Caos e Ruína

Num mês em que comemorou-se 150 anos do lançamento da primeira edição d’ “A Origem das Espécies” (o leitor(a) pode ver excelentes revisões no SBB como pex, DE, CB, Psicológico, Marco Evolutivo e Gene Reporter, supercompletas), resolvi falar da razão (uma das!) da minha admiração pelo pensamento darwiniano.

Darwin é um poeta do acaso. Ele produziu a maior e mais demolidora ideia contra o conceito clássico de Natureza, que pode ser entendido como uma instância primitiva de interações entre os seres. Darwin criou uma história que, se contada da forma correta, dá conta de toda a brutal variedade biológica do planeta. Mas isso não é o que mais impressiona, nem o que incomodou o pensamento tradicionalista. O desconforto causado pela teoria da evolução vem do fato, no meu modo de ver, de ela ser uma apologia do acaso. Esse mesmo acaso que é a mais humilhante e incômoda ideia imposta ao homem desde o aparecimento de sua consciência e que tem na teoria da evolução, sua mais bem acabada e venal sinfonia. A história da filosofia poderia então, ser dividida entre filósofos naturalistas e anti-naturalistas, que podem ser chamados também de artificialistas ou partidários do artifício. Segundo Clement Rosset [1], fazem parte deste último grupo, nomes como os sofistas, Empédocles, os atomistas, Lucrécio, Maquiavel, Montaigne, Hume, Hobbes, Nietzsche e eu incluiria, Richard Rorty. “Somente a ideia de acaso permite a passagem do inerte ao vivo, sem que se recorra a um referencial metafísico”.

O mundo de Darwin se opõe ao de Platão. Platão desvaloriza o mundo sensível em detrimento a um onde moram as ideias primordiais e perfeitas. Ora, se somos criados no esplendor da perfeição, esse excesso de êxito só nos trará a possibilidade de degradação. Não é possível melhorar o que é perfeito. É preciso cuidar apenas, para que não se degrade. Segundo Rosset, toda a filosofia de Platão gira em torno desse esforço para evitar a corrupção de algo que era resplandescentemente perfeito. Por aqui, ainda vemos vestígios da perfeição por exemplo, nos corpos dotados de beleza, nos raciocínios claros e nas virtudes. Então, o mundo sensível de Platão, esse mundo que vemos, vivemos e interagimos, é um mundo em ruínas. Um mundo que olha o passado, lamenta o presente e aspira a outro mundo futuro.

O mundo de Darwin não é assim. É um só. Não há outro mundo. Apenas esse, e ele é caótico. Caos que não pressupõe uma ordem prévia que se corrompeu. Não vê uma ordem oculta ou providência. A total falta de propósito desse raciocínio é uma vertigem. Não há ordem, nem necessidade. Não é uma explicação, é uma constatação trágica. E pulsa, arrastando-nos para o presente, juntamente com tudo que realmente é. De rerum Natura.

[1] C. Rosset. A Anti-Natureza – Elementos para uma Filosofia Trágica. Rio de Janeiro. Espaço e Tempo. 1989.

Discussão - 22 comentários

  1. “O desconforto causado pela teoria da evolução vem do fato, no meu modo de ver, de ela ser uma apologia do acaso.” – na verdade, tudo o que a seleção natural *não* é casual.
    A teoria de Darwin e cia. é *anti*acaso.
    A seleção natural é uma relação direta de causa e efeito: ter uma característica faz com que o portador tenha mais ou menos chances de deixar descendência fértil para a próxima geração.
    O acaso só entra na geração de variedades e mesmo isso é dispensável.
    O que podemos dizer da teoria darwiniana é que ela dispensa *intencionalidade*, *planejamento*. A seleção natural pode ser pensada como um processo puramente *mecanicista*.
    []s,
    Roberto Takata

  2. Daniel Christino disse:

    Darwin, esse pré-socrático. 🙂

  3. Rudolf disse:

    Muito interessante, Karl, nunca tinha pensado dessa maneira. 🙂
    Imagino que este impacto epistemológico que o acaso gerou na comunidade científica e não científica tenha sido repetido com a física quântica.

  4. Karl disse:

    #Takata: “A seleção natural é uma relação direta de causa e efeito”. Sim. E qual seria a “causa primeira” caro amigo?
    #Daniel: hehe
    #Rudolf: Também achei muito legal. Tanto que postei. Acho que o impacto da nova física foi grande também, mas tenho cá com os meus botões, que o tsunami darwiniano foi um pouco maior. Mas isso é assunto para outro post.
    Obrigado pelos comentários.

  5. A causa é a interrelação dos produtos da expressão dos genes – fenótipo – com o ambiente. O ambiente seleciona os organismos com base nos fenótipos.
    Um exemplo bem simples. Uma variante genética que causa esterilidade – digamos uma proteína não-funcional essencial na formação de flagelos de espermatozóides. Obviamente, indivíduos (de uma população de reprodução sexual) que portam essa variante não irão deixar descendentes, logo essa variante genética não irá prosperar e sumirá da população ao longo do tempo – neste caso em uma única geração (supondo uma variante dominante).
    Não há nenhuma obra do acaso aí. Mesmo essa variante poderia ter sido introduzida por um cientista propositadamente.
    []s,
    Roberto Takata

  6. Márcia disse:

    Karl, eu cursei uma disciplina que tratava de genética de sistemas complexos, e falávamos muito de seleção natural e do universo de possibilidades aos quais o organismos estão sujeitos. Foi exatamente nessa época que passei a enxergar a beleza da teoria e realmente me apaixonei por evolução.A falta de ordem, a imprevisibilidade é que deixa tudo mais lindo e que dá vontade de saber cada vez mais a respeito.

  7. Igor Santos disse:

    Karl e Takata, Lei de RicBit em vocês dois.

  8. André Souza disse:

    Takata,
    Acho que qd o Karl falou de “acaso” e “causa primeira”, ele estava se referindo aos primórdios, a antes do mar de moléculas brigando por átomos, segundo uma aproximação grosseira da hipótese de Oparin (q ,se especular um pouco mais, até cabe o “algoritmo” de Darwin, considerando uma disputa entre moléculas mais estáveis e outras nem tão mais estáveis por átomos…).
    Há de convir que, apesar de ínfimo, o acaso é um componente importante da “primeira população”

  9. André,
    A abiogênese primordial não faz parte da teoria da evolução. Mas, sim, pode ser que *depois* de terem surgidos os primeiros replicantes – digamos, moléculas peladas de ARN – antes da formação de organismos celulares tenha havido uma evolução darwiniana.
    Mas, de novo, o acaso não toma parte no processo seletivo. Haverá uma relação causal de maior eficiência reprodutiva e a consequente ampliação do número de cópias ao longo das gerações.
    []s,
    Roberto Takata

  10. Luís Brudna disse:

    Concordo com o Takata.
    Mas talvez falte o Karl definir melhor o que tratou como ´acaso´.
    Ou Ricbit vence. 🙂

  11. Igor Santos disse:

    Retroativamente, nenhuma mutação selecionada é obra do acaso, pois já passou no vestibular da vida.
    Mas antes disso, qualquer mutação é totalmente aleatória, para o bem ou para o mal, fruto totalmente do acaso.
    O acaso é o motor que move as mutações, o não-acaso é quem seleciona as que ficam.

  12. André Souza disse:

    Takata,
    Concordo q o acaso não tem papel relevante no processo seletivo. Ao trabalharmos com algoritmos genéticos e, se colocarmos uma variável de mutação randômica de probabilidade de ocorrência “grande” (sair de 0,3% para 2%, por exemplo), pode-se verificar até mesmo q em alguns casos a randomização atrapalha (o alg. leva mais ciclos ou populações para chegar a uma solução satisfatória).
    Mas ainda assim, em se tratando de algoritmos, pode ser necessário uma “população”aleatória (pode ser totalmente definida? sim, mas corre-se um risco maior de não se testar soluções promissoras, q estariam fora do espaço definido inicialmente, além de dar um trabalho do cão e perder um pouco de flexibilidade no programa final).
    Se definirmos o “acaso” como a bagunça inicial *antes* da formação dos primeiros replicantes, q eventualmente acabou gerando-os, o “acaso” teria algum papel relevante mas, cabe observar, somente no início (algo como uma fagulha q inicia um incêndio em uma refinaria. Depois q o fogo começa, a fagulha não tem mais papel algum no incêndio).
    (acho q não expliquei pq uma mutação aleatória é usada em programação: para evitar q a busca acabe restrita em um “vale” em um gráfico de soluções, ignorando soluções mais eficazes em outros vales q possam existir)
    Luis Brudna
    concordo. Precisamos saber o q foi definido exatamente como acaso. Senão esta discussão não acaba.

  13. Amigo de Montaigne disse:

    “Então, o mundo sensível de Platão, esse mundo que vemos, vivemos e interagimos, é um mundo em ruínas. Um mundo que olha o passado, lamenta o presente e aspira a outro mundo futuro.” (Karl)
    “O passado e o presente são os nossos meios, só o futuro é o nosso fim. Assim não vivemos nunca, mas esperamos viver e, sempre nos dispondo a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.” (Pascal)
    No processo evolutivo ser feliz é mero acaso?
    Abs, Amigo de Montaigne.

  14. Concedamos que as mutações sejam ao acaso – eu acredito que sejam (no sentido de que não são direcionadas).
    A teoria da Darwin *não* é uma teoria sobre mutações. Ele simplesmente não sabia a origem da variedade. Apenas admitia (por exame da natureza) que existia e que era gerada de alguma forma.
    A teoria de Darwin (e cia) é sobre *seleção natural* (e como ela cria a diversidade e adaptações complexas).
    Não estou discutindo a existência do acaso ou mesmo da importância do acaso na evolução real (e.g. na deriva gênica). Apenas que a teoria de Darwin *não* é sobre o acaso.
    []s,
    Roberto Takata

  15. maria disse:

    takata, concordo com parte da tua argumentação. mas a base para a seleção natural é necessariamente a variabilidade – que surge ao acaso. por que você acha isso desimportante? o darwin não sabia como essa variabilidade surgia, mas assentou sua teoria nela.
    as pessoas querem saber por que estão no mundo, por que as cosias acontecem. darwin não respondeu e, concordo com karl, isso frustra muita gente.

  16. Maria,
    É desimportante na medida em que mesmo que *não* fosse ao acaso – digamos que Cairns-Smith estivesse certo sobre mutações dirigidas ou que o sistema CRISPR/Cas fosse o modelo mais espalhado – a teoria de Darwin valeria.
    Considere o seguinte experimento:
    1) *TODA* vez um grupo formado de 100 pintainhos normais (50 machos e 50 fêmeas) e 100 pintainhos com deficiência no metabolismo de cálcio (50 machos e 50 fêmeas) fosse liberado em um campo com alimentação normal;
    2) Os pintainhos crescessem (naturalmente os com deficiência de metabolismo de cálcio tenderiam a morrer);
    3) Os frangos – proporcionalmente a seu número na população – normais e com deficiência são cruzados aleatoriamente entre si;
    4) Da prole resultante, proporcionalmente a seu número na população, 200 indivíduos (100 machos e 100 fêmeas) seriam mantidos e alimentados com ração normal;
    5) Volta-se à etapa 2, até que somente uma variedade estivesse presente (supõem-se que na maioria das vezes fosse a variedade normal);
    6) Volta-se à etapa 1.
    Veja que em *nenhum* momento é introduzida uma variação aleatória – quando a variação inicial é introduzida, ela é fixa.
    A seleção darwiniana continua a ocorrer mesmo assim. Se A ocorre tanto na presença quanto na ausência de B, não podemos dizer que B seja necessário à A.
    Vejamos o que diz titio Darwin:
    Divergence of Character
    “Mere chance, as we may call it, might cause one variety to differ in some character from its parents, and the offspring of this variety again to differ from its parent in the very same character and in a greater degree; BUT THIS ALONE WOULD NEVER ACCOUNT FOR SO habitual and LARGE A DEGREE OF DIFFERENCE as that between the species of the same genus.”
    […]
    “It will be admitted that the production of races so different as short-horn and Hereford cattle, race and cart horses, the several breeds of pigeons, &c., COULD NEVER HAVE BEEN EFFECTED BY THE MERE CHANCE ACCUMULATION of similar variations during many successive generations.”
    Capítulo V
    Laws of variation
    “I HAVE hitherto sometimes spoken as if the variations—so common and multiform with organic beings under domestication, and in a lesser degree with those under nature—were due to chance. This, of course, IS A WHOLLY INCORRECT EXPRESSION, but it serves to acknowledge plainly our ignorance of the cause of each particular variation.”
    http://darwin-online.org.uk/content/frameset?viewtype=text&itemID=F401&pageseq=1
    O que podemos dizer é que a seleção natural é um mecanismo *não* teleonômico, não tem um propósito, não tem uma intenção. Mas não podemos falar que é fruto do acaso. Do mesmo modo que não podemos falar que as partículas que compõem as estrelas se agregaram por acaso – não, foram direcionadas pela gravidade.
    A evolução, na visão de Darwin, ocorre impulsionada pela seleção natural.
    []s,
    Roberto Takata

  17. Luiz Bento disse:

    Como bom seguidor de Mayr, concordo plenamente com o Takata.
    Na verdade, um grupo que relaciona muito o acaso e a seleção natural é o grupo dos criacionistas, defensores do design inteligente, da evolução teísta, etc. Tentar passar a imagem de que um mundo caótico nunca poderia ter gerado tamanha complexidade é um argumento antigo.
    E em relação ao contraste entre a visão de Platão e Darwin, não vivemos em um mundo de ruínas. Hoje vemos cada vez mais a importância da cooperação na natureza, das relações positivas. Tão errada quanto a visão que na natureza tudo é belo e em equilíbrio é a visão de que na natureza temos apenas guerras e lutas sangrentas. O estigma de que a competição é o agente de seleção mais importante está ficando cada vez mais no passado…e na visão dos ultradarwinistas.

  18. O profeta disse:

    Takata,
    Não seja o fim da linhagem de sua família, mostre a Darwin que a seleção natural não atue em você negativamente! Vai transar Takata!!!! A vida é muito mais que isso!! Tente deixar descedentes….
    Abraços

  19. maria disse:

    mas takata, a variação inicial – os dois fenótipos – só são preexistentes no teu exercício. essa variabilidade teve que surgir de alguma maneira. e foi aí a grande ação do acaso. um cientista maluco pode ter criado os pintos deficientes, mas na natureza é por acaso mesmo.

  20. Oi, Maria,
    Pode ter sido criado por uma mutação casual ou pode ter sido bioengenharia. Não importa a origem da variação para a validade da evolução por seleção natural.
    Na natureza, em geral, consideramos que a variação se origina de modo casual.
    Mas a teoria não se fia nisso, não depende do acaso. Um dos pontos belos da teoria de Darwin (e cia) é exatamente que permite *até* o acaso: note-se, no entanto, que permitir não é o mesmo que depender.
    Vamos considerar o sistema CRISPR/Cas de procariotos. Um vírus invade uma bactéria e trecho do ADN do vírus é incorporado em um trecho específico do genoma da bactéria. Isso leva a uma reação que inativa os genes do vírus invasor – um mecanismo similar ao da interferência de ARN.
    Veja que se cria uma mutação no genoma da bactéria e essa mutação *não* é ao acaso.
    Ainda assim a seleção darwiniana pode operar.
    []s,
    Roberto Takata

  21. Tendo a concordar com o Takata, especialmente pelo ato de que “acaso” é uma palavra mal definida em ciencia. Estão falando de flutuações termicas ou flutuações quanticas? Ou de caos determinista, que em certos casos, é indistinguivel fenomenologicamente do acaso, mas que não é acaso.
    Lembremos que os algoritmos geneticos usam numeros pseudo-aleatorios (ou seja, caos determinista e nunca acaso puro) e mesmo assim funcionam muito bem e implementam muito bem a evolução Darwiniana. Logo, o puro acaso (que aparentemente só existe nos fenomenos quanticos e talvez nas quebras de simetria espontaneas) não parece ser um elemento necessario na teoria da Seleção Natural de Darwin…

  22. O argumento do Takata está absolutamente correto. Darwin não renegou uma origem (causa) divina da vida mas propôs um mecanismo que não requer intervenção divina para explicar a evolução da grande diversidade de formas de vida na Terra. O mecanismo de seleção natural proposto por Darwin é tudo menos aleatório, pelo contrário é determinístico. Mas o mecanismo é contingente, sujeito às pressões de seleção natural que atuam sobre o indivíduo. Este contexto, tanto ambiental como biológico, pode ser variável, catastrófico, temporalmente aleatório, mas é a condição para a seleção determinar o destino evolutivo do indivíduo, tal como Deus. Por isso, Dawkins é um pastor darwiniano 🙂 Já o acaso, é útil para modelar matematicamente sistemas pós-darwinistas onde a seleção natural não atua diretamente, tal como o destino da maior parte das mutações em sequências de DNA.

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