Ciência e Poesia

¡Que viva la ciencia! ¡Que viva la poesía!
Jorge Drexler – Mi Guitarra y Vos

António Cícero responde hoje na Folha (para assinantes) a pergunta “o que é poesia?”. Depois de fazer uma bela e sucinta caracterização dos discursos orais e escritos, em determinado momento, ele escreve:

“Os textos que dizem coisas de caráter prático ou mesmo cognitivo, tais como os textos técnicos e científicos, são mais ou menos assim, abertos e fluidos, pois, caso contrário, o que dizem acaba por deixar de ser verdadeiros, de modo que eles se tornam obsoletos e deixam de ser lidos, isto é, deixam de se concretizar.”

Esses textos são instruções. Têm o objetivo de levar um conhecimento ou técnica ao seu leitor. Esse é seu fim. Se a técnica muda ou o conhecimento perde de alguma forma seu valor, os textos, ato contínuo,  se tornam descartáveis. A poesia e a literatura seriam então, textos não descartáveis. Para isso, seria preciso que não fossem um simples meio para que se transmita uma técnica ou conhecimento. A poesia e a literatura deveriam ser um fim em si mesmo, ou como escreve Cícero, “… textos que não estão sujeitos a esse tipo de descartabilidade são aqueles cujo valor – atenção: neste ponto, não há como não empregar juízos de valor – não depende de serem verdadeiros ou falsos”. Os textos literários pertenceriam “mais à ordem dos monumentos que dos documentos”, brinca Cícero, fazendo poesia.

Imediatamente, meu cérebro começou a procurar exemplos que contradissessem um de meus colunistas prediletos com aquele mesmo prazer mórbido dos alunos CDFs (acho mais legal que nerd) que tentam pregar peças nos pobres professores. Me perguntei então, se a poesia não poderia transmitir algum tipo de conhecimento ao invés apenas de permitir uma contemplação “monumental” ou se um livro ou artigo científicos não poderiam perenizar-se não pelo conhecimento seminal que proporcionaram, mas talvez, por um encadeamento de ideias elegante, uma condução cognitiva suave e especial que poderíamos, por que não, chamar de bela. Ao organizar assim meu pensamento, os exemplos enxamearam com o zumbido característico da abundância.

A crítica literária moderna trouxe esse tipo de pensamento à ciência. Contra um artigo somente outro artigo. Uns acham que isso é “pós-moderno” demais. Pode ser, mas acho bem mais divertido ver “conhecimento” em poesia e poesia em “literatura científica” que ficar procurando a Verdade em cada rodapé das coisas que leio. Separar as coisas como quer Cícero também é meio sem graça.

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Se por um acaso, algum leitor quiser ilustrar com exemplos, por favor, a caixa de comentários está à disposição.

Foto Intense Science de nenonafirestardragonstrgteg1’s photostream at Flickr.

Discussão - 9 comentários

  1. Erico disse:

    Procure um livo do Bruno Latour chamado Ciencia em Acao. Li seu outro post de artigo sobre artigo, e acho que este livro vai te pegar em cheio, porque (entre outras) ele fala dos temas dos dois posts.
    Sugiro mesmo a leitura do livro, pq ele tem um comentario brilhante acerca do ‘autor cientifico’, de como ele aparece no texto, como sao utilizados recursos retoricos e estilisticos dentro da literatura cientifica e de como ela pode sim ser elegante. E tem umas sacadas brilhantes sobre referencias e citacoes.
    Separei aqui um trecho do livro, que aqui talvez nao tenha tanta forca por estar descontextualizado, mas tem a ver com esse sentido de “beleza“ que vc comentou:
    “Os textos científicos parecem aborrecidos e sem vida, de um ponto de vista superficial. Se o leitor recompuser os desafios que estes textos enfrentam, eles passarão a ser tão emocionantes quanto um romance. ‘O que acontecerá agora ao herói? Será que ele vai aguentar mais essa provação? Não, isso é demais até para o melhor. Como?! Ele venceu? Incrível! E o leitor ficou convencido? Ainda não. Ah hah, aí vem um novo teste; impossível atender a essas exigências, é muito duro. Injusto, isso é injusto.’ Imaginem-se os aplausos e as vaias. Nenhum ator em cena é observado com tanta paixão e instado a treinar e ensaiar tanto […]. Quanto mais nos inteiramos das sutilezas da literatura científica, mais extraordinária ela nos parece. Passa a ser um verdadeira ópera. Multidões são mobilizadas pelas referências; dos bastidores são trazidas centenas de acessórios. À cena são chamados leitores imaginários aos quais se pede não só que acreditem no autor, mas também soletem os tipos de torturas, provas e testes por que os heróis precisam passar antes de serem reconhecidos como tais. A seguir, o texto desenvolve a dramática história desses testes. […] O autor vai acrescentando mais e mais testes impossíveis, parece que só pelo prazer de ficar vendo o herói superá-lo. Desafia platéia e heróis, mandando um novo vilão, uma tempestade, um demônio, uma maldição, um dragão… e os heróis vencem. No fim, os leitores, envergonhados das primeiras dúvidas, têm de aceitar tudo o que o autor disse. Essas óperas de desenrolam milhares de vezes nas páginas de Nature ou Physical Review. Embora se diga que a literatura técnica é impessoal, isso está longe de acontecer. Os autores estão por todas parte, incorporados no texto“
    Ah sim: o livro eh recheado de exemplos praticos, quem saiba vc encontre algum pra colocar aqui!

  2. Sibele disse:

    […] por um encadeamento de ideias elegante, uma condução cognitiva suave e especial que poderíamos, por que não, chamar de bela. Ao organizar assim meu pensamento, os exemplos enxamearam com o zumbido característico da abundância.

    Você que foi poético aqui, Karl! 🙂
    Lembrei-me de outro post, no Discutindo Ecologia: “A ciência pode matar a poesia?”
    Ah sim, um exemplo. Nem sei se se encaixa – é apenas uma indagação científica de Einstein, mas a meu ver carregada de poesia:
    Como se me apresentaria o mundo se eu pudesse viajar em um raio de luz?

  3. Sibele disse:

    E para quem não é assinante da Folha: a íntegra desse texto de Antonio Cícero, “O que é poesia?”, está disponível no blog Conteúdo Livre. Basta acessar: http://migre.me/twPy.

  4. Caro Karl,
    O seu amado colunista da Folha é um cara da área de humanidades, defendendo o que ele faz, como sendo algo superior… Ou seja, conversa para boi dormir. Romances policiais, por exemplo, são literatura, e são absolutamente descartáveis. “A origem das espécies” é um texto científico e nem por isso meramente documental.
    Tenho certeza que Antônio Cícero não conhece nem um pouquinho da relatividade geral (RG), que é pura poesia feita usando conceitos de física, tensores e geometria diferencial. E a maioria da humanidade pode viver muitíssimo bem sem conhecer qualquer coisa da poesia brasileira, que tem valor apenas na nossa cultura. Perto da RG, a poesia brasileira é nada.
    Enfim, o texto que você cita é apenas a velha briga das duas culturas, nada além disso.
    Um abraço!

  5. Aleph disse:

    Karl, devo discordar do Sr. Deadalus.
    Há muito mais poesia num simples verso do Bandeira do que em toda a “RG”. Se quiser um exemplo, é só visitar o blog “Efeito adverso” e ler o trecho de Raduan Nassar sobre o tempo. Aquilo sim é “RG” em poesia e está fadado à imortalidade. Além do mais, se o senhor Dedalus acredita mesmo no escreveu, o seu pseudônimo deveria ser Albert Einstein, Giuseppe Volta ou César Lattes (que era brasileiro e descreveu a existência do méson pi, Sr. Deadalus) e não se apropriar da alusão a Joyce.
    Abraço de Páscoa!

  6. Caro Aleph,
    Bela a defesa que você faz da brasilidade: é uma boa bandeira a se carregar… No entanto, não me leve a mal, mas creio que a poesia brasileira – na verdade toda a literatura brasileira – é bem limitada em penetração. Nossa língua pátria, o português, é uma língua de periferia, mesmo dentro da Europa. Já a linguagem matemática com se que se escreve a relatividade é bem mais universal. Pode ser que alguém já tenha tido, lá no Quirguistão, as mesmas idéias de Raduan Nassar, e a gente, aqui no Brasil, nunca tenha ouvido falar. Quanto a Raduan Nassar, acho que ele é um bom exemplo da literatura brasileira, já que é um cara que teve seu nome escolhido para os cadernos do Instituto Moreira Salles. Na verdade, já vi bastante da “genialidade” dele nos discursos do filme “Um copo de cólera”, que me deixou sem sede alguma de conhecer mais do sujeito. A impressão que eu tenho, minha, bastante pessoal, é que a literatura brasileira é assim mesmo, provinciana, cheia de estrelas que mal cruzam o Atlântico, e que é pouco, muito pouco universal (ela é feita por e para um punhado de pessoas de certa classe social). Eu, que já tive que escrever um ensaio sobre o tempo na literatura, não creio que colocaria o texto citado por você em minha cesta de citações, mas isso só demonstra que discordamos, não é?
    Minha escolha de pseudônimo é literária, por eu valorizar a literatura. Embora professor universitário na área de exatas, é fácil ver pelo que escrevi no parágrafo acima que também cursei letras de modo formal, numa universidade pública. Ou seja, não vejo mal nenhum em se ter ambas as culturas, a humanista e a científica, lado a lado, e para isso é bom ter em mente que nenhuma é melhor que a outra, e que há bobagens e genialidades em ambas. Só que, aqui no Brasil, há muito mais candidatos a vagas na Academia Brasileira de Letras (pela imortalidade…) do que candidatos a cursos de ciências nas universidades (ou, pondo de outro modo, há muito mais gente citando e discutindo Antônio Cícero, Raduan Nassar e sei lá mais quem, do que gente citando e discutindo ciência), e isso me deixa bastante triste (e preocupado com o futuro do país).
    Um abraço!

  7. Aleph disse:

    Caro Dedalus,
    alguma pessoa já disse que “a minha língua é a minha pátria”. Pena dos europeus, que, tendo por referencial a América do Sul e o Brasil, estão na periferia e não podem desfrutar desse verso. É óbvio que, para quem pode, ler Dante, Shakespeare, Falubert e Quixote no original aumenta a extensão da pátria. John Milton, por exemplo, é uma baita sujeito chato que escreve em inglês. Sou mais Raduan. César Lattes teve a sua descoberta e o Nobel roubados por falantes da “língua central”. Meu pseudônimo é borgiano, mas bem que podia ser lattiano…

  8. Érico disse:

    Lembrei de um exemplo agora. Isso foi escrito por Michel Cassé, quando perguntado sobre o que via num copo de vinho:
    “Vejo o nascimento do universo, pois vejo as partículas se formarem nele nos primeiros segundos. Vejo um sol anterior ao nosso, pois nossos átomos de carbono foram gerados no seio desse grande astro que explodiu. Depois esse carbono ligou-se a outros átomos nessa espécie de lixeira cósmica em que os detritos, ao se agregarem, vão se formar a Terra. Vejo a composição das macromoléculas que se uniram para dar nascimento à vida. Vejo as primeiras células vivas, o desenvolvimento do mundo vegetal, a domesticação da vinha nos países mediterrâneos. Vejo as bacanais e os festins. Vejo a seleção das castas, um cuidado milenar em torno dos vinhedos. Vejo, enfim, o desenvolvimento da técnica moderna que hoje permite controlar eletronicamente a temperatura de fermentação nas tinas. Vejo toda a história cósmica e humana nesse copo de vinho, e também, é claro, toda a história específica do bordelês”

  9. Sandra Cavalera disse:

    Se eh cientificamente correto, nao sei dizer, mas o vocabulario eh cientifico:
    SHORT-CIRCUIT
    (Betty Vidigal)
    Você me desequilibra,
    e eu tento parecer indiferente.
    Concentro-me seriamente
    em ter o rosto composto
    enquanto me recupero
    do choque térmico
    de sua voz repercutindo
    nas circunvoluções do cérebro.
    Se eu pudesse, desistia.
    Devia haver um aviso:
    “Cuidado, perigo! Alta Tensão!
    Corrente de alta amperagem!”
    Assim, com exclamação.
    Estou dizendo bobagens.
    Estou sendo incoerente.
    Preciso me controlar.
    Procuro sustentar,
    serenamente,
    o seu olhar:
    o azul-elétrico,
    de um milhão de volts,
    que o Criador decidiu,
    por casuísmo genético,
    ser uma cor razoável
    para um par de íris no seu rosto.
    Apoio o queixo nas mãos,
    digo incríveis disparates
    com a maior dignidade.
    Escrevo outros piores.
    Vou começar outra vez:
    vamos por partes.
    Estou falando de uma paixão
    por uma garganta,
    uma veia pulsante,
    um pomo-de-adão.
    Falo do estremecimento estonteante
    que essa voz tem o poder de provocar.
    – Larga meu braço!
    Perdi o fio do pensamento,
    o raciocínio foi pro espaço.
    Estou tentando analisar esta emoção,
    com a mais edificante objetividade,
    com o mais frio realismo.
    E você,
    com um simples toque de mão,
    me dá uma aula completa
    de eletromagnetismo.
    …………………………
    Sei que ha outros da mesma autora com este tipo de vocabulario.
    abracos!

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