Nhém-Nhém-Nhém Filosófico

http://2.bp.blogspot.com/_SQ-DgopV-qo/SM64DjVPbBI/AAAAAAAAANQ/kn7HK0fuPUo/s400/PL004~Musician-in-the-Rain-Posters.jpgTendo em vista o último post e a discussão por ele gerada, vou retomar um ponto que tem ganho um certo volume nos bastidores do SBB. Trata-se do papel da filosofia na ciência moderna ou, mais especificamente, da resposta à pergunta: por que é que alguém que se proponha a <divulgar> ciência precisa de algum tipo de filosofia? Não. De forma nenhuma pretendo esboçar algo como uma “Filosofia da Ciência” num post ou, muito menos, ensinar alguma coisa a ninguém. Apenas julgo necessário esclarecer minha posição em relação a alguns pontos e, principalmente, justificar de onde os pontos de vista, aqui defendidos vêm. Como um bom cientista faz.

A atividade filosófica poderia ser dividida em 3 níveis de profundidade: a) nível da vida cotidiana; b) nível da vida científica e c) nível reflexivo propriamente dito. Se pensarmos bem, veremos que ela está sempre envolvida, nos três níveis, com os problemas de fundamento e de origem, como diz Hilton Japiassú. “Filosofar” é, no fundo, voltar à velha questão aristotélica do “que é o ser?”.  Seguindo ainda, Japiassú: “Após o cogito cartesiano, esse tipo de atividade se dividiu em duas: de um lado, a questão do ser, da natureza e de Deus; do outro, a questão do homem. Daí o duplo sentido da filosofia posterior, sempre oscilando entre esses dois pólos. Essa tensão constitui o caráter dramático (eu diria trágico) da filosofia. Há duas possibilidades de existir, de viver, de o homem compreender a si mesmo e de explicar as coisas: reagrupar tudo em torno do único centro que é o homem, ou fazer com que tudo convirja para um pólo mais forte e que seria o fundamento de sua vida. (grifos meus)”

Esse bifurcação trágica do campo ontológico do homem, ou seja, do principío do princípio de toda a fundamentação de sua noção de mundo, é o ponto de partida para o conhecimento que ele vai produzir e do qual se utilizará para viver. Esse “viver” é <dominar>, <conquistar>, <melhorar a sobrevida>, <aumentar a população>, mas também é <não ter medo de raio>, <suplantar a finitude>(se é que isso é possível!), <criar filhos>, <ser avô>. E aqui voltamos aos 3 níveis de profundidade. O papel da filosofia seria basicamente esclarecer as implicações de cada escolha, não só para a vida pessoal, mas também para que se dialogue com as ciências e elas entre si.

Conclui Hilton Japiassú, que a filosofia “precisa cavar as fundações do conhecimento científico para descobrir sobre que solo ele se constrói. E a presença do homem ao mundo é este solo primitivo sobre o qual se edificam as ciências. Assim, encontramo-nos diante de uma volta ao fundamento, de um retorno às fundações. E é somente depois das ciências que o filósofo tem o direito de voltar (para) antes delas. Em outras palavras, é no ponto mais avançado de uma ciência que ele pode e deve colocar o problema de suas raízes, de seus fundamentos e, por conseguinte, de seu sentido.”

Penso com isso, que divulgadores de ciência – assim como os críticos de arte em relação à própria arte – têm uma posição bastante privilegiada, já que crítica, em relação à ciência. Ao exercitarmos nosso senso crítico em relação à produção científica, já estamos “filosofando” sobre ciência (o Ignobel que o diga). Quem sabe se com um pouquinho de filosofia não percebamos o quanto a ciência tem sido eficaz em disfarçar-se de “questão do homem” quando na realidade, está se tornando uma grande “questão do ser” para quem trabalha com ela, aumentando ainda mais, a já enorme tragicomicidade da aventura humana nesse planeta.

Foto do bonito blog de Fernando Pimenta.

Discussão - 27 comentários

  1. Karl, acompanhei a discussão neste e no post anterior e acho que você se posicionou muito bem a respeito do diálogo entre filosofia e ciência e sobre os limites do método científico quando aplicado a outra esfera que não a propriamente científica. Parabéns.
    Heidegger – que só é pos-moderno a fórceps – dizia que o cientista não pensa. Se (e quando) resolve fazê-lo, migra imediatamente para o terreno da filosofia. Ele dizia isso porque associava o método científico à técnica, isto é, um modo do homem ser no mundo, entre tantos outros. Neste sentido a filosofia vê um horizonte mais amplo do que a ciência, engajada – por força do método – em regiões do ser mais ou menos determinadas e específicas (a natureza, a vida, o universo, etc.).
    O locus histórico dessa diferenciação foi a modernidade (de Bacon até hoje) ou, mais precisamente, a crítica dos modernos à física aristotélica. A partir de Descartes, Galileu, Kepler e Newton, a ciência esposou os problemas antes tratados por algumas artes e ofícios medievais: a arquitetura, a astrologia, a estratégia militar. Intelectuais formados pelo trivium e o quatrivium medievais perceberam que a natureza se tornava problemática não nas disputatios acadêmicas, mas quando um general necessitava que os projéteis das suas catapultas percorressem uma tragetória determinada de modo uniforme durante uma batalha ou cerco ao burgo.
    Quando se associa tais questões a um debate epistemológico que havia sido rezoavelmente equacionado pela escolástica, tem-se novamente um grande problema filosófico: “como eu sei que o que eu sei é, de fato, verdadeiro?”. Quem fez essa discussão não foi Newton – embora ele tenha, de passagem, opinado sobre o assunto -, mas outra geração de filósofos iluministas: Hume, Wolf, Kant, Hegel. Eles lançaram as bases do que chamamos, com maiúsculas, Ciência.
    Pois bem! Todo cientista sabe que Ciência – com maiúscula – é o nome que se dá ao discurso elaborado com o objetivo de dar sentido à prática científica cotidiana (a aplicação do método). Desse modo, se surpreendermos o Carlos Hotta de calças curtas no laboratório 🙂 ele dirá que está fazendo ciência, embora esteja, de fato, com suas mãos voluptuosas sobre um sequenciador de DNA. A ironia aqui é que quando falamos de Ciência estamos, na verdade, falando desde um ponto de vista NÃO científico. Ele pode ser filosófico, mas também sociológico, como crê Boaventura de Souza Santos, ou antropológico, como argumenta Bruno Latour, ou ético-jurídico.
    Nós nunca abandonamos verdadeiramente o metadiscurso quando falamos sobre Ciência. Foi isso que levou Heidegger a entendê-la como técnica em seu sentido mais elevado. Vou terminar ilustrando um pouco meu ponto de vista.
    Suponha que viajemos para a Alemanha! Chegando lá, tiramos fotos, interagimos com os aborígenes alemães, ficamos espantados com a qualidade da sua cerveja e o tamanho das suas mulheres (ganz!!). Nosso modo de estar na Alemanha é o modo do turista. Com isso quero dizer: a Alemanha está, para nós, à mão. É uma paisagem. Nossa situação se resume a estar de passagem por lá.
    Esse deslocamento do ser-aí próprio aos locais para onde o turista viaja é o que caracteriza o ser-turista. Já o cientista, quando se aproxima das coisas pelo modo de ser próprio da ciência (o método) vê as coisas com uma limitação parecida. O que seria o ser cientista? É uma boa pergunta. Mas o mais interessante é que, se um cientista se propor a respondê-la, não poderá fazê-lo como cientista.
    A filosofia, por outro lado, quer se diferenciar da ciência por ser mais ampla, exatamente no aspecto ontológico da coisa, ou seja, quando se tem em vista a pergunta pelo sentido do nosso ser no mundo. Dito de outo modo: o filósofo pode responder a pergunta pelo sentido da filosofia sem ser obrigado a abandoná-la. É isso que se entende por profundiade e origem, acredito. Mas eu, sinceramente, ainda não sei se ela dá conta da tarefa.

  2. Karl disse:

    Que a filosofia não dê conta da tarefa é uma coisa, caríssimo Daniel. O que sabemos é que a ciência não dá. Esse é o ponto. Se me proponho a escrever sobre ciência – esse ser-no-mundo científico – deixei de fazer ciência e já estou filosofando. A filosofia só me será útil como reflexão da minha atividade. Caso contrário, estaremos “apenas” enfiando as mãos em sequenciadores de DNA, no caso do Hotta, e em lugares bastante mais obscuros, no meu caso, como autômatos.
    Obrigado pelo elegante comentário. Estou ansioso para ouvir o nhém-nhém-nhém dos positivistas utópicos.

  3. Cretinas disse:

    Positivista utópico, presente e pronto para resmungar! 🙂
    Na verdade, a divisão de opiniões parece ser mais uma questão da escala em que se vê a ciência ou, qual(is) o(s) aspecto(s) dela que se considera(m) mais importante(s), ou relevante(s).
    Minha escala talvez seja menos ampla, mais pragmática.
    Eu vejo “fazer ciência” como uma atividade diária. Quando decido, por exemplo, depois de alguns meses no emprego, que o melhor caminho para chegar ao trabalho é evitando a Ponte do Limão, essa decisão se segue a um período de observação, reunião de evidências (o estado do trânsito, os horários em que consigo chegar usando ou não a ponte, conversas com colegas que usam rotas alternativas, meu conforto pessoal) e análise. Ok, eu não jogo tudo numa planilha e nem faço teste de qui-quadrado, mas trata-se, ainda assim, de uma forma primitiva de “fazer científico”, na medida em que estou interrogando os fatos e me propondo a alterar minhas conclusões de acordo com as respostas.
    Não vejo, portanto, uma ruptura entre os métodos que levam à construção do simples bom-senso (tipo, não pular na frente dos carros em movimento na rodovia) e o método científico. Um emerge do outro; a necessidade de ciência surge quando o ser humano se dá conta de que o bom-senso tem algumas coisas a seu favor, mas não funciona sempre.
    E é claro que o método científico está em constante movimento, ao menos nas bordas: ele nasceu do reconhecimento das limitações do bom-senso, e cresce à medida que encara suas próprias limitações.
    O fato de ele ter limitações, no entanto, não abre caminho, e acho que é aí que surgem as principais divergências, para que se jogue fora a criança com a água do banho, nem para que se faça tábula rasa entre os critérios epistemológicos da ciência e alternativas como autoridade, tradição, a Bíblia, o Alcorão, os manuscritos de Hennemann, a palavra do papa ou as Sagas da Islândia.
    Ou, como escreveu Peter Medawar, criticando a defesa apaixonada feita por Levi-Strauss da prática de um grupo indígena da Sibéria de tratar dor de dente usando uma simpatia que envolvia o toque do bico de um pica-pau — algo que, pra o antropólogo, tinha grande valor simbólico e social, um poder de criar associações e impor ordem ao universo. Diz Medawar: “Será que alguém sofrendo realmente de dor de dente não preferiria uma abordagem mais pragmática?”

  4. Carlos Hotta disse:

    Mas a Ciência é incompleta sem a parte filosófica e sem a parte do Carlos Hotta com as mãos no sequenciador. Separar a Filosofia da Ciênia, portanto, é meio contarproducente, não?
    Talvez não. Um cientista que não filosofa é apenas um técnico. O técnico não precisa do pensamento filosófico para determinar a hipótese de seu experimento, para fazer o seu desenho experimental, nem para analisar os resultados depois. Há muitos desses sendo chamados de cientistas, ainda mais no mundo dos sequenciadores…

  5. Karl disse:

    Há muitos médicos que pensam assim, Hotta. Com todo o respeito que tenho pelos técnicos, os médicos são muito mais letais.

  6. Aleph disse:

    Caro Karl,
    a distinção que se faz entre o terreno da ciência e da filosofia é algo nebulosa. Até o médico mais letal filosofa sem sabê-lo.
    Abs!

  7. Fernando disse:

    O mundo dá voltas. Você me citou, uma amiga minha leitora do teu blog me mandou um scrap pelo orkut (esse site de relacionamento que muitas vezes nos faz gastar tanto tempo com asneiras) mencionando que eu havia sido citado. Uma amiga com a qual não falo, nem nos escrevemos, há meses. Fico feliz. E em breve pretendo iniciar a leitura periódica do teu blog. Deixo aqui meus caros agradecimentos. Se você também não tivesse gostado e falado, viria aqui para agradecer, igualmente. Citar é importante, para trazer à tona material de interesse, seja como um exemplo ou mesmo um contraexemplo. Abraço.

  8. Karl disse:

    Caro Fernando, não tem de quê. Seja bem-vindo ao Ecce Medicus
    Caríssimo Aleph, “Até o médico mais letal filosofa sem sabê-lo” que é letal? =)

  9. Aleph disse:

    Caro Karl,
    foi você quem escreveu “Há muitos médicos que pensam assim, Hotta. Com todo o respeito que tenho pelos técnicos, os médicos são muito mais letais.”====)

  10. Karl disse:

    Sim. Bela frase, não, estimadíssimo Aleph?

  11. Engraçado que ninguém aqui tenha citado Richard Feynman. Por exemplo é dele o seguinte trecho (de “The Pleasure of Finding Things Out”):
    “My son is taking a course in philosophy, and last night we were looking at something by Spinoza and there was the most childish reasoning! There were all these attributes, and Substances, and all this meaningless chewing around, and we started to laugh. Now how could we do that? Here’s this great Dutch philosopher, and we’re laughing at him. It’s because there’s no excuse for it! In the same period there was Newton, there was Harvey studying the circulation of the blood, there were people with methods of analysis by which progress was being made! You can take every one of Spinoza’s propositions, and take the contrary propositions, and look at the world and you can’t tell which is right.”
    Em resumo, para Feynman, toda a filosofia poderia ser resumida, se não me engano, em duas letras, “b” e “s” (aparece assim em “A janela de Euclides”, de Leonard Mlodinow): para bom entendedor isso basta…
    Até o renascimento, o mundo era dominado pela filosofia (disfarçada inclusive de teologia): ainda bem que não ficamos só nisso, só em nhém-nhém-nhém e blá-blá-blá.
    Um abraço!

  12. Daniel Christino disse:

    Eu sou fã do Feynman. Até traduzi uma palestra dele para meus alunos de Teoria e Método. Seus ataques à Filosofia são bem afiados, quase sarcásticos. Em alguns momentos ele é até melhor do que o pessoal do círculo de Viena (inside joke).
    O problema com Spinoza é que o Feynman o leu como um epistemólogo. E a espistemologia dele é aristotélica. O conceito de substância em Aristóteles é lógico e metafísico. E a confusão entre metafísica e epistemologia é característica da filosofia escolástica. Logo…
    Newton e sua patota caminhavam na direção oposta, seguindo Descartes (embora Newton e Descartes jamais concordassem em suas cosmologias). O pobre do Spinoza cometeu o maior pecado de todos: falou sobre a natureza sem consultá-la. O que o Feynman não levou em conta é que a Ética é um tratado de metafísica e não de física.
    Aliás, Newton é um exemplo interessante. Na maior parte do tempo ele se entretia com a hermenêutica bíblica. Gastou tempo enorme num estudo sobre cronologia – ele acreditava que o Universo tinha mais ou menos a idade que a bíblia lhe atribuía. E se debruçava sobre os mistérios alquímicos com uma voracidade comparável a de qualquer adolescente de hoje quando lê Harry Potter. Ao que parece, Newton falava de física e matemática nas horas vagas!!! O problema não é que tais e tais idéias estão certas ou erradas. A grande questão é porque alguém tão genial quanto Newton achava tais coisas importantes!
    Eu posso dar alguns outros exemplos. Faraday é um. Qualquer um que tiver acesso aos seus papers testemunhará a luta de um gênio para associar suas descobertas científicas com sua fé. Novamente: porque alguém como ele se importaria com isso? Mais! Será que o pensamento metafísico (era de uma seita chamada de sandemanianos) teve alguma influência sobre sua criatividade científica? Ele achava que sim.
    Não estou dizendo que deva haver alguma relação necessária entre filosofia e ciência. Para mim são campos distintos nos quais aplicamos nossa vontade e racionalidade. Ao mesmo tempo somos atravessados por estes modos de pensar e, em nós, eles geram conflitos.
    Chave de ouro: com a ciência nós fazemos coisas. Com a filosofia não fazemos nada! É ela que faz conosco, se nos dispusermos a ouví-la.
    P.s.: eu não vejo problema em afirmar que toda a filosofia é apenas “bs”. Quero ver você provar isso cientificamente. 😉

  13. Esse comentário de Feynman é simplesmente incorreto. Primeiro comete o erro de exigir para a filosofia progresso tal como faz a ciência, e isso com base na crença de que qualquer outro tipo de progresso não é progresso. Segundo, pensa que qualquer proposição só pode ser decidida quanto a seu valor de verdade quando comparada com o mundo – o que é o empirismo, tese filosófica que por sua vez não pode ser comparada com o mundo. E tudo isso com uma credulidade irritante..
    Abraços, Bruno.

  14. Caro Bruno,
    Acho que ou eu entendi errado ou você entendeu errado alguma coisa. Para mim, na frase do Feynman está claro que, em questões filosóficas, muitas vezes, as proposições NÃO podem ser decididas quanto a seu valor de verdade quando comparadas com o mundo: “You can take every one of Spinoza’s propositions, and take the contrary propositions, and look at the world and you can’t tell which is right.” Para Feynman, então, esse é um dos problemna da filosofia: parece que qualquer coisa vale, já que não há como decidir o que é certo e o que não é… Quanto a exigir progresso da filosofia, acho que faz sentido; ou você acha que ainda devemos gastar tempo discutindo assuntos que eram relevantes para os filósofos medievais, tal como “quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete”?
    Um abraço!

  15. Rudolf disse:

    No início da vida do Feynman ele foi muito descrédulo em tudo o que não era ciência, mas depois mais velho conheceu pessoas e aprendeu coisas que ela admitiu não dar valor nenhum na juventude. Como ele, mesmo sendo físico teórico, era uma pessoa muito prática, acredito que ele nunca tenha dado muita atenção à filosofia e, quando muito, poderia ter pensado que outras pessoas mais capazes que ele nessas questões dariam atenção a elas.
    Mudando parcialmente de assunto, penso que o método de convencer as pessoas do que é racional ou não faz o menor sentido era muito semelhante ao do Dawkins e ele conta no seu livro “Surely You’re Joking, Mr. Feynman” várias anedotas nas quais não teve sucesso em convencer as pessoas utilizando a razão pura. Acho que esse é exatamente o ponto que o Dr. Karl quer mostrar com esses posts filosóficos. O puro método e o discurso racional não são capazes de modificar as praticas sociais ao criticar conhecimento dá sentido à prática em questão. Está de acordo Karl?

  16. Bruno R. Mendonça disse:

    Dedalus,
    com a primeira parte do que você disse estou de acordo, mas insisto que Feynman e qualquer outro que creia nisso está errado. Quanto a segunda parte, torno-me mais claro apelando para a técnica aristotélica de definição por semelhança de gênero e diferença específica: a filosofia progride, é claro, como todo empreendimento teórico, mas esse progresso se apresenta de uma maneira diferente. Eu tenderia a dizer algo excessivamente vago sobre isso como, “progride por esclarecimentos sobre as próprias perguntas, e não com respostas para elas” (em certa medida, ao contrário da ciência), mas acho que melhor seria discutirmos mais sobre isso, do que “solucionar” questões com um canetaço.
    Creio, pelo teu segundo post, que concorda em termos gerais comigo sobre o ponto do progresso. Fico em dúvida se concorda que as idéias de Feynman expressas na citação são, como já disse, ingenuidades.
    Abraço, Bruno.

  17. Rudolf disse:

    Concordo que ele era ingênuo em relação ao ser humano e às ciências que não são “exatas”. Mas de certa forma ele sabia disso. Não acho errado alguém ser completamente avesso ao método de um conhecimento Cada ciência ou prática possui métodos diferentes de abordar as coisas (ou os problemas). Vou dar uma pequena volta para explicar o que quero dizer.
    Apesar do método científico ser usado pela maioria dos que são chamados cientistas, há muitas diferenças entre o jeito em que um químico e um físico trabalham com átomos, por exemplo. Os métodos são diferentes. Se um físico for treinado na química, como um químico, e adquirir conhecimento dos métodos da química, ele passa a enxergar o átomo de outra maneira e consegue se comunicar com os químicos. É outra linguagem. Por isso existem revistas sobre o mesmo assunto, mas em uma praticamente só físicos publicam e em outra só químicos. Nem por isso um físico que não fala a língua dos químicos é pior cientista. Ele só trabalha diferente de um que fala.
    Voltando: um cientista não está errado em não conhecer e não usar a filosofia. Ele só contribui para o conhecimento de outra maneira. Provavelmente um biólogo-filósofo não será um biólogo-filósofo-médico-economista-psicanalista-engenheiro, por maior que seja a tendencia contemporânea da multidissiplinaridade. Certamente também é muito provável que um cientista totalmente ignorante em relação a alguma ciência ou técnica pise nos calos dos peritos nessas práticas e diga certas blasfêmias livremente, sem o menor pudor.
    Para terminar defendendo o Feyman, de quem sou fã, não acho que ele desvalorizasse a filosofia e a considerasse inútil. Acho que ele sabia que não entendia. Eu também acho que não entendo a filosofia. O que parece para você arrogância da parte dele em relação à filosofia, para mim parece ele olhando para a filosofia com visão de físico e criticando e classificando ela do modo como fazem os físicos.

  18. Daniel Christino disse:

    Vamos nos aprofundar um pouco mais (agora com footnotes!!!).
    Se o positivismo lógico alguma vez disse algo relevante sobre a filosofia, foi quando chamou atenção para o fato de que se não nos pormos de acordo sobre os termos básicos da nossa discussão, corremos o risco de nos afundarmos num pântano semântico. Logo, toda discussão se inicia como metalinguagem, com um “pôr-se em acordo sobre o debate”.
    Como já foi muito bem dito pelo Rudolf, é muito provável que Feynman não tivesse uma posição filosoficamente sofisticada sobre epistemologia (“o que – e sob quais condições – podemos saber?”) ou mesmo sobre teoria da ciência. Acho que ele pensava no que fazia mais ou menos do mesmo modo como o Cretinas pensou a racionalidade aí em cima, isto é, pragmaticamente. Assim, acho que deveríamos tomar a opinião do Feynman sobre Espinoza como uma ilustração do empirismo do Dedalus.
    Então o que seria o empirismo? Antes de fornecer uma definição é necessário se perguntar sobre os contextos nos quais a definição será empregada (obviamente o termo pode ser usado em qualquer outro contexto, mas aí seu sentido também seria um pouco diferente). Como aqui estamos falando de ciência, vai aí uma tentativa de definição: “a ciência é um conjunto de teorias e práticas que procura encontrar uma descrição verdadeira dos estados de coisas observáveis na natureza”. O empirismo, então, seria um conjunto de princípios que determina os sentidos que a expressão “verdadeira” poderá adquirir se estivermos falando sobre ciência. Como referência podemos pensar no lógico Rudolf Carnap (embora a seu nome esteja no mais das vezes associado ao positivismo lógico puro e simples). No empirismo esse sentido se dá como uma adequação (verificação) do que é dito numa proposição com o que é observado (seja diretamente, através dos sentidos, seja indiretamente, através de instrumentos).
    Acho que todo empirista estaria de acordo com os termos que usei. Talvez não estivesse de acordo com a minha perspectiva filosófica, considerando-a muito linguística ou semanticista para seu gosto. Em minha defesa digo apenas que a linguagem é um fenômeno empírico, no qual toda e qualquer possibilidade de comunicação sobre ciência ou qualquer outra coisa está enredada e, se há algum sentido em pensá-la como um ganho evolutivo, seria exatamente o de nos proporcionar a possibilidade de refletir sobre o que fazemos. Não dá para não abordar a questão do ponto de vista linguístico.
    Se você não é empirista há duas outras possibilidades fundamentais (e uma pletora de posições intermediárias): o realismo ou o racionalismo. Como o outro lado do empirismo, o racionalismo é mais fácil de definir – mantendo a coerência com a definição de ciência dada acima temos como racionalismo um conjunto de princípios que determina os sentidos que a expressão “verdadeira” poderá adquirir se estivermos falando sobre ciência. Neste caso, tais princípios afirmam que uma proposição é verdadeira se, e somente se, ela for formalmente (logicamente) verdadeira. O pai do racionalismo é, claro, Descartes.
    O realismo não é, como se poderia imaginar, um simples meio-termo. O realismo está mais para o lado do empirismo do que do racionalismo. Em geral porque a noção de “verdade” do realismo coincide com a do empirismo, mas não sua ênfase espistemológica. Explico: para o realista, existem fenômenos cuja explicação não é observável. Uma teoria seria verdadeira não apenas se suas proposições pudessem ser empiricamente observáveis, mas se, ao mesmo tempo, pudermos inferir delas uma idéia coerente de realidade. A noção de realidade, por sua vez, mesmo não sendo empiricamente observável é epistemologicamente necessária, do contrário ideias como a de causa, por exemplo, seriam absurdas.
    Dentre estas três grandes opções existem várias intermediárias – o racionalismo crítico do Popper, o empirismo construtivo do Van Fraassen, o historicismo do Kuhn, e por aí vai.
    A única coisa que eu gostaria de reforçar do que eu já disse é que todas estas reflexões sobre a ciência não são, em si mesmas, científicas. Espero também ter mostrado que é possível falar sobre a ciência sem ser hermético. Trata-se de conversar sobre o sentido do que fazemos. Nada além.
    Ah!! A filosofia, acredito, é hermenêutica. Seu progresso não é linear mas circular (helicoidal, na verdade). Ela passa várias vezes pelo mesmo ponto só que de modo qualitativamente diferente a cada vez. Se você quer resolver definitivamente uma questão, penso que a religião seja seu caminho. Todo o resto é apenas provável.

  19. Karl disse:

    Interessante esse conceito geométrico de hermenêutica…
    Eu particularmente acho que a teoria do conhecimento descrita nos moldes de sujeito e objeto em suas mais variadas vertentes é a “filosofia” que Feynman, paleopositivistas lógicos e neopositivistas utópicos estão a criticar. É possível descrever a ciência “natural” nesses termos, mas é óbvio que o status das chamadas ciências históricas (filosofia inclusa) fica altamente prejudicado com esse critério.
    Isso porque o “distanciamento” que permite a separação entre sujeito e objeto não é possível nas ciências históricas, já que esse distanciamento destrói a relação de “pertencimento” a uma tradição histórica que nos precede e que é fundamental para pensar a própria história. É dessa tensão entre distanciamento e pertencimento que surgem as críticas de quem não enxerga o quintal do vizinho. Se minha visão de mundo é “distanciada”, tendo a ver a historicidade e suas conclusões como nhém-nhém-nhém sem resultado prático. Se minha visada é “historicista”, tendo a achar que os “distanciados” são pragmáticos tecnólogos amorais.
    A “razón d’être” do post é que a divulgação científica, antes de “apenas” (como se isso fosse pouco!) explicar ciência a não iniciados, poderia ser também, uma crítica e adicionar um pouco de historicidade à relação sujeito-objeto (o que é muito mais interessante do que ficar replicando experimentos, no meu modo de ver). A solução dessa sinuca (que os filósofos chamam de aporia=sem saída) é hermenêutica.
    Como médico, vivo diariamente esse conflito pois a medicina é um campo fronteiriço. De um lado, tenho a medicina baseada em evidências – pérola do pensamento médico cultivada no positivismo; maquinaria de funcionamento racional enebriante e que, em determinado momento, chegou até a ser anunciada como imperativo ético. De outro, tenho medicinas alternativas e “visões holísticas” de torcer o nariz, centradas no indivíduo, que parecem blá-blá-blá mas que inexplicavelmente insistem em não desaparecer, contrariando todo e qualquer bom-senso e método, e contudo, afirmam que o paciente não é um número de quarto ou leito, que tem uma história e está inserido na história. Que é único.
    Disse um pensador, que o saber não é feito para compreender (abraçar, açambarcar) nada. O saber é feito para cortar (ver por dentro). Eu mudei de ideia. Não acho mais estritamente necessário alguém que conheça ciência suficientemente para se julgar apto a divulgá-la, entrar ao menos em contato com a filosofia: acho uma pena que não o façam.

  20. Daniel Christino disse:

    O curioso é que quando comecei a estudar filosofia tinha a mesma opinião que você. Queria “conhecer” o mistério das coisas e isso significava “cortar” e “ver” por dentro. Por isso me interessei por lógica. Fui monitor da disciplina 3 vezes com 3 professores diferentes. Mas a lógica não conseguia explicar satisfatoriamente fenômenos linguísticos que funcionassem para além da proposição. Metáforas, alegorias e outras operações discursivas não são relevantes para a lógica (isso não quer dizer que a lógica esteja equivocada ou algo do tipo). Foi então que me interessei pela retórica e daí para a história foi um movimento natural. Mas a retórica não é nada sem seu núcleo lógico. É realmente uma pena que lógicos e retóricos não se leiam com maior frequência.
    Você está coberto de razão: a solução passa, necessariamente, pela hermenêutica.

  21. Karl disse:

    Caríssimo Daniel, talvez tenhamos tomado o “cortar” foucaultiano (Microfísica do Poder) de forma diferente, mas a culpa é toda minha pois, ao tentar justificá-lo, não fui fiel ao sentido original. Note que a frase “o saber não é feito para compreender, mas para cortar” pressupõe um saber anterior ao ato de cortar; saber que é de natureza bem diversa da curiosidade especulativa de um estudante de filosofia. Saber que corta a própria história e as “descontinuidades” que provoca sobre o sujeito, que corta outros saberes travestidos de poder instituído. Não é à toa que está no capítulo sobre Nietzsche. É esse “saber” que gosto de confundir com “saber” – palavra inglesa para sabre.
    No mais, concordamos mesmo em relação à hermenêutica. Obrigado.

  22. Sibele disse:

    Já que estamos numa tremenda aporia, poderíamos pensar em Feyerabend?

  23. O vocabulário e os conceitos próprios a esse tipo de filosofia, ligado estreitamente a uma tradição da chamada da “filosofia continental”, tem pouca coisa interessante a dizer sobre ciẽncia, senão, é claro, na sua dimensão política, como fenômeno social.
    A discussão rende — e se desfaz de muitos problemas — se colocada a partir do programa de Filosofia da Ciência do século passado, com Kuhn, Popper, Lakatos, Feyarabend, entre outros.
    O modo de tratar os problemas científicos apresentado pelos filósofos da ciência passa ao largo de questões como “ser” e de qualquer ontologia. Aliás, como a maior parte da filosofia do século XX, a metafísica de perguntas como o “que é o ser” continuará sim a ser estudada, mas nunca mobilizada para compôr o quadro de instrumentos da filosofia.
    Escrevi um texto que de algum modo trata da relação filosofia-ciência — mas já no horizonte das mudanças da uma certa filosofia da ciẽncia. Em todo modo ali já se divisa quais são as questões próprias a esse campo.

  24. Quando as pessoas, num debate animado, começam a usar palavras como hermenêutica, eu sinto o cheiro de algo de som quase que parecido, hermetismo, e aí prefiro navegar em outros mares, tais como os do Hermenauta (ohermenauta.wordpress.com/): masturbação por masturbação, lá pelo menos eu entendo quase que a totalidade das palavras usadas.
    E como eu estou lendo um livro chamado “O mundo sem nós”, que discute como seria o desenvolvimento do mundo se os humanos sumissem de repente, eu fico imaginando o que aconteceria se todos os filósofos e a filosofia sumissem de repente ou se, por outro lado, todos os cientistas e a ciência sumissem de repente: em qual caso o desenvolvimento da humanidade seria mais modificado?
    Um abraço!

  25. Karl disse:

    Sensacional comentário, Stephen! Pois que, sincero. E sinceridade está em falta.
    Adoro o Hermenauta também e sempre o visito quando posso. Gostaria muito de ter a verve e a capacidade de escrever claramente que ele tem, mas vou tentando aprender devagar. Comentários como esse seu, são os que calibram nossos textos, se bem que nas discussões, a coisa acaba mesmo fugindo do controle (o que eu acho bom!). De qualquer forma, me parece que sua “esquiva fóbica” a termos desconhecidos se restringe apenas aos filosóficos. Caso contrário, não teria aprendido nada, o que seguramente, não é o caso. Eu também achei esse termo estranho quando o ouvi pela primeira vez, mas garanto que é uma ferramenta utilíssima para entender certas áreas de fronteira do conhecimento humano, além de ajudar bastante a combater nosso preconceito (no sentido ruim da palavra).
    Seu exercício teórico é muito interessante, mas não leva em consideração exatamente a historicidade do processo de constituição da ciência como a conhecemos hoje. A ciência descende da filosofia como forma de especulação da realidade. Toda vez que precisamos envolver a história em qualquer área do conhecimento, adicionamos uma “interpretação” do que não fomos testemunhas oculares. Aí o bicho pega. Esse é o ponto! A ciência da interpretação (sim, isso também é ciência) é a hermenêutica. Deixe-me propor um outro exercício a título de reflexão sobre o que estou dizendo. E se a literatura, a poesia e todos os escritores sumissem de repente, como seria esse mundo sem literatura e pleno de cientistas?
    Grande abraço e volte sempre, Stephen.

  26. Caro Karl,
    Obrigado pelo elogio ao meu comentário: eu, realmente, não esperava. E, é claro, obrigado pelo esclarecimento sobre a hermenêutica. Eu já havia feito uma pesquisa (usando São Google) para entender o termo, mas não há nada como uma explicação feita por quem o usa… Eu não sei se tenho uma “”esquiva fóbica” a termos desconhecidos”: eu sempre dialogo pressupondo que o outro quer o diálogo; se o outro começa a se valer de palavras mais rebuscadas, de uso restrito, eu passo a entender que ele não quer o diálogo, já que nesse caso ele busca sair do terreno do entendimento comum. E sem dois não há diálogo, há monólogo (ou masturbação).
    No mais, você diz que “A ciência descende da filosofia como forma de especulação da realidade”. Concordo, mas devo lembrar também que a astronomia descende da astrologia e nem por isso hoje damos o mesmo valor a ambas. A literatura e a filosofia têm imenso valor cultural (eu diria até que é um valor imensurável), mas eu proponho outra pergunta análoga à sua: e se todos as pessoas se dedicassem só à literatura e à filosofia, como seria esse mundo sem cientistas e pleno de literatos e filósofos? A meu ver, o equilíbrio é fundamental, mas sejamos práticos: a ciência tem ajudado a melhorar objetivamente as condições da vida humana (em duração e qualidade, por exemplo); o mais (as humanidades e as religiões, por exemplo) ajuda, mas de forma quase impalpável.
    Um abraço!
    PS: não sou mesmo contra a literatura e as humanidades, e como “comprovação” disso posso alegar que em meu blog praticamente todos os títulos de postagens são títulos de livros (que eu li)…

  27. Rudolf disse:

    Um mundo sem filósofos, cientistas ou artistas me parece um mundo com um ser humano, como entidade, decepado de parte de sua humanidade. Algo estranho e muito difícil de imaginar. Talvez num outro planeta, outra forma de vida, ou uma entidade sobrenatural.

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