Sêo Google e Eu

ResearchBlogging.orgDepois de tanto tempo sem escrever, tinha que voltar com uma medaglia para não perder os poucos (porém, altamente esclarecidos e de extremo bom gosto, diga-se de passagem) leitores desse blog. Que assim seja, então.

Vamos colocar as peças do xadrez no tabuleiro. Qual é a principal biblioteca de artigos médicos que existe? Se você perguntar para qualquer aluno de medicina, residente, pós-graduando, a resposta é unânime: a MEDLINE acessível através da internet pela PubMed da National Library of Medicine. Essa, por sua vez, pertence aos prestigiosos National Institutes of Health americanos, instituição ligada ao ministério da saúde deles, com uma verba gigantesca e que seria o equivalente nosso a uma FAPESP da área da saúde atuando em todo o território nacional. Ou seja, não tem equivalente no Brasil! Qualquer levantamento bibliográfico que se preze tem como ponto de partida as publicações encontradas na PubMed; os principais jornais de medicina e da ciência médica estão catalogados lá e o sonho de todo médico é ter um publicação “indexada”, isso dá pontos no currículo, consegue ganhar concursos e mais bolsas ($).

Há outras fontes de referência médica, entretanto. Inúmeras, eu diria. No Brasil temos a fantástica Scielo com quase 70 títulos da área da saúde, e que tem muitos outros ainda sobre ciência médica. Há o Ovid da Wolters & Kluwer, repositório pago de várias revistas de qualidade com versão de texto integral. Há também o Up-to-Date. Criado inicialmente para nefrologia, se expandiu para todas outras especialidades e virou uma fonte de referência fundamental para quem pode pagar 495 dólares por uma assinatura anual. Os artigos são atualizados com frequência, práticos e trazem referências bibliográficas-chave para compreensão do assunto. Poderiamos citar ainda o Scopus, a Web of Science, o JSTOR e o Google… O Sêo Google é um caso especial. O sucesso foi tão grande que resolveram lançar o Google Acadêmico. Muita gente já procurava coisas científicas antes dele. Médicos também. Existem alguns estudos sobre sua relação com os médicos, em geral positivos. “Peraí, você tá querendo dizer que médico consulta o Google quando quer tirar dúvida sobre paciente?” Sim, estou. Mas isso é ruim?

Os autores do estudo da medaglia, pensaram o seguinte: 1. há questões médicas altamente complexas que têm uma resposta definitiva, baseada em evidências; 2. é impossível para qualquer indivíduo reter toda a informação médica relevante para sua prática; 3. o médico não quer perder mais que alguns minutos procurando informações que respondam questões médicas relevantes; 4. há diferentes ferramentas para navegar no oceano de informação médica.

Baseados nessas premissas, bolaram um experimento com estudantes, residentes e médicos assistentes. Enviaram 4 perguntas de anestesiologia ou terapia intensiva para os caras e mandaram responder em 5 minutos usando as seguintes ferramentas e apenas 1 para cada pergunta: Google, Ovid, PubMed ou Up-To-Date. No final, tinham que ranquear as respostas que acharam (em termos da confiança nela) de 1 a 4. Algumas semanas depois, os médicos foram solicitados a responder 8 perguntas, incluindo novamente as 4 antigas. Dessa vez, foram sorteados sobre qual  das 4 ferramentas utilizar para todas as perguntas. Conclusão? Quem usou o Google e o Up-to-date respondeu as questões mais rápido e mais certo. O Up-to-date teve o maior grau de confiabilidade. Ambos venceram a PubMed e o Ovid.

A indissociável vinculação com a prática faz da medicina um campo experimental interessante. Já disse que temos uma visão utilitarista da ciência, mas respostas práticas são respostas práticas e necessitam ser dadas na trincheira do dia-a-dia do médico. Da mesma forma que as discussões de botequim mudaram (“quem foi o campeão paulista de futebol de 1945?”), as profissionais e altamente especializadas, também (“qual enzima metaboliza a succinil-coenzima A em ácido d-amino levulínico?” – que é uma questão do estudo!). Os autores deixam transparecer na discussão duas coisas interessantes. A primeira é que o estudo tem um viés que é o fato de conter mais médicos juniores (residentes e estudantes de medicina), talvez um pouco mais habituados a lidar com as novas tecnologias. O segundo é que os médicos seniores, assistentes do serviço, estavam meio que desclassificando as perguntas respondidas por intermédio do Google. Os meninos teriam protestado: “não há comprovação de que isso possa desclassificar uma resposta!” Comprovação que agora existe. Não só funciona mais rápido, mas também melhor. Sinal dos tempos…

Thiele, R., Poiro, N., Scalzo, D., & Nemergut, E. (2010). Speed, accuracy, and confidence in Google, Ovid, PubMed, and UpToDate: results of a randomised trial Postgraduate Medical Journal, 86 (1018), 459-465 DOI: 10.1136/pgmj.2010.098053

Discussão - 11 comentários

  1. Érico disse:

    Blz. Mas qual a relevância de encontrar uma resposta em cinco minutos? Acho que vai até contra a prática científica. Mas ok, entendi sim o propósito do estudo.
    Também só tenho utilizado o Google Acadêmico, principalmente pq ele lista os resultados por relevância e por número de citações. Isso é importante pro trabalho científico, e ajuda muito. O Medline lista por data da publicação.
    Mas pra quem quer fazer uma revisão sistemática, ou procurar os trabalhos recém-publicados numa área, o Medline é mais funcional.

  2. Karl disse:

    “Prática científica” seria exatamente o quê? Prática médica, eu sei bem o que é. Cinco minutos numa consulta ou numa visita é muito tempo. Revisões sistemáticas devem ser feitas usando as bases de dados possíveis e imagináveis, inclusive de artigos que foram rejeitados, como manda a cartilha das metanálises. Isso é um trabalho de compilação e estudo que tem outra função.
    Achei essa história do Google bem interessante porque, dizia no post, a forma de pensar com essa disponibilidade de dados está modificando a maneira como ponderamos discussões simples e também as profissionais. Entretanto, a decisão prática é sempre tomada baseada na experiência individual, lembrando sempre, que também se adquire experiência individual estudando e tomando decisões baseadas nos estudos.
    Obrigado pelo comentário.

  3. João Carlos disse:

    Nos velhos tempos que a internet era novidade e estavam dando os primeiros passos em Inteligência Artificial (que se mostrou muito super-estimada), um dos primeiros campos que eu sugeri que isso poderia ser aplicado, foi exatamente no apoio ao Clínico (notadamente ao Geral).
    Com Bases de Conhecimento (na “nuvem”) e mecanismos de busca eficientes, o trabalho da “linha de frente” da medicina pode ser enormemente facilitado, inclusive com algum tipo de interface que sugira ao Médico exames e anamneses específicas, para eliminar algumas possibilidades menos corriqueiras.

  4. Karl disse:

    Já existem alguns sistemas de apoio diagnóstico, não sei se nos termos que você está colocando; mas que tem, tem. Em geral, essas ferramentas não conseguem ser práticas para uso em um ambulatório pesado e um médico bem treinado é bem mais eficiente.
    Se considerarmos os algoritmos de trabalho um tipo de “inteligência artificial” (?), principalmente quando associados a procedimentos diagnósticos, temos um vasto campo de avaliação dessas ferramentas, não? Obrigado pelo comentário, João.

  5. Sibele disse:

    Karl só está desculpado pelo loooongo período sem postagens pois voltou com a corda toda, até com direito a medaglia!
    Bem, sou suspeita para falar, mas ADOREI esse post!!! 😀
    E além das fontes online de referência médica elencadas no post, eu também incluiria a The Cochrane Library, base de dados de evidência em atenção à saúde, em inglês, que inclui as Revisões Sistemáticas da Colaboração Cochrane, em texto completo, além de ensaios clínicos, estudos de avaliação econômica em saúde, informes de avaliação de tecnologias de saúde e revisões sistemáticas resumidas criticamente.
    Como bem dito na resposta ao Érico, acima, revisões sistemáticas devem ser feitas usando as bases de dados possíveis e imaginárias. E esse tipo de fonte ganha ainda mais relevância quando o médico, sem tempo para dirimir uma dúvida (e nisso 5 minutos às vezes são cruciais), depara-se com um mar de informações online onde facilmente se afoga.
    E Karl, concordo que a tecnologia muda a forma de pensar e nossas discussões, e claro que a experiência pessoal é sempre a determinante final nas decisões. O problema é quando *falta* essa experiência, e pior, quando impera a famosa “Medicina Baseada em Consultinhas de Corredor” (“procedimento amplamente disseminado entre a classe médica”, cf. Karl aqui).
    Ainda temos muito chão pela frente…

  6. Karl disse:

    Certo, Sibele. Não citei a Cochrane porque, a bem da verdade, ela não é uma base de dados. Funciona mais como um instituto de metanálises com relevância clínica. As metanálises realizadas lá utilizam-se de artigos publicados em outras revistas constantes em outras base de dados. De qualquer forma, são sim uma fonte de conteúdo importantíssima.
    Obrigado pela citação e veja o novo post, tudo a ver com o final do comentário.

  7. Sibele disse:

    “Fonte de conteúdo” é uma das designações de bases de dados, Karl. Se há registros documentados para posterior recuperação, é sim uma base. De dados. 🙂
    O fato da Cochrane utilizar-se de artigos publicados em outras bases de dados para suas metanálises apenas a torna uma fonte terciária. As fontes secundárias seriam essas outras bases de dados, e as primárias, os documentos originais nelas indexados, ou seja, os artigos publicados. Enfim, são apenas picuinhas terminológicas…
    Obrigada! 🙂
    E vamos ao novo post!

  8. Karl disse:

    Bom, Sibele. Não é uma base de dados como comentei. Vc consideraria o acervo da FSP e ESP uma base de dados? Se, sim então, tudo bem. Já entendi seu conceito.
    Valeu

  9. Sibele disse:

    “Já entendi seu conceito”… É por essas e outras que eu adoooro o Karl! 😀

  10. Sibele disse:

    Sobre esse “mar” de informações que essas fontes de referência médica (quaisquer que sejam as denominações a elas atribuidas… 😉 pretendem filtrar, um artigo bem interessante foi publicado na Folha quarta 22/9: “Maioria dos testes clínicos é irrelevante, diz estudo: são publicados 75 resultados por dia no mundo, a maioria sem qualidade“.
    Destaco um trecho:

    A enxurrada de material de baixa qualidade acabaria dificultando a identificação e popularização das pesquisas realmente relevantes. Isso faz com que existam vários testes repetidos, além de desperdiçar tempo, recursos e, claro, pessoal qualificado para analisar os resultados.
    Para resolver a questão, os cientistas propõem reduzir drasticamente a quantidade de testes clínicos e de material publicado.
    De acordo com os cientistas, seria bem mais eficiente investir em análises e revisões sistemáticas que possam atestar a qualidade e a relevância das pesquisas que já foram feitas.

    Para quem não é assinante, o artigo completo está disponível no blog Conteúdo Livre: http://bit.ly/cspeHA

  11. Nick disse:

    Muito interessante esse texto! É engraçado pensar que o conhecimento de médicos e leigos acabam tendo a mesma fonte…isso é um desafio ao conhecimento médico e a relação médico pacente na atualidade!
    Muito bons seus textos! Li vários e adorei!
    Parabéns!!!

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