Sobre Epônimos

ResearchBlogging.orgOs epônimos são muito utilizados em medicina. Todo mundo conhece epônimos e eles parecem inevitáveis. Aqui vão algumas reflexões que tive com um colega de plantão, madrugada adentro.

O que é um Epônimo?

File:Alzheimer-tablica.JPGA palavra, pra variar, vem do grego epónymos e quer dizer, literalmente, “sobre o nome”. Tem o mesmo radical epi de epitélio, epicárdio, epifenômeno. Segundo consta, a palavra era utilizada para descrever um personagem, real ou fictício, que emprestava o nome a um lugar, construção, dinastia ou até mesmo o ano corrente. Obviamente, a medicina se apropriou do artifício para nomear “lugares” no organismo humano e, com o tempo, doenças, síndromes ou sinais clínicos característicos, homenageando quem os descreveu primeiro (ver esse site sobre quem deu nome a o quê na medicina. Em português tem esse. Há também uma lei interessante chamada lei de Stigler que diz que “nenhuma descoberta científica leva o nome de quem a descobriu” ou que “uma descoberta sempre leva o nome do último que a descreveu”, o que é um exagero é claro, mas tem exemplos aos montes, inclusive uma citação na Science [para assinantes] e que também vale para a medicina).

Exemplos de epônimos são “doença de Parkinson”, “Doença de Alzheimer” (a imagem ao lado é de uma homenagem a Alois Alzheimer), “Tumor de Krukenberg”, todos nomes de médicos que, ou descreveram a doença, ou deram enorme contribuição para sua compreensão.

Caça aos Epônimos

Há um movimento, principalmente na anatomia, que visa eliminar (ou pelo menos diminuir) os epônimos da nomenclatura científica. De fato, a confusão era grande. Tanto pelo fato de que muitos autores descreveram várias estruturas e “emprestaram” seus nomes, como também pelo de que algumas estruturas de nomes semelhantes tinham epônimos que se confundiam. O exemplo mais pitoresco é o das trompas de Fallopio e Eustáquio. Uma (Fallopio) é a trompa uterina. A outra (Eustáquio) liga o ouvido médio à faringe e é por isso, conhecida como tuba faringotimpânica. Apesar de não serem nomes parecidos, as trompas eram frequentemente confundidas o que gerava uma fonte inesgotável de piadas: “Cuidado para não engravidar seu ouvido!” entre outras.

Esse movimento resultou em uma grande substituição da nomenclatura, a meu ver, para melhor. Entretanto, na medicina clínica, os epônimos teimam em resistir. E eu acho que isso se deve a uma característica dos epônimos que meu colega de plantão me fez enxergar.

A Diferença entre Conhecimento e Cultura

Quando digo pan-hipopituitarismo pós-parto me refiro especificamente a uma condição endocrinológica característica de insuficiência hipofisária. Quando digo Síndrome de Sheehan [1] – que é exatamente a mesma coisa -, me vem um nome e uma pergunta “quem foi esse tal de Sheehan? Teria a ver com o He-man (tô zuando!). A Síndrome de Sheehan é uma doença que era confundida com um tipo de caquexia (emagrecimento extremo) pós-parto. Glinski a descreveu primeiro, Simmonds depois. Sheehan a sistematizou. Será mais um caso da lei de Stigler (acima)? Todas essas questões envolvem um tipo de conhecimento digamos, inútil para se tratar e diagnosticar a doença. Mas seria inútil totalmente?

Seria o conhecimento desses pormenores que envolvem a história de uma doença, desprezíveis? Eu acho que não. O epônimo reveste o conhecimento da doença com uma certa cultura médica que a meu ver é muito salutar. Provém de um tipo de contato com a matéria que é algo mais que um conhecimento utilitarista. Um médico culto, sob esse aspecto, é um médico que se “diverte” com a medicina. E isso é muito bom, principalmente para seus pacientes.

[1] KOVACS, K. (2003). Sheehan syndrome The Lancet, 361 (9356), 520-522 DOI: 10.1016/S0140-6736(03)12490-7

Discussão - 7 comentários

  1. João Carlos disse:

    Pode até ser… Mas quando um primeiro médico diz que um parente seu pode estar sofrendo de “bócio tóxico”, os exames laboratoriais confirmam o “Mal de Grave” e o clínico passa medicação para “hipertiroidismo”, fica a impressão de que estão fazendo hora com sua cara…

  2. Thadeu Penna disse:

    Em física e matemática existe o famoso “teorema de Stokes”. O teorema é do Lord Kelvin (o mesmo da escala absoluta de temperatura), mas George Stoke costumava cobrar a demonstração do teorema em provas, inclusive na prova do Smith’s Prize. Acabou ganhando o nome.

  3. maria disse:

    … sem falar que não dá pra ficar dizendo “pan-hipopituitarismo pós-parto” o tempo todo. acaba virando sigla, não? a pessoa tem phpp. melhor ter um epônimo.

  4. Marco disse:

    Eu respeitosamente discordo. A profusão de epônimos confunde e deseduca. Qualquer um versado em nomenclatura médica consegue entender “pan-hipopituitarismo pós-parto” (pan = toda; hipopituitarismo = redução de função da hipófise: Os dois juntos, redução da produção de todos os hormônios da hipófise; pós-parto = auto-explicativo). Agora, “síndrome de Sheehan” é pros “iniciados”, e força uma pesquisa desnecessária na literatura para quem não conhece.
    A medicina já é complexa demais, com coisa demais para se entender e/ou aprender, para nos preocuparmos em decorar epônimos.
    Claro, os $ 0,02 de quem tem de decorar nomes de todas as estruturas anatômicas + todas as doenças em todas as áreas médicas (radiologista, it comes with the job), o que é extremamente cansativo. 😀
    Outro exemplo: O que te parece mais prático? Decorar “doença de Kienböck” e “doença de Kohler”, ou “necrose avascular do semi-lunar e do navicular”? 🙂

  5. Sandro disse:

    e o tal Fallopio deve ser o único homem que tem trompas uterinas… pois não dizem “trompas de Fallopio”?

  6. […] descrição do livro. Um tipo raro de lipodistrofia parcial do tipo tóraco-facial, conhecida pelo epônimo de Síndrome de Barraquer-Simons (pdf com foto). Até 2007, menos de 60 casos haviam sido […]

  7. Chloe disse:

    Olá Karl, : )
    ‘Um médico culto, sob esse aspecto, é um médico que se “diverte” com a medicina’.
    Interessante é que ontem li sua postagem sobre a medicina chique/brega e fiquei pensando sobre o que seria a medicina brega.
    A idéia de brega, no caso da musica, fez-me pensar em algo feito na chacota, sem ser sério, pra tirar sarro e, de certa forma, divertir sem compromisso.
    E não consegui, até o momento, pensar nessa caracteristica na medicina, a qual não consigo conceber se não for de forma séria.
    Enfim, achei engraçado eu ter associado a diversão ao termo brega, ontem, e te ler associando a diversão ao termo culto, hoje.
    ; )

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