Doenças Também Morrem ou Sobre o Morbicídio

hysteria.png“Prigogine, em Les Lois du chaos, cita Popper, que ‘fala de relógios e nuvens. A física clássica interessava-se antes de tudo pelos relógios; a física de hoje, mais pelas nuvens. Ele explica que a precisão dos relógios continua a obcecar nosso pensamento, levando-nos a acreditar que se pode atingir a precisão dos modelos particulares, e praticamente únicos, estudados pela física clássica. Mas o que predomina na natureza e no nosso ambiente é a nuvem, forma desesperadamente complexa, imprecisa, mutável, flutuante, sempre em movimento.”

Serge Gruzinski

Algumas doenças morrem. Sim, pois se tratamos as doenças como “seres” – ou, como diria um filósofo, se as abordamos ontologicamente – é possível matá-las, pois tudo que é pode, um dia, deixar de sê-lo. (Seja por morte natural ou por assassinato!). A abordagem ontológica das doenças é interessante e trouxe aquisições importantes para a medicina. Uma alternativa a ela é a abordagem fisiopatológica segundo a qual a doença nada mais é que um desvio da fisiologia normal do sujeito. Não há um ente que invade o organismo e o modifica. É o próprio que, ao funcionar incorretamente, apresenta sinais e sintomas que podem constituir a doença. Mas não é isso que quero falar aqui.

Quero falar sobre metáforas médicas; sobre gavetas metafóricas, na verdade. Recipientes com rótulos que podem ser organizados, catalogados (e muitas vezes, essa é a única coisa que se pode fazer!) que chamamos de doenças, males, sindromes, etc. Qual seria a substância de que é constituído o conteúdo desses recipientes? A linguagem, claro! Por isso, ao criarmos “seres” linguísticos capazes de facilitar a comunicação entre os médicos e destes, com seus pacientes, podemos passar a considerá-los, em determinado momento, obsoletos, contraproducentes, falsos. E então, temos que eliminá-los.

Querem um exemplo de doença que morreu?

Há vários. Já falei disso em outro lugar, mas vale lembrar a Drapetomania. Uma “estranha” doença que acometia apenas negros escravos que “teimavam” em fugir de seus senhorios mesmo sofrendo penas horrorosas por isso. Mas, um dos casos mais interessantes de morbicídio é o da histeria. Por longos 2000 anos, a histeria foi um problema para os médicos. Pode-se dizer que “inventamos” a psicanálise a partir de um caso de histeria. Acho que a história da histeria mereceria um post só dela (há boas referências em inglês como por exemplo, essa).

Mas, o que nos contam as histórias sobre a histeria e outras doenças que já se foram? Nos dizem, primeiro, que somos desejo e linguagem. Que o social pode ser anterior ao biológico, ao menos no que diz respeito à formação do sujeito humano. (E não há doença sem um sujeito-doente). Ao buscar as formas como o sujeito se relaciona com o conjunto de referências que o caracteriza, o médico o compreende (no sentido de entender totalmente). O médico deveria então flanar sobre a fluidez dos diagnósticos, nuvens conceituais. Não, chafurdar nelas.

Discussão - 5 comentários

  1. Rudolf disse:

    Ótimo post! O sobre o Dr Samuel Cartwright mais ainda.

  2. Marina Valle disse:

    Karl, a histeria continua tão vigente como sempre. Só olhar ao seu redor…

  3. Kentaro Mori disse:

    Sensacional, Karl!
    Olhe, sobre histeria, arrisquei três textos, mas abordando mais o aspecto da “histeria coletiva”:
    http://www.sedentario.org/colunas/duvida-razoavel/todo-mundo-em-panico-parte-1-3340
    http://www.sedentario.org/colunas/duvida-razoavel/todo-mundo-em-panico-parte-2-3467
    http://www.sedentario.org/colunas/duvida-razoavel/todo-mundo-em-panico-parte-3-3700
    Dei uma lida na referência que indicou, excelente! Ainda reesecrevo essa série de textos…
    Abs,

  4. Kim disse:

    Acredito (ou melhor, espero) que muitas das doenças atuais destinadas à morte sejam as patologizações do comportamento. Tristeza, euforia, preguiça, ambição, timidez… parece que todo traço está se tornando um desvio que pode e deve ser corrigido, não acha?
    Sou bipolar, mas é difícil achar alguém na minha família que não apresente os mesmos traços que eu, em menor intensidade. Depois da pressão “boa” sair de 12 por 7 para 11 por 6, não resta muito para todos serem também diagnosticados e terem que tomar remédio por toda a vida.

  5. Karl disse:

    Caro Kim, vc tem toda razão. Esse é um assunto que tenho abordado, ainda que um pouco superficialmente, mas que o post remete. Mais que patologizar o comportamento, temos patologizado o que é possível de ser tratado. Isso. Não signjfica apenas medicamentos para nos deixar felizes, significa também terapias (psico ou não) para nos ajustar a um mundo desajustado.
    A história da pressão talvez não se encaixe muito nesse raciocínio, mas de qualquer forma, que há uma medicalização de processos naturais por pressões econômicas, acho que concordamos que há.
    Obrigado por todos os comentários.

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