O Diabo da Ciência

Prof. Dr. Karl-Otto Apel “O Diabo só pode se tornar independente de Deus por meio de um ato de destruição”

Karl-Otto Apel (O a priori da comunidade comunicacional)

Recebi dois emails provocativos essa semana. O primeiro sobre o novo livro de  José Arthur Giannotti “Lições de Filosofia Primeira”. Ele defende que “num mundo em que as coisas e as pessoas se tornam descartáveis, a filosofia e o filósofo também se tornam dispensáveis.” Não li o livro (mais de 40 paus!) mas fiquei com vontade. Engoli o batráquio pensativo e logo veio o segundo. Um link do blog Neurologica (muito bom, aliás) sobre uma declaração de Stephen Hawking de que a filosofia da ciência estaria morta. O próprio Neurologica tem um link com uma defesa boa de Christopher Norris. Norris envereda pela crítica que todo cientista faz à filosofia após a “virada linguística” em sua vertente relativística, apelidada de “pós-moderna“, hermética, com termos abstrusos e textos difíceis, e se defende muitíssimo bem (é do ramo!).

Numa coisa, entretanto, discordo totalmente de Norris: a filosofia não precisa de defesa. Ela é uma atitude natural do ser humano. É mais fácil impedir uma pessoa de sonhar que de filosofar (o que, muitos sciencebloggers diriam, é quase a mesma coisa, hehe). A formalização do negócio é que é complicada e muitas vezes envereda para caminhos não muito frutíferos.

Gostaria, entretanto, de abordar o problema com algumas ferramentas frankfurtianas. Meu xará Karl-Otto Apel move uma ofensiva contra o falibilismo dos popperianos acusando-os de ceticismo desenfreiado. Estes últimos (em especial Albert), alegam que ao buscarmos um fundamento (ou critério) para verdade terminamos em um beco sem saída. Quando se tenta derivar o fundamento de outro e este, de outro e assim indefinidamente, ou chegamos a uma causa primeira o que dá, invariavelmente, em alguma divindade; ou giramos em círculos sem chegar a lugar nenhum. Por isso, a melhor saída seria o falibilismo popperiano. Há que se duvidar de tudo, quem estiver se sustentando, sobrevive.

Mas, como não poderia deixar de ser em se tratando de um frankfurtiano da gema como Apel, ele diz que Albert ignora uma terceira via para a fundação do critério de verdade. Assim, diz ele que: 1. O que você diz é verdadeiro se sua sintaxe lógica estiver correta (definição sintática). Há uma regra no jogo e você deve obedecê-la. 2. O que você diz é verdadeiro se suas proposições de base corresponderem à realidade, a tal história da “adequação”, a linguagem como referência à realidade. Para avaliar essa “correspondência” é preciso pressupor uma consciência, também conhecida como sujeito. 3. Quando esse sujeito argumenta, ele o faz com quem? A polemização leva à validação de um conceito e isso só pode ser atingido se tivermos com quem validá-lo, ou seja, outros sujeitos. E chegamos então, a uma comunidade de sujeitos. É essa a terceira saída do beco encontrada pelos frankfurtianos. Wittgenstein já dizia que “o jogo da dúvida pressupõe uma certeza”. Onde existe a dúvida, o sujeito da dúvida não é eliminável. O cético radical tem que duvidar de seu método, ou não? Há um ceticismo ingênuo que nos assola e que tem como único critério de verificação a própria ciência, o que é um argumento circular, já dizia o próprio Popper. A ciência não pode cumprir esse papel que, de tão importante, nos indivíduos teístas é atribuído ao próprio Deus (e é o que aproxima, mais do que se supõe, as ciências de outras racionalidades dogmáticas). Isso não é relativismo, é pensar sobre as formas do pensamento.

Se queremos discutir conceitos temos primeiramente, que admitir uma comunidade que possa fazê-lo. “Criticar, argumentar é pressupor em ato que a comunidade de argumentação é instituída e funciona!” Como diz Apel:

” […] a comunidade dos sujeitos argumentadores não é idêntica à comunidade dos especialistas, embora esta a pressuponha. No a priori da argumentação reside a pretensão de justificar não apenas todas as ‘asserções’ da ciência mas, além disso, todas as pretensões humanas – inclusive as pretensões implícitas dos homens em relação a outros homens que estão contidas nas ações e instituições. Aquele que argumenta reconhece implicitamente todas aquelas pretensões possíveis de todos os membros da comunidade de comunicação que podem ser justificadas por meio de argumentos razoáveis – na falta disso, a pretensão da argumentação se limitaria tematicamente a ela própria[…]”.

Em suma, não é possível, para a infelicidade geral, “matar” ou descartar a filosofia, nem mesmo um pequeno ramo dela, a filosofia da ciência. A ciência seria uma atividade chata e solipsista se assim o fosse, sem jamais alcançar o brilho de hoje. É quase como o indivíduo “temente” a Deus tentar expurgar o Diabo! Ele faz parte das regras do jogo. Ainda bem que cientistas gostam de falar de suas pesquisas e descobertas e que outros cientistas interessam-se em discutir e duvidar de suas premissas porque, ao fazê-lo, já estão a filosofar… =)

Bibliografia

1. Filosofia da Ciência I – Andler, D; Fagot-Largeault, A; Saint-Sernin, B. 2005.
Foto da home-page de K.O. Apel.

Discussão - 8 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Você vai ter que me explicar isso pessoalmente, ad comis et bebis.

  2. Karl disse:

    Com o maior prazer.
    Mas, isso não me impede de perguntar se o post está confuso.

  3. Confúcia Cristina disse:

    ah!
    eu acho tão bonitinho o ocidente.
    bonitinho e complicado…
    complicantemente reflexivo conjugado a si
    mas bonitinho

  4. Daniel Christino disse:

    Pois é. Eu já diria que anunciar a morte de alguma coisa é investir-se de uma autoridade que, em geral, não se tem. Caso emblemático: Nietzsche!
    Mas eu entendo o Hawkins. Não concordo, mas entendo. Para ele, como para muitos físicos, a matemática substitui, com ganhos até, a filosofia como linguagem adequada para as discussões científicas. Uma espécie de língua-mãe da ciência. A filosofia operaria com metáforas e traduções, nem sempre fiéis ao original.
    A ciência, entretanto, é apenas um dos temas importantes na filosofia. Quando se tentou abordar a ética a partir de uma terminologia rigidamente formalizada – e inspirada nas ciências – chegou-se a uma ficção muito bonitinha, mas inviável: o imperativo categórico kantiano.
    Por fim mais um belo post do Karl. Já já o Ecce Medicus ombreia com o Amigo de Montaigne….

  5. Karl disse:

    O cara tirou o dia pra me provocar…=)
    Nem me atrevo a discutir a morte de Deus em Nietzsche com você. Digo apenas que ele não reinvidicou essa autoridade, acabaram atribuindo-a a ele.
    Concordo com sua visão do Hawking e jamais conseguiria colocar a ética kantiana dessa forma, putz. De qualquer forma, obrigado pelo elogio.
    PS. Quanto ao Amigo de Montaigne, jamais conseguirei atingir o mesmo nível. Até porque ele já viveu/leu *bem* mais que eu…

  6. Deus disse:

    Homens: parem de lamber-se uns aos outros e deixem Frederico, meu amigo, fora disso. Sobre a morte, prometo esclarecer tudo num momento mais oportuno. Ah! Sim, catem mais coquinhos; é divertido.

  7. 1) Pessoal gosta de obituários: morte dos blogues, de deus, das ciências, da história, dos livros, do diabo, da filosofia, de Twain… (e todos bancam o Jason e reaparecem no filme seguinte) alguém logo logo anuncia a morte da morte.
    2) Eu continuo a sustentar: ciências = filosofia da natureza.
    3) Uma verdade sustentada na validade sintática vai correr o sério risco de ser gödelizado.
    []s,
    Roberto Takata

  8. Karl disse:

    Hehe, Boa Takata.
    1) Entretanto, algumas coisas acabam morrendo e cumprindo a profecia do obituarista. A morte da Morte é o graal da ciência atual (ao menos da ciência médica).
    2) Ciências = Filosofia da Natureza!? Vão te chamar de paleocientista, hehe.
    3) Hmmm. Esta última pode ser uma aplicação bastarda de Gödel, não? Tipo pós-moderna?

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