Futebol, Shopping e Medicina

http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/uploads/2008/10/futebol_de_varzea_foto_gilsoncamargo_piraquara_brasil1.jpg“Quando eu era criança pequena”, morava no Butantã, bem ali, na entrada do campus da USP. O trânsito da região era bem outro e costumávamos jogar bola no asfalto da Rua Catequese. Mas esse “estádio” era para embates de pequeno porte. Os grandes clássicos eram disputados no “Areião”, pois era a única cancha que comportava um “11×11” ou mesmo “12×12”. Mas, isso era um evento raro. Eram necessários muitos moleques e o que acontecia apenas de vez em quando. Além do que, para irmos ao “Areião”, era preciso atravessarmos a ponte Eusébio Matoso que cruza a Marginal do Rio Pinheiros e depois a própria Eusébio, o que mesmo para essa época, já não era muito simples.

Aos fins-de-semana, o “Areião” era impossível para nós. Os campos, num total de nove, eram tomados por legiões de times amadores, marmanjos, que jogavam até acabar a iluminação natural. Ficávamos olhando e, como eles punham redes nos gols, aproveitávamos os intervalos para chutar bolas e bater alguns pênaltis, com intuito único de “estufar o barbante”, até sermos enxotados pelos grandalhões, e voltar a nossa posição de espectadores.

Eis que, um belo dia, depois da aula, resolvemos bater uma bolinha no “Areião”, não tínhamos um time completo mas, mesmo assim, optamos pelo “estádio” para nos acostumarmos ao gol oficial. Bicicletas, bola, o Rogério foi em casa pegar as luvas, tudo pronto. Alguns iam na garupa da Caloi, em pé; outros “tabelando” pela calçada. Atravessamos a ponte, depois a Eusébio Matoso, que não tinha passarela e começamos a notar uma movimentação anormal. Ao nos aproximarmos, a surpresa. O “Areião” estava tomado por tratores, máquinas escavadeiras e caminhões. Os gols haviam sido arrancados e jaziam, empilhados num canto. O Edvaldo cogitou levar um. Perguntamos na casa de quem ia ficar e ele desistiu. A mãe dele era muito brava. Saímos cabisbaixos, com o Edvaldo praguejando contra as poderosas máquinas e contra quem as mandara destruir nossa querida praça esportiva.

Logo um enorme shopping center foi construído e inaugurado no ano seguinte (1981). Ficamos sem os campos de futebol mas, ganhamos cinema, sorveteria. Restou, porém, uma enorme nostalgia dos campos do “Areião”.

X – X – X – X – X – X

A secretária colocou o seu Manuel, 88 anos com sua cuidadora no consultório. Muito bem vestido, de terno e gravata, apesar das sequelas motora à direita e de fala, contou, com um identificável sotaque português, toda sua história com detalhes impressionantes. Fora dono de uma grande rede de supermercados, bastante famosos em São Paulo. No final da década de 70, entrou num empreendimento revolucionário e bastante ambicioso. Devagar, foi me contando de sua vida, o estresse enorme que passou na época, até que, finalmente, disse que teve um derrame 15 dias após a inauguração de seu maior projeto: um shopping na zona sul, às margens da Marginal Pinheiros! Eu não aguentei e disse: – Seu Manuel, desculpe, mas o Edvaldo não teve a intenção!

Foto de Gilson Camargo.

Discussão - 16 comentários

  1. sombriks disse:

    haa, muito bom!
    devemos pensar bem antes de desejar o mal para os outros, rsrsrsrs.

  2. Carlos Hotta disse:

    Adoro estas histórias de uma São Paulo mais simples… conta de quando construíram o estádio do Morumbi! rsrsrsrrsrsr

  3. Karl disse:

    @carloshotta: filhadamãe. 😀

  4. Sibele disse:

    Ora, Karl! Até que o Hotta deu uma boa ideia! Você, como são-paulino de coração, com certeza deve ter muitas e boas lembranças da epopéia que foi a construção desse estádio, projetado pelo arquiteto Vilanova Artigas, um dos maiores representantes do movimento chamado Escola Paulista de Arquitetura!
    Agora, falando sério: a memória, para Bergson, é uma das mais importantes categorias do conhecimento, perpassando toda a biografia do indivíduo:
    BERGSON, Henri. Memória e vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006. 192 p.

  5. maria disse:

    maravilhoso, como são sempre os teus causos. um dia vamos fazer um livro?

  6. Carlos Hotta disse:

    Eu quero um livro com os causos do Karl!

  7. Karl disse:

    Eu fui em jogos com o Morumbi ainda incompleto, faltavam “gomos” do anel do estádio. O time era ruim e as torcidas rivais diziam que a torcida tricolor enchia uma kombi inteirinha! As coisas mudaram bastante!

  8. maria disse:

    é dessa época que vêm as “glórias do passado” que o hino menciona?

  9. Karl disse:

    Não, maria. É uma looonga história… Qualquer dia eu conto pra você. 😀

  10. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Karl,
    as únicas memórias felizes que possuímos são aquelas da infância. Quem não as possui, não teve infância.
    Não é por acaso que a infância roubada de nossas crianças inspirou poetas (Mário Quintana) e compositores (Chico Buarque e o seu “Brejo da Cruz, por exemplo).
    Abraço!
    P.S.: Estou extremamente feliz por ter sido acolhido nesta nova casa, o ScienceBlogs Brasil. Obrigado pelo incentivo e pela palavras sempre tão amáveis.

  11. Karl disse:

    Caríssimo AM. É com grande prazer que o recebemos por essas paragens…
    Com certeza, suas contribuições serão de valor para todos. A lacuna de um blog de humanas será preenchida com muita classe e conhecimento.
    Seja bem-vindo ao Ecce Medicus e ao SBBr.

  12. Sibele disse:

    “Não, maria. É uma looonga história… Qualquer dia eu conto pra você. 😀 ”
    Conte para todos nós, Karl! 😉

  13. Sibele disse:

    “P.S.: Estou extremamente feliz por ter sido acolhido nesta nova casa, o ScienceBlogs Brasil” (Amigo de Montaigne)
    E nós, honrados! Secundo o Karl nas boas vindas! Aguardamos para breve seus posts no SBBr! 🙂

  14. Fernando disse:

    Uau, que desfecho para essa história da vida real! Um conto à la Cortázar.

  15. Ainda não tinha visto esse ótimo causo! E ainda acabei descobrindo que o karl tbm é são-paulino como eu!:)
    Gosto muito de ouvir essas histórias de uma São Paulo diferente da atual, numa época menos cosmopolita e mais próxima da realidade do interior.

  16. pedro disse:

    Belíssimo texto.
    Adoro recordações de infância, sobretudo quando relacionadas com o futebol.
    Parabéns!

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