Cerveja e Medicina

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Hoje, 24 de Setembro, é o aniversário de 250 anos da Cervejaria Guinness. A cerveja é hoje uma bebida apreciada no mundo todo. Há quem afirme desempenhar ela um papel importante até na evolução da espécie humana (valeu, Átila). Seu processo de fabricação depende da fermentação de cereais e lúpulo que, apesar de provavelmente descoberto de forma acidental, necessita um controle rígido em cada um de seus passos. Atualmente, o processo é automatizado e tem-se um moderno e eficaz controle da temperatura e do pH. Mas nem sempre foi assim. As fórmulas das cervejarias famosas eram guardadas sob segredo de estado. O processo, quase alquímico, era dominado por uns poucos “feiticeiros” que não podiam deixar nada escrito e transmitiam seus conhecimentos ao “pé-do-ouvido”.

Na virada do século XIX para o XX, quando a ciência se estabelece como hoje a conhecemos, dois pesquisadores chamam a atenção. Primeiro, por trabalharem em cervejarias e, segundo, por fazerem importantes contribuições à prática médica. Contribuição que não é aquela depois do plantão, quando queremos relaxar. Na verdade, foram mudanças de paradigma do pensamento médico.  Comecemos pois, com a aniversariante.

Em 1899 a Guinness Brewing Company of Dublin contratou um jovem de 23 anos, recém-formado em Oxford em química e matemática. Seu nome era William Sealy Gosset (foto ao lado). Gosset fora contratado por seus dotes químicos. O que um matemático faria em uma cervejaria? Entretanto, ao observar o processo de fermentação, notou que a amostra de levedura necessária a uma mistura era de difícil quantificação. Os técnicos tinham que pegar uma amostra de cultura e examiná-la ao microscópio, contando o número de células que viam! A quantidade de leveduras em qualquer processo de fermentação é fundamental. Gosset verificou que as anotações dos técnicos seguiam uma distribuição estatística particular chamada de Poisson, conhecida há mais de um século. Gosset então, criou regras e métodos de medição que levaram à quantificação das amostras de levedura muito mais exatas. Gosset queria publicar seus resultados, mas a Guinness não permitia esse tipo de divulgação com medo de perder as fórmulas tão secretamente mantidas. Ele entrou em contato com Karl Pearson, então editor da Biometrika, a revista de estatística mais badalada da época, e publicou um artigo com um pseudônimo. A figura abaixo mostra a primeira página do segundo artigo de Gosset, de um total de três, usando o codinome Student, publicado na Biometrika em 1908. O artigo integral “remasterizado” pode ser baixado aqui.

Sendo um teste de uso disseminado para experimentos com amostras pequenas, é útil em uma gama enorme de situações. O próprio Ronald Fisher, o utilizou para estudar o efeito de adubos em Rothamsted. Imaginei que o teste teria sido aplicado em cervejarias, agricultura e outras tantas situações possíveis. Ao procurar saber qual teria sido o primeiro estudo médico a utilizar o teste, me surpreendi. No próprio artigo original, o primeiro exemplo utilizado por Gosset foi o efeito farmacológico de antigas substâncias hipnóticas (utilizadas para indução de sono – hoje sabemos que são derivados da hioscina que, por sua vez, tem como um de seus nomes comerciais o Buscopan®) de dois médicos da Universidade de Michigan, Arthur Cushny (1866-1926) e Alvin Roy Peebles (1884-1917). Esses dados foram publicados no Journal of Physiology em 1905. Portanto, o teste-t de Student foi “rodado” a primeira vez para testar uma amostra de dados de pacientes submetidos a um ensaio clínico! É a medicina dando sua contribuição à ciência ; ). Mas o melhor ainda estava por vir.Fisher fez correções e incluiu o teste-t em seu famoso livro Statistical Methods for Research Workers, cuja primeira edição é de 1925. Quando o livro estava na 5ª edição, em 1934, Fisher recebeu uma carta de um médico americano chamado Isidor Greenwald (1887 ou 1888-1976) dizendo que os dados utilizados nos exemplos do teste-t de Student estavam errados! Gosset os tinha tomado de forma equivocada. Admitiu isso a Fisher em uma carta e solicitou que ele o culpasse de tudo. Fisher corrigiu as tabelas, refez alguns experimentos, mas manteve o exemplo, sem culpar seu grande amigo. Temos então, que um dos mais famosos (se não, o mais) dos testes estatísticos nasceu numa cervejaria (que faz aniversário hoje), tendo um ensaio clínico protagonizando seu primeiro exemplo! É muita felicidade para um médico que adora cerveja e estatística. Saúde, Sr. Gosset!Mas, em 1919 1909, um outro mestre cervejeiro daria sua contribuição de forma a juntar ainda mais cerveja e medicina.

Bibliografia

[1] Uma senhora toma chá.. Como a estatística revolucionou a ciência no século XX David Salsburg.
[2] Senn, S. (2008). A century of t-tests Significance, 5 (1), 37-39 DOI: 10.1111/j.1740-9713.2008.00279.x

 

Discussão - 5 comentários

  1. Rudolf disse:

    Ainda bem que hoje temos cervejas muito boas!
    Essa propaganda da Guiness expressa bem isso:
    http://www.youtube.com/watch?v=Lc6U7_-BeGc
    Prost, Karl!

  2. Paula disse:

    Nunca falar “Saúde!” antes de beber o primeiro pint fez tanto sentido.

  3. Clarissa disse:

    A história da distribuição de Student e do teste t é mesmo muito bacana, boa escolha!

  4. Clarissa disse:

    Alguém postou o selo “Researching Blogging” no fim do post, Karl… não era em cima no canto?
    (risos)

  5. Karl disse:

    Pô, não zoa minha medaglia…

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