Quando os Especialistas Falham

Segundo Edgard Morin: “O especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua disciplina.” O buraco aumenta quando o “não-especialista renuncia prematuramente a toda possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida, a sociedade, deixando esse cuidado aos cientistas, que não têm nem tempo, nem meios conceituais para tanto.”

Têm sido muito frequentes, citações de médicos contra a vacinação da gripe A/H1N1, sendo o médico por si só, já um especialista em saúde. Pelo que tenho visto, os títulos de especialista, PhDs, doutorados ou quaisquer que sejam, configuram-se exatamente na definição moriniana de “especialista”. Por “tornar-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua (sub)disciplina”, quando emite uma opinião sobre assuntos diversos de sua área especificíssima, ele o faz como qualquer outro leigo. Isso pode não ter maiores consequências desde que ocorra numa esfera privada.

Na nossa sociedade entretanto, reina uma “cultura dos especialistas”. Quando um especialista fala, ele fala por nós, que “renunciamos a toda possibilidade de refletir sobre o mundo” ou os fatos que nos cercam. Numa esfera pública, portanto, a fala de um especialista tem um peso bastante diferente, mesmo que ele emita apenas uma opinião pessoal.

Mas e quando esse “especialista” fala uma bobagem?

Ao confundir o público com o privado, ao não avaliar adequadamente o peso de sua opinião pessoal sobre um assunto sobre o qual não tem todos os dados para raciocinar, o “especialista” se torna então, um refém de seu discurso. Sequestrado pelas forças políticas e sociais nas quais está inserido, sua fala se encaixará perfeitamente no discurso ideologizado de quem tem interesses outros ou simplesmente é vítima de um devaneio ignóbil conspiratório qualquer.

É exatamente isso que está acontecendo com os médicos que se posicionaram contra a vacinação da gripe A/H1N1. Uma importante sociedade médica publicou um editorial de um de seus colunistas médicos questionando a vacinação para diabéticos, contrariando recomendações do próprio ministério da saúde. (Esse texto foi retirado do ar como editorial e colocado como opinião pessoal. Menos mal. Diminui a confusão do público com o privado.) Como essa manifestação, muitas outras são citadas por pessoas que se posicionaram contra a vacinação. Entretanto, a decisão de ser contra a vacinação não é uma decisão racional. É uma decisão baseada em “medos”, desinformação, opiniões preconceituosas, “conversas de comadre”, emails falsos ou com verdades parciais e outras tantas maneiras altamente eficazes de transmitir mensagens que manipulam “mitos”. Cansei de escrever que a ciência não matou os mitos do homem (aqui, aqui e aqui, para citar alguns). Muitas vezes, meus colegas de condomínio (sciblings) mal me compreendem por repetir esse bordão, entretanto, aqui está uma prova viva de que “argumentos racionais” muitas vezes não são mecanismos geradores de certezas eficientes no ser humano.

Gostaria de concluir dizendo que, antes de mais nada, a vacinação é opcional, no caso específico da gripe suína. Quem não quiser se vacinar, ora, que não se vacine! A epidemia esse ano será bem mais branda, eu aposto. A mortalidade da nova gripe é ainda um mistério e cada país parece estar calculando a sua, o que faz mais sentido, tendo em vista as condições climáticas, sanitárias e populacionais de cada um. A doença é diferente da gripe sazonal. Seu público-alvo é diferente. Eu é que não vou experimentar. O que devia ser feito, foi. Agora é esperar o inverno.

This picture depicts a map of the world that shows the  co-circulation of 2009 H1N1 flu and seasonal influenza viruses. The  United States, Europe, Thailand and China are depicted. There is a pie  chart for each that shows the proportion of laboratory-confirmed  influenza cases that have tested positive for either 2009 H1N1 flu or  other influenza subtypes. The majority of laboratory-confirmed influenza cases reported in the United States and Thailand have been 2009 H1N1  flu.

Discussão - 9 comentários

  1. Mori disse:

    Morin é um filósofo que faz jus à filosofia.
    E Karl, penso que argumentos racionais raramente são mecanismos geradores de certezas, mesmo aos racionalistas.
    As certezas surgem de forma arbitrária, as idéias surgem de forma arbitrária. Acredito (tenho uma “certeza” :))que racionalistas podem ter uma pequena vantagem ao serem mais capazes de reforçar, e principalmente, descartar ou abandonar uma “certeza” com base em critérios menos subjetivos e arbitrários.
    Mas nenhum ser humano é um autômato de processamento lógico formal, toda certeza se inicia em algum ponto do cérebro que dá o pulo de considerar ela uma “verdade” sem que tenha um embasamento suficiente. Só em retrospecto, despercebido mesmo pela própria consciência, essa certeza parece ter se originado de um argumento coerente.
    A cegueira de escolha é uma boa indicação disso:
    http://www.ceticismoaberto.com/ufologia/47/cegueira-de-escolha-e-como-enganamos-a-nos-mesmos

  2. Karl disse:

    Finalmente, o sr. concorda comigo, hehe. Ganhei o dia!
    Um racionalista “acredita” em uma outra matriz conceitual. ¿Se *nenhum* ser humano é um autômato lógico-formal, *nenhuma* certeza humana obtida por meio do raciocínio lógico-formal pode ser considerada correta? Excetuando-se as certezas ditas “reveladas”, a ciência e a filosofia desmoronariam. Por isso, médicos têm que aprender a manipular mitos também.
    A grande maioria dos cientistas trabalha com pet-hypotheses e “corre atrás” para demonstrá-las, a la “cegueira da escolha”. Obrigado pelo comentário.

  3. eduardo disse:

    Olá, gostei muito do seu blog muito esclarecedor, porem me restou uma duvida, quando fui tomar a vacina da H1N1, a mesma já se encontrava na seringa, tinha uma caixa com gelo e retiravam a seringa de dentro com o liquido nela já, como vc disse essas vacinas de ” dose unica ” não contem o mercurio ? outra duvida como tomei no dia mundial da vacinação um sabado, e segunda, dps de ter tomado fui perguntar e me informaram que o laboratorio era o butantan # sem adjuvante # mas observando vi que estavam vacinando as pessoas com as ” multidoses ” # pegavam com a seringa do otinho #, ai me restou uma duvida não sei se poderia me responder ou me indicar algum lugar para procurar, queria saber se o butantan tbm faiz vacinas de dose unica ou seja direto da seringa, pois fiquei confuso com isso, se tomei vacina do butantan ou se por ter sido um dia de vacinação ” em massa ” colocaram vacina com adjuvante para aplicar…agradeço desde já!
    abraço!

  4. junior disse:

    karl, vc tomou a vacina do h1n1? não entendi mto bem oq vc falou.

  5. Karl disse:

    Eduardo. As vacinas “single dose” não têm timerosal. Dependendo do fabricante, têm adjuvante (só a Sanofi-Pasteur não os têm).
    Júnior. Acho que vc não deve ter visto este post. http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2010/03/hoje_comeca_a_vacinacao_contra.php
    Obrigado pelos comentários.

  6. Helena disse:

    Tomei a Vacina no Posto de Saúde na cidade de Santos – SP para H1N1 no início de Abril. Porém, a empresa em que trabalho está convocando para vacinação com a trivalente que imuniza contra o vírus da gripe H1N1 e também contra os virus sazonais da gripe comum – advertendo que não deverão ser vacinadas grávidas em qualquer período de gestação e pessoas que já vacinaram da H1N1. Isso procede ou posso tomar a vacina trivalente já que não estou encontrando no mercado a vacina para gripe comum sem estar associada como trivalente?

  7. Victor disse:

    Primeiramente, parabens pelo conteúdo do blog. Tem muita coisa interessante no seu espaço. Agora deixa eu falar especificamente desse post. Um belo post sobre especialistas… Especialistas são aqueles que sabem cada vez mais sobre cada vez menos. Concordo plenamente com isso.
    Então vamos aos fatos… Karl, vc é Médico certo? Em caso afirmativo, qual sua especialidade? Isso é de extrema importancia.
    Agora, gostaria que você convencesse um Farmacêutico de que a dita vacina H1N1 é segura. Lembre-se que eu estudei a fundo os processos que envolvem a pesquisa e desenvolvimento de fármacos e medicamentos. Não adianta falar para mim que a vacina ja vem sendo aplicada na Europa e se mostrou segura. Nós dois sabemos como que são feitos testes clínicos e que reações adversas podem aparecer anos após a administração de um medicamento. Eu quero dados. Quero os dados relacionados ao desenvolvimento da vacina e a análise dos componentes da fórmula. Será que todos são seguros? Quero os dados relacionados aos testes de Estabilidade e Estabilidade acelerada! Existe algum produto de degradação tóxico que se forma a partir dos componentes??? Quero os dados dos ensaios in vivo com animais e quero os dados referentes aos testes clínicos.
    Gostaria que você fizesse um post com esses Dados. AH! Ministerio da Saude não vale. Quero dados dos fabricantes e pesquisadores. Caso você não consiga tudo isso, lembre-se do seguinte:
    Os cientistas que pesquisaram a vacina não sabem de nada. Os fabricantes não sabem de nada. O Ministério da Saúde não sabe de nada. Eu não sei de nada. Você não sabe de nada. Só vamos saber de algo daqui a anos quando os estudos estiverem completos e bem documentados. Até o momento, eu soube de poucos efeitos colaterais graves decorrentes da vacina. Daqui a 5-10 anos, ninguem sabe. Lembre-se da Talidomida e do Celecoxibe.
    Não critico sua posição como Médico de indicar a vacina. Você quer o bem e a saúde dos seus pacientes. Porém, quando você indicar a vacina, lembre-se que você não é especialista na área e, mesmo que seja, você pode não saber tudo. Indique a vacina, mas diga também que existem poucos dados sobre a segurança. Deixe o paciente escolher se ele deve tomar a vacina ou não. Dizer que a vacina é 100% segura e que todos devem tomar é tão irresponsável quanto dizer que ninguém deve tomar.
    No momento, eu não sou nem contra nem a favor da vacina simplesmente porque eu não sei o suficiente para tomar uma posição.
    Mais uma vez, parabéns pelo seu blog. Siga em frente pois é sempre bom ter um espaço com tantas informaçoes reunidas e aberto para discussões.

  8. Karl disse:

    Victor. Obrigado pelo longo comentário. A vacina é segura. Desta vez, eles testaram a vacina no primeiro mundo antes, hehe. No Brasil, mais de 13 milhões de pessoas foram vacinadas e a notificação dos efeitos colaterais graves foi pífia.
    Veja mais dados no último post.
    Ah, minha especialidade é gente doente. Abraço.

  9. denise disse:

    Muito bom!
    Victor.Uma curiosidade ao ler seu comentário, alias, mais do que comentário, uma bela colocação. Você tomou a vacina?
    Se não, pq?

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