A Aposentaria do Estetoscópio?

Desde que entrei na faculdade de medicina, o estetoscópio me fascinou. Estudei técnicas auscultatórias e as apliquei. Diagnosticar doenças cardíacas e pulmonares com um aparelho é muito interessante. O estetoscópio tem uma história bonita (um resumo razoável em inglês aqui, qualquer dia conto essa história em bom português).

A evolução tecnológica do estetoscópio (esteto, para os íntimos) é uma marca da evolução da própria medicina. De um tubo rígido interposto entre o ouvido do médico e o seio de belas senhoras evitando assim o constrangimento de colocar diretamente a orelha em locais castos, a um instrumento acústico e, recentemente, eletrônico, foram quase 2 séculos.

Recentemente, a ultrassonografia (USG) vem ganhando um espaço jamais imaginado na prática médica. Antes, um campo dominado exclusivamente pelos radiologistas, o “ultrassom” vem sendo incorporado a várias outras especialidades como traumatologia, emergências, terapia intensiva, cirurgia geral e vascular, entre outras tantas. Os aparelhos vem melhorando dia a dia e as imagens, que antes pareciam as de uma TV com “chuvisco” foram ficando impressionantemente nítidas. Qualquer pessoa que já viu um ultrassom morfológico de uma mulher grávida sabe do que estou falando. Além disso, a tecnologia foi ficando mais barata, simples e menor! Esse último adjetivo é o motivo do post. Recentemente, a GE Healthcare lançou um aparelho de ultrassonografia que é mais que portátil. É de mão! Chama-se VScan (ver o filme promocional abaixo).

Bom, o fato é que um aparelho assim, do mesmo tamanho que um Iphone, permite fazer alguns exames interessantes em qualquer consultório. Um deles é o próprio ecocardiograma, que se baseia nos mesmos princípios ultrassonográficos de um aparelho comum de ultrassom obstétrico ou abdominal. Isso permite que o médico ao invés de auscultar um sopro cardíaco, o visualize, quantifique, diagnostique, com uma precisão jamais imaginada à beira do leito. Um dos cardiologistas mais famosos do mundo, o prof. Eric Topol (blogueiro dos bons!) não esconde sua admiração. Abaixo, um filme promocional.

Seria a aposentadoria anunciada de um instrumento tão caro aos médicos? O espelho frontal, aquele espelho que fica na cabeça dos médicos em qualquer desenho animado foi praticamente aposentado. Quem ainda os usa, raramente é verdade, são os otorrinos. Hoje, entretanto, eles têm uma coisa chamada “nasofibroscopia” que além de permitir-lhes uma visão melhor, incomoda menos o paciente e ainda deixa você, paciente, pegar uma carona no exame, por meio de um monitor.

Acho que o esteto vai se aposentar como o espelho frontal, as navalhas, o categut, as mezinhas e outras tantas tecnologias obsoletas com as quais os médicos tentaram minimizar as mazelas da espécie humana. Contudo, em todas as “aposentadorias” anteriores, ele, médico, acabou por se distanciar um pouquinho mais de seus pacientes. A sensação de um estetoscópio geladinho no peito com um sujeito de olhos fechados e aspecto calmo, em silêncio, ouvindo o que seu corpo tem a lhe dizer é, por si, terapêutica. A ver…

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Declaração de conflitos de interesse. Não tenho nenhum tipo de relação financeira, científica ou amorosa com a GE Healthcare, mas se eles quiserem dar um VScan para mim, eu vou ficar bem feliz!

 

A foto é do filme Zelig de Woody Allen. Atrás, Mia Farrow. (via Kentaro).

Discussão - 17 comentários

  1. Rudolf disse:

    Karl,
    Por que o verbo de escutar no estetoscópio é auscultar? Por que não simplesmente escutar?

  2. Daniel Christino disse:

    Post muito interessante, Karl. Eu não sabia que o Woody Allen havia trabalhado um tempo como cobaia, ajudando na evolução da medicina. Cabra genial.

  3. Karl disse:

    @Rudolf. As palavras têm obviamente a mesma raiz. No Houaiss, “auscultar” é mais antigo e popular. “Escutar” é mais recente. Na escola me responderam que auscultar é escutar com técnica.
    @Daniel. O povo faz cada uma pra faturar um trocado! Obrigado pelos comentários.

  4. maria disse:

    de onde foi que tirei que quando médico pega o relógio numa mão e o punho do paciente na outra é na verdade porque precisa de um tempo de sossego pra pensar? coisa antiga. mas sempre acreditei.
    estetoscópio pra mim é assim. a gente tem que parar de falar e fazer perguntas, dá um tempo pro médico. e ao mesmo tempo tem o tal conforto do estetoscópio geladinho e a sensação de que alguém está ouvindo com atenção tudo o que o corpo quer revelar. e talvez até o que não quer.
    voto na permanência dele no consultório, mesmo que seja só cenário!

  5. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Karl,
    será que também veremos o fim do aforismo “a clínica é soberana”, como dizem vocês, médicos?
    Abs!

  6. Karl disse:

    O Amigo de Montaigne lembra um velho bordão da medicina que diz que a “clínica é soberana”, significando que todos os dados do paciente, subsidiários ou não, devem ser avaliados à luz do quadro clínico que ele apresenta, inclusos aí a história e o exame físico do paciente – e aqui entra o esteto. O fim do aforismo significará o fim da medicina como a conhecemos. Espero que demore, maria.

  7. maria disse:

    uso inusitado para um estetoscópio: declaração de amor! a história é do bioquímico walter colli, aqui: http://espaber.uspnet.usp.br/espaber/?p=6478

  8. Caro Karl,
    A foto é sim do Woody; atrás dele, parecida com a Palin, está Mia Farrow, que neste filme, chamado Zelig, interpreta uma psiquiatra. Vale a pena alugar: é um dos melhores Allens de todos os tempos.

  9. Paulo Lotufo disse:

    Escrevo sem poder confirmar: Laennec introduziu o estetoscópio adaptando o famoso sonar de Pinard.
    Acho que muitos achavam que o estetoscópio seria o fim da clínica.
    Sem ou com, ultrassom; sem, o com estetoscópio, o que nunca será superado será o raciocínio clínico, mesmo sendo cada vez menos utilizado.

  10. Karl disse:

    Prof. Paulo Lotufo. É uma honra tê-lo nestas humildes páginas. Pelo que pude apurar Laennec inventou o estetoscópio em 1816. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Stethoscope . Adolphe Pinard adaptou o estetoscópio monaural em 1895, também na França. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Adolphe_Pinard e esse sensacional site http://www.antiquemed.com/monaural_stethoscope.htm
    Grande Abraço e muito me honrariam visitas mais frequentes

  11. Bem legal esse breve histórico da medicina recente.
    O VScan é um produto bastante interessante e a cada dia se descobre um novo campo de aplicação.
    Se quiserem podemos disponibilizar mais informações e ficamos muitos contentes com a boa receptividade no Brasil.
    Em breve teremos mais informações sobre a disponibilidade do produto para o mercado brasileiro.

  12. Karl disse:

    Obrigado pelo comentário, André. Só lembrando que esse não é o local exato para divulgação do produto. Os leitores interessados podem entrar em contato diretamente com você, valeu? Estaremos atentos para novas informações.

  13. […] uma infinidade de instrumentos cirúrgicos e ortopédicos que poderiam preencher essa definição. Até escrevi algo sobre o estetoscópio. Hoje, recebi um twit com referência a esta reportagem. Aqui, o “para-sol” médico é […]

  14. […] tais instrumentos médicos não eram utilizados pelo conterrâneos de Hipócrates) pelo francês René-Théophile-Hyacinthe Laënnec (1781-1826), ele mesmo o inventor da palavra e da coisa, a partir dos radicais gregos, […]

  15. Estetoscópio disse:

    Essa inovação veio para ficar. Acredito que temos de evoluir e procurar sempre o melhor diagnóstico possível, mas acho difícil os atuais profissionais se adaptarem a este tipo de aparelho. Será tarefa das próximas gerações, que se familiarizarão com o equipamento em seus estudos. Chegará um momento que esta tecnologia estará tão forte em nossas rotinas que se questionará o conhecimento das técnicas de auscultação com o uso do estetoscópio, já ultrapassadas. Essa indagação será tal como a escrita atualmente. É muito mais fácil e prático apenas digitarmos no computador, mas porque não largamos a escrita a mão? ótimo post, abraço!

  16. Thaís disse:

    Acredito que temos do tomar cuidado com a especialização que a tecnologia pode trazer. Um equipamento preciso como será o sucessor do estetoscópio de nada serve se não conseguimos ter uma visão geral do paciente. Não que o uso do estetoscópio por sí só force quem realiza a medicina a ter essa visão, mas a tendencia de nos apoiarmos na tecnologia concerteza abre espaço para confiarmos cegamente no que estará na tela.

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