antes mesmo do Egito, mas, como os egípcios foram os primeiros a registrar fatos com alguma organização e periodicidade temos no início da História o início das (in)certezas médicas. Seria por demais imprudente dizer que as (in)certezas médicas se iniciam quando o homem passa a transmitir conhecimento para os seus descendentes????

  4. maria disse:

    mas como era a função do médico antes desse momento, 4 mil anos atrás?
    seu texto me lembrou do filme japonês “a partida”. é ao cuidar dos mortos que se entende os vivos e se aprende a amá-los.

  5. […] e Ética remontam aos primórdios da civilização. Reconhece-se que a prática médica seja mais antiga que a própria ciência que hoje a embasa, mas é provável que ela seja ainda mais originária. De fato, se […]

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