Tecnologias do Corpo

Há um campo da ciência médica que origina o que se pode chamar de tecnologias do corpo, por falta de uma expressão mais adequada. Não é medicina porque não diz respeito à saúde ou a doença especificamente. Alguém sempre pode argumentar que questões menos palpáveis como inadequações sociais e/ou sofrimento psíquico possam ser causados por, digamos, “problemas” orgânicos ou funcionais. Entretanto, exemplos como próteses de silicone, cirurgias para aumentar o tamanho do pênis, implantes clitorianos de colágeno, plástica de vulvas, despigmentação anal, anabolizantes de uma forma geral, uso recreacional dos inibidores da fosfodiesterase 5 (PDE5) (ex.: sildenafil) – em geral associados a antidepressivos que têm como efeito colateral a anorgasmia, de modo a retardar maximamente o orgasmo e manter pelo maior tempo possível a ereção possibilitando um desempenho sexual mais parecido com o de um atleta do que de um amante – não se constituem, convenhamos, algo que possa ser chamado de medicina.

Sempre que falo sobre esse assunto, alguém tenta correlacionar as tecnologias do corpo com a contemporaneidade, com nossa época atual e sua vertiginosa maneira lidar com o tempo: como que através de uma janela de um trem de alta velocidade. Mas as tecnologias do corpo são muito antigas. Desde métodos de tortura até a circuncisão, o homem vasculha seu corpo (e também o corpo de seus semelhantes) em busca de respostas, de performance, ou de simples satisfação de sua infinita curiosidade. Uma das mais comoventes e belas histórias sobre as tecnologias do corpo é a dos castratti. O filme acima, um fragmento de Farinelli, Il castrato, é uma ária da ópera Rinaldo de Haendel. Os castratti eram meninos que tinham o dom de cantar e que, para manter a voz num timbre muito especial, eram castrados antes que ela adquirisse o tom mais baixo, característico dos homens adultos. Esse timbre era cultuado nos meios musicais e o filme conta a história de um último desses meninos, Carlo Broschi. A voz que canta a ária no filme é uma mixagem de uma voz feminina e outra masculina (Derek Lee Ragin, um contra-tenor inglês e Ewa Mallas Godleska, uma mezzo-soprano polonesa) o que, segundo alguns especialistas, fez com que o timbre se aproximasse do original de um castrato. O filme mostra também o momento da castração com o menino imerso em uma banheira de leite. É emocionante e triste.

Vejo ainda o corpo como Nietzsche, que o chamava de a grande razão. Não concordo com a forma como tem-se disposto dele, o corpo, quase que escravizando-o, a serviço de pequenas razões banais. Lamento que muitos médicos se mostrem como veículos dessa vontade. Se o mundo ganhou Farinelli, perdeu Carlo Broschi, um menino normal. E pelo menos para a medicina, isso não tem preço.

Discussão - 13 comentários

  1. “Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.”
    (Ricardo Reis)
    Como é complicado definir o limite entre aumento da qualidade de vida do paciente e fuga desesperada (e ineficaz) de si na aplicação dos tratamentos que você citou. Bom-senso deveria ser qualidade de todos os médicos. Muito comovente, seu texto. Parabéns.
    Abraços,

  2. Rudolf disse:

    Farinelli, il mostro. Pamela Anderson, the aberration. hehe
    Já me disseram que os incas ou os maias moldavam os crânios das crianças com arames. Não sei se isso é verdade ou lenda. Tentei encontrar alguma referência confiável, mas tem muita gente que relaciona isso com alienígenas. Esse link foi o melhor q encontrei:
    http://www.archaeology.org/0901/abstracts/maya.html
    Tem aquelas mulheres da Asia que alongam o pescoço:
    http://www.tattooculture.ro/neckelongationnews.htm
    Espartilho também deformava o corpo.
    Tatuagem, brinco e esticamento de orelha ou beiço.

  3. Rudolf disse:

    Curioso, a propaganda do alto aqui do seu blog é de uma clínica de plástica.
    “DreamPlastic — O seu sonho nas melhores mãos”
    Médicos e advogados não eram proibidos de fazer propaganda?

  4. Sibele disse:

    Rsrsrs, bem observado, Rudolf! Os banners de propaganda por aqui invariavelmente são de clínicas de cirurgia plástica ou do Boston Medical Group (e é apenas uma constatação, Karl. Não estou acusando ninguém…), e representam muito do universo de valores apontado nesse post. A presença de tais propagandas inclusive dá um contraste interessante aos posts do Karl.
    E, dada a variedade de tecnologias do corpo disponíveis e a adesão crescente de profisionais médicos como veículo da vontade, inescapável à maioria, sobre essas tecnologias, entende-se melhor não só o lamento, mas a sensação de estar só, emitida aqui outras vezes por esse digno blogueiro que nos escreve.
    Só posso ser solidária.

  5. Karl disse:

    Pois é. Algumas propagandas me incomodam também. Há outras piores. Já conversamos com os “chefes”. Aguardamos providências. ; )

  6. Aleph disse:

    Karl,
    você é contra o uso de prótese mamária de silicone? Não há mulheres que realmente melhoram a auto-estima com a tal operação?

  7. Sibele disse:

    Queria comentar também que a prática desse tipo de tecnologia do corpo, comovente (e eu não diria bela) impingida aos castratti felizmente teve em Carlo Broschi seu último representante.
    É que para nós, ocidentais, tal tecnologia do corpo, para fins de deleite musical por platéias ávidas pode sim ter razões banais. Mas lembro que tal prática ainda persiste em outras culturas, onde seus representantes são cultuados e até venerados, como no caso dos Hijras e Jankhas da ìndia, Paquistão e Bangladesh, sendo considerados os últimos representantes legítimos da milenar sociedade islâmica dos mukhannath.
    Mais compungente é o drama das mulheres de alguns países islâmicos e africanos, submetidas à mutilação sexual quando crianças, com a extirpação do clítóris, para que não sintam prazer sexual.
    Cultura ou barbárie? Nesse caso, sem nenhuma contrapartida justificável a ganhar, o mundo não perde apenas uma menina normal mas sim, milhares. É de partir o coração.

    • Sibele disse:

      Corrigindo: Carlo Broschi não foi o último castratto. Parece que foi Alessandro Moreschi: http://migre.me/89vMl e http://ow.ly/1hLVC2

      A verdade, mais de 2 anos depois… 😛

      • Karl disse:

        Já tinha corrigido, obrigado. Entretanto, Alessandro Moreschi não era tecnicamente um castrato tendo em vista que submeteu-se à cirurgia após 1870 – ano em que foi proibida pelo Vaticano – em decorrência de uma hérnia inguinal, procedimento comum à época. Apesar de gozar de certo prestígio e ter canções compostas exclusivamente para ele, não chegou nem perto da fama de alguns castratti como o próprio Carlo Broschi. Ouvi algumas de suas gravações e achei muito ruim. Ele desafina e tem um estilo que não me agradou.

  8. maria disse:

    karl, fiquei aqui arrepiada. tenho dificuldade em engolir o que se faz com o corpo, por motivos que não entendo. vi o filme, na época em que saiu. já fiquei horrorizada na época, independente da música que resultava. a voz quase deixava de ser humana, o que para mim tira o propósito.
    mas fiquei aqui pensando nos limites. uma pessoa que tem tendência a ser gordinha e passa a vida numa dieta de fome pra ter as medidas “adequadas” (e saudáveis, talvez, para olhos médicos) está numa categoria muito diferente? não sei a resposta.
    rudolf, no museu de antropologia da cidade do méxico eu vi crânios cônicos, resultado dessa prática que você mencionou. mas já não sei quem era o povo, tem que ir lá ver!!!

  9. Karl disse:

    Obrigado a todos os comentários que enriqueceram o post. Quanto a você, caríssimo Aleph: a resposta é não. Não sou contra colocar silicone como também não sou contra próteses penianas. Sou contra colocar meio litro de silicone em cada mama e solicitar próteses penianas de 50 cm.
    O limite com o qual temos que lidar é que se torna a grande dificuldade.

  10. Sibele disse:

    Meio litro??? 50 cm???? Afe! Karl exagerado!!!

  11. Fernando disse:

    A nossa velha mania de nos atermos a tudo (e somente) o que é ocidental. Sim, vi estatísticas há tempos que dizem ter havido cerca de 800 mil castrati, numa estimativa dos primórdios até o fim da (terrível) prática. Mas ninguém parece gostar de citar os eunucos, que também eram castrados, fadados a vigiar, guardar (e cuidar) (d)os haréns do hoje tão-vilificado, depreciado e insultado mundo islâmico. É firmemente preciso sermos um pouco menos ocidentalistas para captarmos o sofrimento como algo que percorre de ponta a ponta o nosso mundo.

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