Perguntinha Brega

Se a medicina é um tipo de arte – e eu acho que essa afirmação tem lugar mesmo em nossos dias -, me fiz a seguinte pergunta. Se toda arte tem um correspondente vulgar, e que muitas vezes é difícil de diferenciar, o que é o vulgar da medicina? Ou também, é possível uma medicina chique? E o que seria isso?

Discussão - 19 comentários

  1. Sibele disse:

    Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha versus Hospital Albert Einstein?
    Ou ainda, citando nossa querida Lúcia Rodrigues, a @dra_luluzita: Medicina na ponta versus Medicina de ponta…
    E o que seria isso? Medicina pública e gratuita e medicina particular e (muito) cara. Não que na medicina pública não haja sofisticação em termos de procedimentos e equipamentos, mas o que persiste no senso comum não é isso mesmo?

  2. Karl disse:

    Não, não. Desculpe se ficou essa impressão. Não tem a ver com os carpetes, hospitais e consultórios chiques. A pergunta é sobre a “arte do exercício” e o que seria seu correspondente comportamento brega. Pode ocorrer em qualquer situação onde um médico encontre um paciente, desde o ambiente mais humilde e sem condições. Também não é uma apologia da medicina comunitária ou voluntária. Tem a ver com uma atitude mais “educada” talvez. Lembrar da série sala de espera. http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2009/06/sala_de_espera.php
    Obrigado pela oportunidade do esclarecimento.

  3. maria disse:

    eu lembrei de uma colega de escola cujo sonho era casar com um cirurgião que usasse calças de linho brancas. brega, como projeto de vida!!
    mas não é por aí, pelo visto. acho que o vulgar é dar mais atenção a aparências do que ao essencial. botox versus estetoscópio.
    é mais uma dessas perguntas enigmáticas, especialidade sua, que me deixam a pulga atrás da orelha…

  4. Igor Santos disse:

    Partindo do exemplo acima do consagrado Odair José versus seu correspondente vulgar, Raimundo Fagner, eu não acho que iria muito longe. Acho necessário uma melhor definição de “vulgar”.
    Um músico que não saiba tocar que preste mas que mesmo assim insista em se apresentar publicamente está fazendo mal a mais alguém além de a si mesmo (sujando o próprio nome, se expondo ao ridículo, etc)? Ele seria considerado
    vulgar (ou ofensivo)?
    Isso me lembrou de um artigo contra a opressão exercida pela Ordem dos Músicos que dizia: “não se justificam restrições legislativas ao exercício de atividades profissionais sem significativo potencial lesivo.”
    A Medicina pode ser considerada arte mas não apenas arte, pois seu mal uso causa sim danos a terceiros.
    Talvez sua prática possa ser considerada “vulgar” quando mal feita, consciente ou semiconscientemente.
    Outro paralelo com o campo profissional do qual tenho algum conhecimento é o apelo pelo apelo.
    Existem certas músicas que são pensadas, produzidas e executadas com o único intuito de ser um hit instantâneo e completamente descartável, prezando apenas pelo apelo, seja ele qual for (hoje em dia é geralmente sexual), primando pelo dinheiro fácil em detrimento da Arte (que deveria estar entre aspas por também necessitar de uma definição razoável).
    Um dentista atual deputado daqui começou na vida política como vereador depois de fazer fama extraindo dentes “gratuitamente” de quem quer que se achasse com excesso dentário e, posteriormente, oferecendo próteses, também “gratuitas”, aos banguelos eleitores.
    Ele prostituiu sua profissão em troca do apelo popular puro e simples para, em tempo, ocupar um cargo público eletivo que, pelo visto, é vitalício também.
    A vulgaridade da “arte” é a “pseudoarte”. Algo que se mostre como arte, use certos elementos artísticos mas que peque pela falta de méritos artísticos (também sem definição neste comentário) e da inspiração artística proveniente do amor que a Arte exige de seus criadores.
    Uma música pode ser ruim mas bem tocada, pois a medida de bom/ruim é apenas um julgamento particular e subjetivo. Mas ainda é arte.
    Uma música mal tocada é instrinsecamente ruim, podendo ser medida por meios objetivos. Mas, esticando a definição, ainda pode ser arte.
    Uma música prostituída não é arte. Pode ser marketing, experimento psicológico/antropológico ou “a última moda”, mas Arte não.
    Medicina deixa de ser arte quando vira comércio.
    “Vamos fazer desta noite/ A noite mais linda do mundo…”

  5. Livio disse:

    Medicina brega não tem a ver com a decoração do consultório, com a roupa do doutor ou com a música que toca na sala de espera.
    Medicina brega é o Dr Hollywood, é voce achar que explicar a doença para o paciente é algo idiota, ou pior, nem se dar ao esforço para isso.
    É ir atrás do último lançamento de laboratório, seduzido por uma propagandista, é acreditar em estandes comerciais, é falar que seu tratamento é a coisa coisa mais moderna do mundo por que viu no congresso.
    É esquecer de estudar, de acompanhar a literatura médica da sua especialidade (ainda mais em tempos de pubmed e google), é não saber a diferença entre um artigo revolucionário e outro, bancado por laboratórios. É não ter discernimento para entender o valor de uma meta-análise (e quando ela deixa de ter valor), de termos como p , NNT ou T-quadrado.
    É abrir mão do raciocínio clínico, de se procurar diagnósticos específicos, ao invés de se pedir exames a torto e a direito, e ainda por cima explicar didaticamente que os pacientes “gostam de exame”.
    Medicina brega é empobrecer tudo o que voce estudou por anos, pelos mais variados motivos, e depois se queixar que hoje, a medicina não é mais valorizada como era antigamente…

  6. Pedro Neto disse:

    Seriam os “curandeiros”…

  7. Karl disse:

    Sensacional!
    Sabia que a foto do Odair José ia dar pau, hehe. Tirei de um blog que questionava porque o brega (antigo) estava a se transformar em cult.
    Igor. Seu comentário é perfeito. É sobre a prática mesmo. Há uma – ou várias, talvez – formas “elegantes” de se exercer uma prática. Há músicos elegantes e a elegância da música pode, de fato, não ter os mesmos critérios da elegância na medicina. A vulgaridade da prática médica pode se manifestar de várias maneiras. Gostei muito dos exemplos do Lívio. Dr. Hollywood é muito brega, no pior sentido da palavra. Na verdade, quando fiquei pensando no assunto, tinha algo muito parecido com o que o Lívio escreveu em mente.
    Lívio seja bem-vindo ao Ecce Medicus. Aliás, vc é médico? ; )
    Temos que desenvolver mais essa ideia, um tanto vaga, é verdade. Mas tem a ver com o desempenho profissional e serve, portanto, para qualquer profissão.
    Obrigado por todos os comentários.

  8. Karl disse:

    Pedro, a medicina tem algo de curandeirismo ainda. Não pode só ficar nisso, né? Mas o curandeirismo é um tipo primitivo de medicina. Diferente, bem diferente, do charlatanismo.
    Obrigado

  9. maria disse:

    depois de passar por aqui, fiquei pensando bem na linha do livio. copio o parágrafo dele que sintetiza o que eu pensei escrever:
    É abrir mão do raciocínio clínico, de se procurar diagnósticos específicos, ao invés de se pedir exames a torto e a direito, e ainda por cima explicar didaticamente que os pacientes “gostam de exame”.

  10. Karl disse:

    “O que é uma aristocrata?
    É uma mulher a quem a vulgaridade não atinge, embora esteja cercada por esta”.
    Interessante essa frase, não? Tirei daqui: http://migre.me/pccB
    É possível, dentro dessa linha de raciocínio, ser um médico “aristocrata”, cercado de vulgaridade por todos os lados?

  11. Daniel Christino disse:

    Karl, excelente questão. Mas cuidado para não criar um curto-circuito teórico na cabeça dos seus leitores. Há duas correntes filosóficas gerando tensão nesta tua questão. Imagino que você se refira à arte médica no sentido clássico-medieval de arte (na linha das artes liberais, trivium e quatrivium, ou do conceito aristotélico de tecné). A questão do gosto, por outro lado, é bem moderna, e leva em consideração não o craft do artista mas a cognição do sujeito. Quando usamos, filosoficamente, o termo estética assim como ele foi pensado por Baumgarten, nos referimos a uma teoria do gosto (assim também faz Kant). Mas isso é coisa de acadêmico e não atrapalha o sentido mais profundo da sua indagação.
    A medicina – não diria aristocrática – de bom gosto é aquela na qual os princípios de ação que determinam o resultado de seu saber específico são executados com excelência pelo médico. Um diagnóstico bem feito, no qual todos os sintomas são levados em consideração e se articulam numa teoria que explica a doença e prescreve corretamente sua cura, além de serem respeitados, neste processo, os princípios éticos e humanos também associados à prática médica é uma medicina “chique”. Excelência, aqui, se compara a um exemplo: somos excelentes se nos aproximamos, em nossas ações específicas, daquilo que seria o ideal. Este ideal está prescrito na própria arte médica, seja em seu código de ética, seja num sentido comum partilhado pela comunidade dos médicos. Quanto mais nos afastamos disso, mais brega é a medicina, por assim dizer.
    Se você reparou estou falando em termos gregos e, por isso, o belo não se separa do bom, ou seja, uma medicina chique é, ao mesmo tempo, uma medicina ética. É isso.

  12. Sibele disse:

    Volto para mais uma observação – desta vez sob esse enfoque, agora esclarecido (obrigada, Karl) dessa discussão, e concordando com o Daniel Christino, associando “medicina chique” aos princípios éticos e humanos. E complementando, lembrando a linguagem dessas medicinas “chique” e “brega”. Penso que a linguagem, o canal mesmo através do qual se desenrola todas as relações humanas, na medicina – talvez pela sua trajetória singular, tecnológica – tornou-se quase um novo dialeto. É uma linguagem recheada de jargões e termos técnicos, o que me leva a pensar se os profissionais não enfrentam dificuldades na hora de traduzi-la para seus pacientes, restringindo um diálogo fluido entre as partes e produzindo um estranhamento na relação médico-paciente. É como se os médicos repetissem a frase “Nous n´acceptons pas demandes dans d’autres langues” [“Não aceitamos pedidos em outras línguas”] (ainda usando um exemplo retirado do link indicado – http://migre.me/pccB .
    É quase como uma linguagem aristocrática, que não aceita misturar-se como o palavreado comum. Não é chique. Chega a ser arrogante, pois descarta a empatia e o entendimento mútuo na relação médico-paciente, estabelecendo uma espécie de bloqueio comunicacional. O contrário, a conversação fluida e inteligível para ambas as partes, seria brega? O exercício da medicina chique, com ética, pode descartar a empatia e o diálogo?
    Infelizmente, tem muito médico que sequer olha para o paciente durante a consulta, o que dirá dialogar…

  13. Lucas disse:

    A discussão está realmente chique, apesar de faltar um pouco de pragmatismo em alguns dos comentários… rs. Essa observação minha foi um pouco pedante, todavia estou valorizando muito a objetividade ultimamente.
    Eu concordo totalmente com o Lívio, em todo caso; entretanto, há uma medicina mais vulgar do que aquela que ele descreveu: é a medicina na qual não há espaço sequer para anamnese ou exame físico. Nessa não há sequer chance para o raciocínio clínico. No máximo, um aperto de mão é sinal de força grau V globalmente em um paciente com queixa de paresia de membros superiores e perda de 4 cm na altura. Tive a experiência infeliz de presenciar essa medicina durante um mês de PSF patrocinado pelo departamento de medicina preventiva da unifesp/epm.

  14. Kim disse:

    Muito, muito interessantes as ideias levantadas. Ótimo exemplo do que todo blog deveria ser.
    Como todos os anteriores, creio que o Lívio sintetizou bem o brega com o Dr. Hollywood. Sobre a questão de usar o “último tratamento”, fiquei com dois pés atrás quando fui diagnosticado com transtorno bipolar, visto que é uma doença tão “da modinha”, como foi a depressão nos anos 90.
    Felizmente não era o caso, e meu psiquiatra era um bom exemplo de uma prática chique de medicina: construção de uma relação de confiança, cuidado para preservar a empatia mesmo nas mais duras críticas, esclarecimento sucinto e não idiota do que é a doença e do que o remédio faz. Era chique pela elevação da terapia, me fazendo pensar ao invés de me dar de colher _o que_ pensar.
    (Falo no pretérito porque infelizmente deixei de me consultar com ele, especialmente porque a consulta custa quanto vale 🙂
    Tentando entrar na questão de arte, me lembro de um post seu onde você colocava que existe a “bela cirurgia”, e que os médicos são levados a não falar dela em respeito ao paciente. Como apontado pelo Daniel Christino, o bom gosto na medicina é a excelência da atitude do médico, o que pode até levar que a bela cirurgia seja mais chique se isso não for propalado, como o heroi de máscara que se mantém anônimo…
    Acho que ainda vou pensar bastante sobre o tema. Chame mais destas discussões!
    No hospital/ Na sala de cirurgia/ Pela vidraça eu via/ Você sofrendo a sorrir// E seu sorriso/ Aos poucos se desfazendo/ Então vi você morrendo/ Sem poder me despedir

  15. Karl disse:

    Desculpem todos, mas EU sou o grande beneficiado desse blog, hehe! Pois posso contar com os vossos comentários que são por demais enriquecedores. Putz! Só me resta agradecer. Obrigado.

  16. maria disse:

    ontem passei ao lado do hospital das clínicas a caminho do trabalho. pensei nesta discussão ao ver um rapaz descer a teodoro sampaio com largas passadas, deixando o jaleco branco esvoaçar com o movimento. postura de que aquilo lhe conferia importância.
    sempre pensei nisso como anti-higiênico, espero não ser atendida por médico que passeou seu jaleco por entre ônibus, multidões, camelôs e sacos de lixo. ontem pensei: brega. e pensei mais: será que todo médico acha isso normal? será que o karl desfila seu jaleco como uma bandeira de sobre-humano? próximo da sua pergunta: é possível ser aristocrata rodeado de vulgaridade? quero saber a resposta.
    eu busco sempre médicos aristocratas e acho que encontrei alguns. a não ser que eles estejam me engambelando!

  17. Georg disse:

    Mais simplesmente, nada mais vulgar que os jalecos cheios de simmbolos de status- faculdade x de um lado, serviço y do outro, nome sobre o bolso com cargo e siglas, mais canetas Mont Blanc , com Bic escondida para usar!!!!!!Há não esquecer da gravata em país tropical!!!!!! Também aparecer em Caras e “Hebes” como autopromoção, trazendo pseudonovidades “científicas”. Abçs Georg

  18. maria disse:

    georg, acho que você exagera.
    os emblemas e nomes e funções no jaleco são bem úteis, é informação válida. o problema é onde são usados e a postura com que são envergados.
    você já escreveu com uma mont blanc? vale a pena, quisera eu ter uma sempre à mão. não ia usar bic nenhuma.
    e aparecer na mídia pode ser auto-promoção nalguns casos, mas pode também ser informação importantíssima posta ao alcance da população que não lê revistas especializadas ou mesmo a parte de ciência e saúde de jornais de grande circulação.
    generalizar não ajuda.

  19. A alta arte se diferencia do artesanato por não ser a mera reprodução repetitiva de um molde, de acordo com os ditames de uma técnica. A medicina é técnica, mas vira arte quando na relação médico-paciente surge algo novo e belo, um improviso baseado na técnica que o profissional domina, mas não conformado por gabaritos fixos, e sim respeitando a individualidade presente em cada contexto.

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