Um Pouco da Pós-Graduação em Medicina

Para publicar de forma regular e sustentada no Brasil, em geral é preciso estar vinculado a um serviço de pós-graduação. Esses serviços têm uma avaliação da CAPES que é muito respeitada. A CAPES dividiu a ciência médica em 3 grandes áreas. Medicina I, II e III, conforme as especificações abaixo.

Essa divisão tem por base a forma como é conduzida a pesquisa em cada área. Notemos pois, que as áreas cirúrgicas, para dar um exemplo, ficaram todas reunidas na Medicina III. A CAPES classifica os cursos de pós-graduação na grande área da saúde de acordo com os seguintes critérios e respectivos pesos: corpo docente (30%), corpo discente (30%), produção intelectual (30%) e inserção social (10%). A produção intelectual é a que nos interessa nesse momento. Constitui 30% da nota de uma pós-graduação e é constituída pelo número de publicações qualificadas do Programa por Docente Permanente (50%), pela distribuição de publicações qualificadas em relação ao corpo docente do programa (40%) e por outras produções, exceto à artística (técnica, patentes, produtos, etc) (10%).

Nesses quesitos, para atingir o conceito excelente (7,0) é necessário que o docente publique 6 ou mais artigos em Qualis internacional A ou B, sendo que pelo menos 03 sejam em Qualis A. Mas que é Qualis Internacional? “Qualis é o conjunto de procedimentos utilizados pela CAPES para estratificação da qualidade da produção intelectual dos programas de pós-graduação”. Para isso, a CAPES hierarquizou os meios de divulgação da pesquisa da pós-graduação (ou seja, os jornais científicos). “A classificação de periódicos é realizada pelas áreas de avaliação e passa por processo anual de atualização. Esses veículos são enquadrados em estratos indicativos da qualidade – A1, o mais elevado; A2; B1; B2; B3; B4; B5; C – com peso zero”. Obviamente, o fator de qualidade de cada revista é o seu fator impacto.

O problema é que a divisão das revistas é desigual de acordo com as subáreas, medicina I, II e III. Por exemplo, em levantamento realizado por um professor e apresentado em Porto de Galinhas – PE no III Encontro Nacional de Pós-Graduação na área de Ciências da Saúde em outubro de 2009, a Medicina III tem o seguinte Qualis e respectivos fatores impacto conforme a tabela abaixo.

Já a Medicina I tem a seguinte classificação de periódicos (tabela abaixo):

Como é fácil notar, as revistas de áreas clínicas para serem classificadas no nível A1, necessitam de um fator impacto bem maior. A que se deve essa diferença? Ao tipo de ciência que serve de base a cada especialidade, provavelmente. Algumas áreas sofrem períodos de expansão rápidos, em especial quando se criam novas ferramentas e tecnologias. Nesses períodos, os jornais estão propensos a aceitar determinados assuntos. Pesquisadores experientes detectam essas ondas, aproveitando para “encaixar” papers em revistas de impacto maior. Mas há outras fontes de desigualdades. Um docente tem uma classificação de publicações de acordo com a tabela abaixo.

Mas isso não dependerá apenas da competência do pesquisador médico. Depende, como vimos, da subárea a qual ele pertence (se medicina I, II ou III) e também da facilidade que ele tem para publicar. Podemos imaginar que quanto mais periódicos tivermos com fator impacto A1, mais fácil será a esse pesquisador divulgar seus resultados. Mas quem é que disse que o número de periódicos obedece a essa classificação da CAPES? Vejamos a tabela abaixo.

No caso da medicina III que, como vimos, tem o nível A1 com revistas de fator impacto maior que 2,85, temos uma diferença enorme entre as especialidades. A Urologia tem 26% de suas revistas com a classificação A1, enquanto que a Otorrino tem ZERO! Eu pergunto, como um docente da Otorrino pode ganhar o conceito muito bom e assim melhorar o conceito do próprio programa de pós-graduação ao qual é vinculado? Só se publicar seus dados em outras revistas de fator impacto maior, mas isso não é nada fácil! A linguagem de cada revista é própria pois ela se dirige a um público-alvo que é relativamente específico. Os pesquisadores reclamam da dificuldade em publicar em revistas de outras áreas, como por exemplo, um cirurgião publicar os resultados de um tratamento cirúrgico inovador para o câncer gástrico em uma revista de Oncologia (que têm, em geral, elevado fator impacto). Se pensarmos que as verbas de fomento à pesquisa também são distribuídas de acordo com regras parecidas, ou no mínimo, são levados em consideração todos esses conceitos CAPES, temos um sistema que não é assim, um primor de igualdade.

Discussão - 14 comentários

  1. maria disse:

    putz… e tem jeito?
    ou o jeito é jogar todos esses conceitos de mensuração no lixo?

  2. Sibele disse:

    Isso mesmo, Maria! O negócio é jogar todos esse conceitos de mensuração no lixo!
    Principalmente porque essas mensurações estão completamente obsoletas! Baseiam-se no Fator de Impacto, um índice criado há quase meio século por Eugene Garfield (Garfield, como o gato dos desenhos animados, é vivissimo, espertissimo, mas isso são outros quinhentos…), que dirigiu por todo esse tempo os estudos de metrias nas publicações cientificas, criando enormes discrepâncias entre as publicações de diferentes áreas (e de uma mesma área, como nos mostra este post do Karl) e mesmo entre países, conformando desigualdades no status científico mundial. O Fator de Impacto é muito criticado (ver mais aqui).
    Mas o mundo avança… felizmente! Viva Darwin, viva a evolução!!! Com a ajuda das tecnologias de comunicação e informação (as famosas TIC), esse status quo está ficando de pernas para o ar. O advento das publicações online, do open access full text, dos repositórios de self-archiving estão desconstruindo esse modelo piramidal das publicações científicas.
    Para começar, já se desloca o foco das mensurações da revista para o cientista: surge indicadores individuais mais condizentes com a real produção intelectual do cientista. Um exemplo é o índice h, uma alternativa ainda imperfeita, mas assim mesmo uma alternativa, e já com várias iniciativas para melhorá-la. Outro exemplo é o article-level metric.
    O Karl está sempre nos reportando tal problemática e os avanços nessa questão [e eu o a-d-o-r-o por isso! :)], como quando nos brindou com um ótimo
    post apontando uma iniciativa de vanguarda, a meu ver.
    E repito aqui o que comentei ali: não, não estamos num cul-de-sac! Há luz no fim do túnel!
    Resta a Capes se dar conta!

  3. Karl,
    Eu pesquiso em uma área que tem um pé em Ciências Biológicas I e um pé em Ciências Agrárias, então lido no dia-a-dia com essa questão que você colocou.
    Primeiramente, a pontuação é feita pela soma dos pontos da qualificação do seu artigo. Ou seja, um “MUITO BOM” pode ser alcançado fazendo 2 artigos A1 por ano ou fazendo 36 artigos B5.
    De maneira geral, essa divisão pelos estratos leva em conta como está o nível da Ciência brasileira em relação ao que é “ciência de ponta” na área em questão.
    Algumas áreas tradicionalmente produzem muitos artigos, mas de pouco impacto. Somando-se eles chegaria-se ao “muito bom” das áreas competitivas, que produzem poucos artigos, mas todos de alto impacto.
    Não conheço as particularidades da pesquisa em Otorrino no Brasil, mas é bem provável q essa área prime mais pela quantidade de artigos do que pela qualidade, o que acaba jogando pra baixo o índice de impacto da área.
    Como os docentes de Otorrino produziriam muitos artigos, ele nao sentiriam muito essa diferença.
    Outra alternativa: fazer uma redivisão das áreas. Por exemplo, em Ciências Biológicas I, Oceanografia foi destacada e virou uma área própria, pq era uma área que sofria muito qdo colocada ao lado da Genética, tradicionalmente mais competitiva.
    Você como pesquisador na área médica pode me dizer se o que eu falo faz sentido pra sua área ou só estou falando besteiras! 🙂
    abraço…

  4. Karl disse:

    maria, existem muitos exames laboratoriais ruins, no sentido mesmo de ter sensibilidades e especificidades abaixo da crítica. Um médico, ao pedir um exame desses, deve saber o que esperar e estar pronto a descartar um resultado que não venha de encontro ao que seu julgamento clínico indica. Apesar de ruins, eles ficam ótimos quando confirmam nosso raciocínio =). Penso que essa avaliação da Capes poderia seguir o mesmo caminho.
    Douglas, você colocou as regras do jogo. Está certíssimo. Entretanto, existem vários limitadores no caso da área da saúde que não sei se existem em outras áreas. Por exemplo, não se pode somar indefinidamente artigos B5 para formar um A1. O número é restrito. Obrigado pelos comentários.

  5. Bom, na minha área não há restrição quanto ao número, pelo menos q eu saiba. O problema estaria na distribuição de publicações qualificadas em relação ao corpo docente. Provavelmente a comissão de avaliação da Capes puniriam uma pós graduação que usasse da estratégia de “produção em massa” de artigos de baixo impacto, com o intuito de antigir a pontuação exigida.
    Pelo menos na área que eu trabalho, os membros da comissão parecem ser bem sensatos na atribuição de notas e compreendem particularidades de alguma pós que sofra alguma injustiça em função do sistema proposto.
    Outra coisa: você reparou que livro nao vale nada nesse cálculo? Tem área que acaba sendo muito punida por isso.
    Na ultima palestra que vi sobre o assunto, me disseram q a CAPES está trabalhando para lançar um Qualis-Livros, ou algo do tipo.

  6. Karl disse:

    É verdade. Os livros são uma ausência importante.
    Poxa, Sibele! Obrigado pelos elogios.

  7. Acabei só lendo hoje o comentário da Sibele… e discordo frontalmente quando ela fala em jogar tudo no lixo!!
    O sistema de fator de impacto não é o ideal para a avaliação, mas é o mais universalizado.
    É a mesma coisa de dizer que nunca mais poderemos usar um exame diagnóstico pq em 10% dos casos ele da um resultado falso. E os outros 90%? Temos que lutar para que o “exame” melhore e mostrar alternativas pra isso… não simplesmente falar q o exame nao presta e pronto.
    Acho que o índice h e o article-level metric são iniciativas relevantes pra fugirmos das armadilhas do fator de impacto. Temos que caminhar para a melhora do sistema de avaliação da CAPES, mas é inegável que o sistema baseado em fator de impacto trouxe avanços. Trouxe também problemas, e por isso que estamos discutindo aqui…rs.
    Mas como todo remédio, não é por causa de um eventual efeito colateral q temos que bani-lo da sociedade.

  8. Sibele disse:

    Bem, Douglas, o Karl já adiantou que você está certíssimo: colocou as regras do jogo.
    Apenas comento que o fato das regras desse jogo serem mais universalizadas não o legitima. Algo de Goebbels, sabe?
    Sempre me lembro de Planck, que frustrado em seus esforços de convencer seus “colegas” da academia da verdade e importância da novíssima Física Quântica, emitiu um amargo desabafo:

    Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela (apud KUHN, 1996, p. 191).

    Ironicamente, foram justamente os conceitos envolvidos na Física Quântica que alavancaram novas reflexões tecnocientíficas com resultados até mesmo nas TIC, reflexões essas sempre permeadas pela Comunicação Científica, ela mesma sendo transformada nesse processo. Totalmente dialético.
    Os tempos de Planck eram outros. Hoje, a tecnologia avança a passos largos, e respiro aliviada por não precisar compartir da mesma amargura do eminente físico.
    E lembro de um dito de Luli Radfahrer, professor de Comunicação da ECA-USP: “O modelo atual é uma árvore muito grande, que mesmo morta demora a cair.”
    Apenas acho que cientistas, justamente por cientistas, deveriam ir além da árvore morta e lançar um olhar para a floresta. Algo como extrapolar as regras do jogo, ou ”thinking outside the box”. Infelizmente, muitos ainda agarram-se ferrenhamente ao tronco prestes a tombar. Talvez demore um pouco… mas vai tombar.
    KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 4.ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

  9. Fernando disse:

    De fato, o quesito “igualdade” está longe de ser atingido pensando-se na própria disponibilidade de periódicos, e os diferentes sistemas de avaliação a que o pesquisador E profissional em medicina se vê submetido. Muito bem exposto, até mesmo a um leigo como eu.

  10. […] Não sou um cientista cientologista. Mas de vez em quando arrisco aqui uns pitacos. […]

  11. As instituições governamentais tem que entender que para se obter pesquisas clínicas de qualidade, é preciso ter um sistema de saúde organizado, em todos os níveis, e não apenas assistencialista. A pesquisa em área básica, apesar de importante, não teria sentido sem aplicabilidade clínica. Quando desvinculada da clínica, a pesquisa básica tem apenas a função de engrossar currículos. O mito da caverna de Platão se aplica em todos os níveis! A realidade está muito longe daqueles que se fecham em seus próprios conceitos. Números foram inventados pelos homens.
    Parabéns pela sua inteligente avaliação, Karl.

  12. […] CAPES julga as publicações de seus bolsistas – o sistema QUALIS – do qual já falamos aqui e aqui, e no qual o fator impacto (FI) tem grande importância, gerou uma “adição” […]

  13. Olá Obrigado pelas informações. Aguardando
    os próximos artigos! Abraço!

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