O Caramujo e a Estrela

“Compreensão, nas Humanidades, é compreender-se”
Hans-Georg Gadamer
“A seleção natural pode ser pensada como um processo puramente *mecanicista*.”
Roberto Takata
Nas ciências naturais o objeto de estudo do homem é bastante bem delimitado e usa um arcabouço teórico e lógico ancestral. Podemos dizer que essa abordagem produz resultados que se traduzem em conhecimento instrumental e tecnologia. Se estudamos um caramujo ou uma galáxia sabemos exatamente que o objeto de nosso estudo é bastante outro que nós mesmos e nos apropriamos de suas características de acordo a matriz conceitual que aplicamos. Mesmo na medicina, ao estudar as moléstias e o modo de funcionamento do organismo humano na doença, “objetivamos” nossos orgãos, nossa fisiologia, nossas queixas de modo a aplicar os conhecimentos adquiridos de outros animais e de outros seres humanos de maneira sistemática e conseguir os resultados esperados. A objetivação que permite às ciências naturais fazer com que um estudante de anatomia olhe para um cadáver humano e o esfole com “fins científicos” depende de que o estudante não se veja nele (o que no início, não é lá muito fácil) ou seja, depende de um distanciamento. Para objetivar algo é preciso inicialmente que se materialize um sujeito. Da relação sujeito-objeto surgirá o conhecimento. O sujeito se apropria da forma como o objeto se lhe expõe.As ciências ditas “humanas” ou históricas (que Aristóteles chamava de Política, Dilthey, de Geistwissenschaften – literalmente, ciências do espírito – e Kant, de razão prática) têm um status epistemológico diferente. Foi o próprio Wilhelm Dilthey quem talvez primeiro tenha tido a percepção primordial. As ciências do espírito implicam uma relação histórica. Eu “sou” mas antes de mim, há uma história que me precede. Nas ciências naturais o homem se distancia pois estuda fenômenos distintos dele. Bastante influenciado pelo neokantismo, pelo positivismo e pelos grandes historiadores alemães do século XIX, Dilthey ficou fascinado por essa oposição entre as explicações empíricas das ciências naturais e a compreensão movediça da história. Explicar e compreender são coisas bem diferentes. Eu explico o sistema respiratório do caramujo; explico o movimento das estrelas, explico até sintomas psicológicos humanos, mas posso não compreendê-los. O que faz esse caramujo aí? Por que essa estrela? Como posso amar essa mulher e não Gisele? Não obstante, posso compreender o choro e o gozo de outros homens! (Aliás, nisso se baseia toda a literatura).http://marciliomedeiros.zip.net/images/Estrela5pontas.jpgAs coisas têm trilhado caminhos diferentes desde então. Exceto por algumas áreas de fronteira que, como toda boa área de fronteira, fazem-se presentes pela tensão existente entre os dois lados. Uma área nítida de tensão é a medicina. Dizem que a medicina é a “mais científica das humanidades e a mais humana das ciências”. Sua vinculação à prática configura-lhe um status epistemológico incerto: intuição e algoritmo, acaso e necessidade, desordem e coerência, população e indivíduo. É esse o caminho dos médicos: um trapézio por sobre as fronteiras. Quanto mais facilmente o trapezista passa de uma barra a outra, melhor o médico. Alguns até fazem piruetas.Uma outra área fronteiriça é a grande clareira aberta pela teoria da evolução. A publicação d’ “A Origem das Espécies” há 150 anos causou uma revolução nas ciências naturais. Provocou também, tal qual a teoria psicanalítica de Freud, uma nova forma de nos vermos. Uma nova história. A apropriação da teoria da evolução pelos cientistas foi feita de acordo com o distanciamento peculiar do modo de ser científico e produziu (e produz ainda) muitos frutos. Do lado humanístico do problema, a nova forma de ser-no-mundo foi uma paulada no pensamento metafísico. A Inglaterra vitoriana era também a capital da teologia natural. Estudava-se “história natural” para mostrar como Deus era sábio em seus desígnios e exaltar a beleza da Natureza por Ele criada. Não é exagero dizer que uma boa parte do “longo argumento” darwiniano foi dedicada desmontar o reconhecidamente admirado raciocínio de William Paley. Sua eficiência em fazê-lo foi um dos pilares da polêmica que se seguiu. Se considerarmos que a teoria da evolução é apoiada no gradualismo, na variação das espécies e na seleção natural, temos um “mecanismo” de produção de novas espécies e seres – nós, inclusos – que funciona independentemente de qualquer desígnio, projeto ou mesmo, vontade metafísica. A explicação empírica e natural é o mecanismo. A compreensão histórica da mudança do ser-no-mundo é a contingência da ausência de projeto.

Sim. O acaso permeia a teoria da evolução e Jacques Monod o intuiu. O Nobel de Medicina não o aliviou das críticas de seus pares. Poucos entenderam que ele falava do outro lado da fronteira que lhe concedera o prêmio: “O puro acaso, só o acaso, liberdade absoluta mas cega, está na raiz do prodigioso edifício da evolução”.

Discussão - 18 comentários

  1. Rudolf disse:

    Karl, o trapezista. 😉

  2. Karl,
    Vamos ter que fazer duas distinções:
    1) O *fato* da evolução e a *teoria* da evolução.
    2) A teoria da evolução de *Darwin* (e cia) e a teoria da evolução moderna.
    O acaso *não* permeia a teoria da evolução de Darwin.
    Atualmente se aceita o papel do acaso, o que influencia no modo como a evolução como *fato* ocorre.
    Qdo Monod fala do acaso na evolução está se referindo à evolução como fato e não à teoria evolutiva de Darwin. Devemos lembrar tb da outra parte do discurso de Monod: o acaso e a *necessidade*.
    O acaso permeia a evolução como fato de diversas maneiras: um meteoro que cai, uma montanha que se eleva e separa populações – são o acaso na forma de *contingências*. O acaso move a evolução de populações na geração de mutações e na deriva gênica.
    Podemos sob esse aspecto comparar a(s) teoria(s) da evolução com a(s) teoria(s) da gravitação.
    A evolução das galáxias está sujeita às flutuações aleatórias de suas sementes quânticas. Há ainda a agitação caótica das partículas de gases em condensação. Depois o movimento ordenado das estrelas, planetas e asteroides que sofrem perturbações com choques inopinados.
    O acaso permeia a evolução das galáxias e dos sistemas estelares. Mas a *teoria* da gravitação *não* é uma teoria que dependa do acaso.
    []s,
    Roberto Takata

  3. Karl disse:

    Takata-san,
    Sua paciência comigo só é comparável a sua persistência em me fazer cruzar “fronteiras” =) e eu agradeço por isso. São discussões assim que me mantem escrevendo o blog.
    Por outro lado, o “fato” da evolução já tinha, ele mesmo, causado certo distúrbio, mas não havia sido levado a sério (nem mesmo por cientistas). Até Darwin. A “teoria” da evolução incorporou racionalmente o “fato” da evolução. E agora nos aproximamos do ponto:
    A introdução mera e simples de um cisco, uma pitada de acaso no arcabouço metafísico que explicava nossa presença nesse planeta, o fez tremer e ruir em grande parte. Do ponto de vista humanístico, a teoria da evolução só veio vitaminar um fantasma que há muito assombrava essa visão cosmológica de nossa existência: a ideia de que viemos de outros animais! Era de se esperar que 150 anos depois, reações violentas a esse pensamento ainda ocorram. Se o acaso dispara um mecanismo ou se faz parte dele importa pouquíssimo para quem viu seu mundo desabar. Esse espinho, ponta de dúvida, em toda uma concepção de mundo não passa despercebido: ou o rechaçamos violentamente, ou o assumimos e sofremos as consequências de uma visão secular com toda a falta de amparo que dela decorre. A própria filosofia é vítima dessa dicotomia.
    É isso, os posts têm o intuito de chamar a atenção para o fato NO homem e não para além ou fora dele. O homem quer, sob esse ponto de vista, compreender-se, e não apenas entender, como diz a epígrafe gadameriana. Muitas vezes, imersos que estamos nas intrincadas alegorias do pensamento formal, não captamos a coisa do horizonte do outro. Obrigado pelos comentários impressionantemente esclarecedores. E pela paciência oriental.

  4. Bruno Mendonça disse:

    Carol Karl,
    Certamente a visão evolucionista serve para quebrar uma série de preconceitos sobre a constituição do humano. Eu nem me pronunciaria sobre teologia, continuaria na Filosofia: o universo dos valores, as questões da liberdade, no âmbito prático e teórico, entre outras são todas questões para as quais o pensamento evolucionista é um fator importante. Confesso que ainda me sinto um pouco “metafísico dogmático” com relação a esses temas: considero o evolucionismo, como outros pensamento científicos, mais como um (bom) problema do que como uma solução.
    Abraço, Bruno.

  5. Sibele disse:

    Caro Karl,
    Será que essa “objetivação” verificada nas Ciências Naturais é absoluta, realmente levando o sujeito a não se ver no seu objeto de estudo? Totalmente imparcial, neutro e livre de qualquer viés idiossincrático que esse sujeito, por demasiadamente humano, fatalmente carrega consigo? É mesmo possível?

  6. maria disse:

    a ameaça ao distanciamento é a parte da teoria da evolução (como formulada por darwin mesmo) que é mais difícil de engolir. foi assim na época e continua a ser. como assim, estamos sujeitos às mesmas regras que regem os nossos objetos de estudo?
    ouvi no podcast da nature uma entrevista que me pareceu se encaixar nesta discussão. análises de linhagens evolutivas de maneira a testar a hipótese da rainha vermelha, aquela que diz que os organismos têm que constantemente mudar para continuarem igualmente adaptados ao ambiente. pelo que entendi, a ideia é que a especiação não acontece necessariamente por seleção natural, mas por uma capacidade de resposta a alterações súbitas no ambiente. ainda não fui ler o texto. para quem tem acesso à nature, dá para encontrar por aqui: http://www.nature.com/news/2009/091209/full/news.2009.1134.html

  7. Se bem entendi onde queria chegar nestes dois últimos textos, sugiro que não seja o acaso darwiniano o seu tema. É ideia de um projeto divino de criação do Homem. Ou, esquecendo Deus, da ideia discutida por Gould, da evolução ser inevitavelmente progressiva no sentido de uma maior complexidade biológica. Gould argumenta que isso é apenas uma decorrência das condições iniciais dos sistemas de vida. Não por acaso. Já o Homem, esse sim, epifenômeno darwiniano, acaso cosmológico 🙂

  8. Karl disse:

    João, Darwin transformou um pesadelo na mais cruel das possibilidades reais. Me aproprio do momento exato do entendimento do “mecanismo” da seleção natural e sua capacidade de explicar a brutalidade da vida nesse planeta à consequente falta de chão que provocou. Se nenhuma das ideias de Darwin era necessariamente original, é a razão do tumulto depois dele que me faz chama-lo “poeta do acaso”. Como uma fotografia na qual se recorta uma figura: a ausência chama mais atenção que todo o enquadramento.

  9. Chloe disse:

    Olá Karl, : )
    quando li essa postagem, uma frase chamou minha atenção: ‘Como posso amar essa mulher e não Gisele?’.
    Sensível, romântico, sincero.
    Apesar de ser só um exemplo, sempre me lembro disso e penso a respeito.
    E estou lendo um livro que fala algo nesse sentido:
    ‘… Charlotte sempre exalava um perfume de biscoitos doces… Mais tarde descobri que era baunilha que ela esfregava nos punhos e atrás das orelhas, perfume de uma chef confeireira. Era por causa dessas coisas que eu a amava. Eis uma novidade para as moças: para cada uma de vocês que acha que nós, homens, queremos uma mulher como Angelina Jolie, toda magra e cheia de ângulos, a verdade é que preferimos abraçar alguém como Charlotte – uma mulher que era macia quando eu passava o braço ao redor dela; uma mulher que talvez passasse o dia todo com um pouco de farinha na camisa, sem notar ou se importar, nem mesmo quando saía do trabalho direto para a reunião da APM; uma mulher que não é como aquela viagem exótica de férias, e sim como a nossa casa, para onde mal podemos esperar para voltar.’ – A menina de vidro – Jodi Picoult
    Só pra sair um pouco dos assuntos sérios.
    ; )

  10. Fabiana disse:

    Desculpem vcs dois, mas esse cara é um “edípico” de carteirinha! Sério!! “Farinha na camisa”, “como nossa casa”?… Casou com a mãe, só pode.
    E olhem que de mãe eu tenho entendido bem nos útimos dias…

    Credo, de repente me lembrei do louco total do Norman Bates do “Psicose”, vi o filme “Hitchcock” faz pouquinho, no avião. Não gostei do filme não. Mas aquela mãe-filho do “Psicho”…
    Excesso de mãe é um superego sem limites, “assassino” mesmo, na vida da gente. Literalmente, according to Mr. Hitch…
    Toca a matar a mãe.

    (Moral da história: não precisa amar Gisele não. Mas também não precisa exagerar na farinha e na baunilha…)

  11. Fabiana disse:

    É. Mas certas linhas de sentido são postas já na prefiguração, Doc…
    Nem tudo é assim tão relativo.

    • Karl disse:

      Conhecer a pré-figuração de um excerto é difícil. Não temos o texto todo, nem seu con-texto. Mas entendi o que você quis dizer. Não há o que se desculpar, hehe.

  12. Fabiana disse:

    (Só um PS: o “credo” não foi pro que vcs disseram não, ta? Foi pro Norman Bates, pra minha lembrança dele. Credo mesmo…
    Tem beleza na fala de vcs também, claro.
    Acho que talvez tenha me expressado mal. Desculpem se foi assim.)

  13. Chloe disse:

    Olá Karl e Fabiana,
    na verdade a fala é do personagem Sean, pai da menina com osteogense imperfeita, em relação à esposa dele, num momento de crise do casamento por conta do problema da filha.
    Jodi, a autora do livro, é uma mulher.
    Será que exite complexo de Édipo para mulheres? A filha ser apaixonada pela mãe???
    Talvez seja só a visão de romantismo da autora, uma maneira de descrever os segredos de liquidificador.
    Ainda ontem cheguei de viagem e minha fala no percurso do aeroporto pra casa é sempre a mesma: ‘adoro viajar maaas… é tão bom voltar pra casa!’
    E foi esse mesmo sentimento quente e acolhedor que me veio quando li o texto. Como se eu entendesse o que ele estava dizendo.
    Lembrei-me da frase do Karl e achei que uma coisa tinha a ver com a outra, ou.
    ; )

  14. Fabiana disse:

    🙂

    Fiquei pensando sobre o problema da prefiguração. Ela não existe *fora* do texto, mas se dá a conhecer pelo próprio texto, agenciada por ele… Por isso talvez que eu consiga acessá-la mesmo sem saber o sexo do(a!) autor(a!), quando foi escrito o livro, em que lugar, etc… esses dados – externos – só podem então… ratificar?… ou não… o que está dado pelo próprio texto…

    Olhem só que bonito o que o Paul Ricoeur diz a respeito, a partir de Gadamer:

    “Referência e horizonte são correlativos como o são a forma e o fundo. Toda experiência possui um contorno que a delimita e a distingue e, ao mesmo tempo, se delineia sobre um horizonte de potencialidades que constituem seu horizonte interno e externo: interno no sentido de que a coisa visada mantém relações potenciais com qualquer outra coisa no horizonte de um mundo total, que nunca figura como objeto de discurso. É nesse duplo sentido da palavra horizonte que situação e horizonte são noções correlativas. Essa pressuposição muito geral implica que a linguagem não constitui um mundo em si mesma. Nem mesmo é um mundo. Porque estamos no mundo e somos afetados por situações tentamos nos orientar nele pela compreensão e temos algo a dizer, uma experiência para trazer para a linguagem e para compartilhar.

    Tal é a pressuposição ontológica da referência, pressuposição refletida no interior da própria linguagem como um postulado destituído de justificação imanente. A linguagem é em si mesma da ordem do Mesmo; o mundo é seu Outro. A atestação dessa alteridade provém da reflexividade da linguagem sobre si mesma, que, assim, se sabe *dentro* do ser para versar *sobre* o ser.

    Essa pressuposição não vem da linguística nem da semiótica; ao contrário, essas ciências rejeitam, por postulado metodológico, a ideia de uma visada intencional orientada para o extralinguístico. O que acabei de chamar atestação ontológica deve lhes parecer, uma vez formulado seu postulado metodológico, um salto injustificável e inadmissível. De fato, essa atestação ontológica seria um salto irracional se a exteriorização que ela exige não fosse a contrapartida de uma moção prévia e mais originária, que parte da experiência de estar no mundo e no tempo e procede dessa condição ontológica para sua expressão na linguagem”.

    (Tempo e narrativa I, 2010, p. 133-4)

    Não é lindo isso?

    Desculpem o comentário tão longo.
    Já estamos longe do nosso caramujo e da nossa estrela.
    Ou não 🙂

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