DEK – Doença

O dicionário etimológico do Karl (DEK) chega à Letra D. Os verbetes precedentes podem ser vistos em A, B, C.

A letra D tem vários descritores do padecimento físico humano (e também de animais) além de doença, como por exemplo,  desordem, distúrbio, disfunção e desarranjo, além dos conhecidos moléstia, mal, enfermidade e transtorno. Doença vem do latim dolentia que quer dizer sofrimento e originou indolente e a própria dolência. Existe também, em latim, a palavra morbus com o significado mesmo de doença, em geral utilizada para nomeá-las, a mais conhecida sendo Morbus Gallicus (quero ver quem sabe essa!). A essa altura, já tem gente perguntando, “mas e em grego não tem nada?” Tem.  Em grego, existe a palavra nósos (νόσος) que também quer dizer doença e é usada nos termos nosologia, nosocômio, entidade nosológica para descrever uma classificação de doenças, hospital e a doença em si, respectivamente.

Entretanto, pelo menos do ponto de vista médico, os campos semânticos de todos esses termos não são exatamente iguais. Essa diferenciação fica ainda mais clara em inglês. As palavras disease, sickness, illness têm significados diferentes. Disease é o alvo ontológico do médico. Vem de des- “sem, à parte de” + aise (ease) “bem, calmo”. Por disease, entende-se o desarranjo anatômico, bioquímico, genético ou psicológico cujas consequências, modos de identificação e tratamento, lemos nos tratados de medicina. O termo disease (assim como doença) é bastante ambíguo e existem várias teorias que tentam generalizar o conceito de forma a operacionalizá-lo, o que não é fácil. Illness é o que o paciente apresenta tendo uma disease ou desordem-alvo, exibindo sintomas (alterações que ele ou ela mesmo sente) ou sinais (alterações que o médico percebe por meio do exame clínico). Há ainda a sickness ou predicament que são as perspectivas sociais, psicológicas e/ou econômicas que o paciente apresenta por estar com a disease. Em português, essa diferenciação não foi tão bem marcada e costumamos ainda usar os termos indistintamente.

Por essas definições, temos que o médico deve focar na illness para identificar a disease com um olho no predicament. Mais formalmente, como colocou Sackett, o diagnóstico é “um esforço em reconhecer a classe ou grupo ao qual a illness do paciente pertence de modo que, baseado em nossa experiência prévia, nossos atos subsequentes possam maximizar sua saúde.”

Referências Bibliográficas

1. Taylor, DC. The components of sickness: Disease, illness and predicaments. Lancet, 1979;2:1008-1010.
2. Sackett, DL et al. Clinical Epidemiology. 2nd Ed.

Discussão - 5 comentários

  1. Helder disse:

    “Syphilis sive morbus gallicus” (Syphilis or the French Disease): termo criado pelo médico italiano Girolamo Fracastoro, em um poema de 1530 que contava a história de um garoto chamado Syphilus que insultou um deus e foi punido com a doença.
    Agora essa variação de significados em inglês por sorte não se aplica no português, porque se assim os pacientes às vezes não se fazem entender (e nem nós), imagina se fosse diferente…
    Abraços

  2. Karl disse:

    Caramba! Resposta com categoria. Quanto aos significados, são mais para quem pensa “sobre” as doenças e não “nas” doenças. Obrigado pelo excelente comentário.

  3. Cassio disse:

    Ei, Karl. Tudo bem?
    Nossa, vim aqui justamente pra colocar o link pra vc ver o texto que eu fiz e tem tudo a ver com etimologia. Olha lá: http://cpelegrini.tumblr.com/post/1098294025/catamnese
    um abraço

  4. […] dá conta do todo de seus pacientes. Adoecer é uma forma de ser-no-mundo que pode ser entendida de várias formas. Se assim é, deve haver outros caminhos que conduzam às verdades deste ou daquele pacientes […]

  5. […] não-fatal? Sem entrar nas complicadas análises ontológicas em relação ao ser da doença e sua nomenclatura específica, podemos dizer que no indivíduo doente são investidas práticas que visam reverter os processos […]

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