Relativismo e Fé

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Em livre tradução, segue o fragmento:

“Por esta razão, os eventos políticos de 1989 (queda do muro) também mudaram o cenário teológico. Até então, o marxismo vinha sendo a última tentativa a fornecer uma fórmula válida para a correta configuração da ação histórica. O marxismo acreditou que conhecia a estrutura da história mundial e a partir dela tentou demonstrar como poderia conduzi-la ao caminho correto. O fato de que essa presunção era baseada estritamente em um método científico que substituiria totalmente a fé pela ciência e fazendo desta última uma praxis, lhe deu um forte apelo. Todas as promessas não cumpridas das religiões pareceram então, possíveis por meio de uma praxis política baseada cientificamente.

A não-cumprimento da promessa trouxe grande desilusão que está ainda longe de ser assimilada. Consequentemente, me parece provável que novas formas de concepcão marxista do mundo aparecerão no futuro. No momento, não há outra alternativa senão a perplexidade. A falha do único sistema com base científica para resolver os problemas humanos poderia apenas justificar o nihilismo ou mesmo, o relativismo total.”

Continua…

“Por sua vez, o relativismo parece ser o fundamento filosófico da democracia. Diz-se que a democracia baseia-se no princípio de que ninguém pode ter a pretensão de saber qual é o caminho certo a tomar e é enriquecida pelo fato de que todos os caminhos são mutuamente reconhecidos como fragmentos de um esforço em direção ao que é melhor por meio do diálogo. Um sistema livre deve ser essencialmente um sistema de posições interconectadas e relacionadas pois são dependentes de situações históricas abertas a novos acontecimentos. Assim, uma sociedade liberal seria uma sociedade relativista: apenas sob esta condição ela poderia continuar livre e aberta ao futuro.”

Perguntinha: alguém sabe de quem seria este texto? Vou desenvolver uma ideia polêmica no próximo post e isso faz alguma diferença. Inté…

Discussão - 17 comentários

  1. Érico disse:

    O segundo parece coisa do Fritjof Capra.

  2. Karl disse:

    Até que parece mesmo, Érico. Mas vc e a Sibele estão muito frios, hehe

  3. Rodrigo Diaz Olmos disse:

    Num primeiro momento me pareceu um texto de algum ex-comunista. Daqueles que de comunistas viraram agora liberais do partido verde! No Brasil, me vem à cabeça alguém do tipo Fernando Gabeira!! Mas pensando bem talvez seja de alguém que ainda tem algum tipo de utopia comunista (coisa que estes liberais ex-comunistas não tem!).
    Abs
    Rodrigo

  4. Miss Persefone disse:

    “não há outra alternativa senão a perplexidade” é doce.
    não sei. porto memória peculiar; afetiva. e voluntariosa.
    (e assim ela ensaia um rondó).

  5. Amigo de Montaigne disse:

    Stephen Brockmann?

  6. r. de almeida disse:

    ‘cargo cult science’

  7. Karl disse:

    Vem cá. O que vcs acham da afirmação “o relativismo parece ser o fundamento filosófico da democracia”? Ou “uma sociedade liberal seria uma sociedade relativista: apenas sob esta condição ela poderia continuar livre e aberta ao futuro.”
    Ninguém acertou. Exceto o Takata. No Twitter.

  8. DelCoelho disse:

    Joseph Ratzinger, aka, Papa Bento XVI.
    http://www.ewtn.com/library/curia/ratzrela.htm
    É só usar o google. 😉

  9. Karl disse:

    É de Ratzinger. Boa DelCoelho. Mas a pergunta que fiz acima se impõe então, com mais força. Aguardo os comments…

  10. Socuero Pandora disse:

    dormir nas manhãs mornas é diferente quando há um alemão por perto. (assim disse uma irmã minha).
    mas bora oferecer um ponto de vista: penso a proposta do todo doce e suavemente virgem. me intriga e movimenta essa permanente re-significação das cousas sob as doutrinas de ontem alternando-se a conveniência e a elegância das interpretações. a sensação de um olhar que busca no debate da filosofia experimentada um escape mais imediato e hornoso ao (quiçá) receio de correr ou mesmo enxergar um risco novo.
    quando cambell os furtou do herói não os permitiu o além-doutrina? nos resta esperar um caramelo?
    http://youtu.be/mLiq51_n9OE
    http://youtu.be/R0rbFlQr4AA

  11. Sibele disse:

    Ratzinger, quem diria!
    De fato, com essa surpreendente revelação a pergunta formulada se impõe com muito, mas muito mais força mesmo, pelo contraste desse texto datado de 1996 (e portanto, perpetrado pelo então Cardeal, não pelo Papa – investido em “Sua Santidade” em 2005) e os atuais pronunciamentos do sumo pontífice, nada relativos, rs.
    Enfim, esse é um exercício de “exegese” filosófica, certo, Karl? Assim, a frase “o relativismo parece ser o fundamento filosófico da democracia” torna-se perfeitamente válida, no plano das ideias.
    Mas a “democracia” real, como a conhecemos – imperfeita, diga-se – é realmente relativista? Tenho cá minhas dúvidas…

  12. Nypoa disse:

    A questão aqui é que desde um ponto de vista religioso, virtualmente qquer outra possibiidade moral ou social é tida como “relativista”. Ou seja, elas não seguem o “absoluto” moral religioso, tido como “objetivo”. Tudo aqui entre aspas, pois esses termos carregam um forte viés (religioso, obviamente).
    Mas de fato, a percepção religiosa é muito mais relativista do que o contrário. Uma moral relativista joga seus fundamentos e justificativas em algo exterior ao sujeito que argmenta, no sentido de aferecer verdades justificando-as como “relativas” a esse algo externo. Um argumento tipicamente relativista diz “fazemos assim porque isso é nossa cultura (ou religião), e assim fomos educados/criados”. O relativista tipicamente retira de seus ombos o peso pela justificatica de seus atos, jogando-o em alguma outra coisa qquer.
    Democracia e relativismo não apenas não têm qquer vinculação, como tendem a ser conflutantes. Em outro post há também a seguinte afirmação: “O amoralismo proposto também não se sustenta por estar embutido na questão do consenso entre os seres humanos.” Em 1o. lugar, ou “amoralismo” é um termo insustentável epistemologicamente, ou significa que o sujeito amoral está aberto a discutir atos e fatos morais sem qquer tipo de restrição moral apriorística. Seria o sujeito absolutamente sem preconceitos. Em qquer caso, uma vez obtido o consenso sobre algo, esse consenso torna-se a regra moral. De fato, é isso que sempre ocorre, seja lá em que bases dão-se as justificativas. Portanto, essa afirmação é incoerente.
    []s,
    Nypoa
    http://nypoa.wordpress.com/

  13. Karl disse:

    Nypoa, interessante comentário, mas talvez seja interessante esclarecermos sobre o que estamos falando. Quando vc afirma que:
    “Mas de fato, a percepção religiosa é muito mais relativista do que o contrário. Uma moral relativista joga seus fundamentos e justificativas em algo exterior ao sujeito que argumenta, no sentido de oferecer verdades justificando-as como “relativas” a esse algo externo.”
    Acho que falamos de “relativismos” bem diferentes. No tocante a Ratzinger propriamente, o parágrafo acima é exatamente a definição de “fundamentalismo” que ele busca pois o “exterior” que você cita é o elemento que permite ancorar (fundar) as crenças e, como consequência, a ética. A relação entre democracia e relativismo não foi feita por mim. Antes Ratzinger, Mill, Dewey e Habermas já escreveram bastante sobre isso.
    Por outro lado, quando vc afirma que o indivíduo amoral é um indivíduo sem preconceitos, será que não estamos confundindo (A)moral com (I)moral? Consenso não tem a ver com moral mas com discursos com valor de verdade.
    Obrigado pelo comentário e parabéns pelo bonito blog. Seja bem-vindo ao Ecce Medicus.

  14. Nypoa disse:

    Olá Karl,
    Sem querer estender muito o tema. Sobre a intenção de Ratzinger, é interessante trazer uma afirmação de Nagel: “não há na natureza nada que nos imponha moralmente”. Ou seja, não há, na natureza, nenhum referencial moral que nos obrigue ou desobrigue a agir de uma ou outra maneira. Não há esse elemento externo que permita ancorar crenças morais. Exceto, claro, para alguém que crêm em deus.
    Sobre a questão do consenso, esse é um assunto interessante. Veja que toda regra moral amplamante aceita caracteriza um consenso, e não importa onde ela esteja fundada. E mesmo sobre aquelas em que não há um consenso, há um consenso anterior que diz como decidir caso o consenso particular não seja obtido. Por exemplo, o voto.
    Sobre a(i)moralidade. Imoral é tipicamente o sujeito que age contrariamente a regras morais estabelecidas, em geral num nível infralegal. O sujeiro amoral é que aquele que não não possui preceitos morais e age ora contraiamente, ora em acordo com regras estabelecidas. Não acho que a distinção seja muito relevante.
    Parabéns pelo blog!
    []s,
    Nypoa

  15. Karl disse:

    Ok, Nypoa. Estamos começando a falar a mesma língua. A questão de Ratzinger é exatamente essa. Ele acha que sim, existe um referencial externo no qual se apoiar e nesse ponto se aproxima da ciência que assume conhecer a verdade em si. O post acima, http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2010/10/religiao_ciencia_bolsa_de_valo.php fala sobre isso. Para um Papa é importante a visão fundacionista da verdade na conduta moral. Uma moral sem esse molde não tem valor para ele.
    Por fim, não só vc acha que imoralidade e amoralidade são sinônimos. Eu particularmente acho que são bem diferentes. A Genealogia da Moral de Nietzsche é um livro interessante para ver isso. Também gosto do Henry Miller, mas aí a coisa já vai por um outro longo caminho. Achei esse link interessante.
    http://www.wordiq.com/definition/Amoral
    Obrigado

  16. Chloe disse:

    Olá Karl,
    não sabia de quem era a frase.
    Mas confesso que minha curiosidade foi maior em relação ao autor da tela! rs…
    Não conhecia. Gostei.
    Achei que tinha traços da obra de Dali e o google confirmou.
    Agora já posso pensar no tema proposto, rs…
    ; )

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