Technopathology

“La maquina la hace el hombre… Y es lo que el hombre hace con ella.”
Jorge Drexler

Na prática médica em geral, e numa unidade de terapia intensiva em especial, utilizamos vários dispositivos que substituem os sentidos humanos na tarefa de captar dados dos pacientes. Uma vez captados, esses dados serão processados e uma ação deve ocorrer: prescrição de alguma medicação, intubação orotraqueal, solicitação de algum exame, são exemplos de ações possíveis em determinadas situações. A substituição dos sentidos humanos por dispositivos que geram dados sobre os pacientes é tão intrinsecamente relacionada à atividade médica moderna que muitas vezes não nos damos conta de que estamos sobre-utilizando um recurso que, diferentemente de um toque ou um olhar, pode trazer alguma consequência indesejável ao paciente submetido a ele.

Pensando nisso, um instituto independente sem fins lucrativos chamado ECRI Institute, cuja preocupação principal é segurança, qualidade e custo-efetividade do atendimento médico, mantem uma publicação chamada Health Devices. Todo final de ano, é publicada uma lista com as 10 maiores fontes de dano aos pacientes provenientes do (mal)uso da tecnologia médica. Chamei, por minha conta e risco, esse ramo da nosologia humana de Tecnopatologia (em inglês no título para chamar a atenção dos gringos, hehe). Aqui vai a lista de possíveis danos a pacientes (e profissionais da saúde) causada pela tecnologia médica para 2011 (publicada em novembro/2010):

1. Radioterapia em excesso ou mal aplicada
2. Mal-uso dos alarmes
3. Contaminação cruzada relacionada à endoscopia
4. Excesso de radiação na tomografia
5. Perda de dados, incompatibilidades de sistema e outros problemas com a tecnologia de informação em saúde
6. Conexões erradas de tubos e cateteres
7. Excesso de sedação com dispositivos acionados pelo pacientes (PCA)
8. Punções acidentais, contaminadas ou não, de agentes da saúde ou pacientes
9. Fogo acidental no centro cirúrgico
10. Não ou Mal funcionamento de desfibriladores durante paradas cardíacas

Dentre os itens da lista, algumas surpresas. Os problemas relacionados à radiação são sensíveis e vem cada vez mais chamando a atenção de administradores hospitalares e profissionais da área. Vários outros relacionados a infecções são também figurinhas carimbadas de listas como essa. Gostaria de destacar 2 itens.

O primeiro é a importância da tecnologias de informação no atendimento aos pacientes. Em quase todos os hospitais que trabalho há um “sistema” que tenta englobar prescrições, solicitações à farmácia, anotações de enfermagem e médicas, enfim, tudo que gira em torno de uma internação. (Em geral, os “sistemas” são muito bons para cobranças e ruins para os usuários – enfermagem, médicos e fisioterapeutas). Imaginem se o “sistema” cair ou dados importantes forem perdidos antes de um backup. É isso que o artigo destaca.

Outro item da lista que me chamou a atenção foi a questão dos alarmes. Quem já entrou em uma UTI sabe que é um local de grande poluição sonora. Muitos alarmes soam desesperadamente sem que alguém vá ver o que está acontecendo. A esmagadora maioria é interferência ou má regulagem, sem que acarrete problemas quaisquer para o paciente. Entretanto, como na história do menino e o lobo, de tanto tocar inutilmente, podemos perder um evento relevante e colocar a vida do paciente em risco. Em 2002, a Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations, orgão americano que tem acreditado várias instituições brasileiras, reviu 23 relatos de morte ou lesão grave relacionadas à ventilação mecânica: 19 eventos resultaram em morte, 4 em coma. Destes, 65% foram relacionados aos alarmes (2). Muito se tem estudado sobre a ciência dos alarmes e o modo como eles podem nos ajudar, nos atrapalhando o menos possível.

É isso. Tecnologia também causa doença e morte. Pode ser muito difícil explicar isso para a sociedade contemporânea. Ela é viciada em tecnologia e novidades. Os médicos vão no embalo pois apesar de cuidar da sociedade, também fazem parte dela.

Fonte:
1. HEALTH DEVICES NOVEMBER 2010. TOP 10 TECHNOLOGY HAZARDS FOR 2011 (clique para baixar o pdf).
2. Clinical Alarms and the Impact on Patient Safety. Maria Cvach MS, RN, CCRN, Deborah Dang, PhD, RN, NEA BC, Jan Foster,PhD, APRN, CNS, and Janice Irechukwu, BSN, RN, MSN. (clique para baixar o pdf).

Discussão - 10 comentários

  1. “diferentemente de um toque ou um olhar, pode trazer alguma consequência indesejável ao paciente submetido a ele”

  2. Karl disse:

    Os exemplos são inúmeros, Takata. Obrigado pelo rápido comentário e correção, mas às vezes, me é impressionante sua incapacidade de captar metáforas contraposta ao seu enorme talento em esmiuçar picuinhas. =)

  3. Metáforas?
    []s,
    Roberto Takata

  4. Rudolf disse:

    Numa empresa que trabalhei no passado projetando aparelho de anestesia, fui responsável pelos alarmes da maquina. As normas brasileiras nao exigem muita coisa, mas as europeias sao muito boas. Para serem homologadas (no brasil pela anvisa) as maquinas precisam passar por testes de verificacao de todas as normas. Por sua vez, as normas sao feitas para proteger os pacientes. Tudo o que pode afetar a saude do paciente, deve ser acusado, ou num alarme de alta-prioridade (luz vermelha e uma batida sonora em alta frequencia) ou num de media-prioridade (luz amarela e batida em baixa frequencia). Alta-prioridade avisa o operador que ele deve agir imediatamente e media-prioridade avisa do problema que vai afetar o paciente se persistir por muitos minutos. Tem também a baixa-prioridade (luz azul e sem som) que é opcional e avisa somente algum estado da maquina.
    Na minha opiniao essa forma de definir os alarmes é muito boa. É feita assim para todo tipo de equipamento. Carro e aviao tambem sao assim. Tudo funciona bem quando o equipamento é bem operado. Entretanto muitos operadores nao sabem o que significam os alarmes e nao sabem como corrigir o sinal causador do alarme. O mesmo acontece com motorista que nao leva o carro para a revisao por causa daquela luzinha amarela chata que aparece no painel. Uma hora aquele aviso chato pode virar um problema muito mais chato. Um acidente talvez.

  5. Karl disse:

    Já conhecia esse código de cores, Helmut. Mas é muito interessante ver o outro lado das máquinas que usamos. Obrigado pelo comentário.

  6. Igor Santos disse:

    Contaminação cruzada relacionada à endoscopia O.O
    E eu achando que andar de jaleco era ruim…
    Um grande problema que vejos em UTIs é a falta de descanso dos paciente por causa da citada poluição sonora. Sempre me pareceu que tentam lidar com os malefícios da falta de sono com mais remédios e exames.

  7. Sibele disse:

    “Tecnopatologia (em inglês no título para chamar a atenção dos gringos, hehe)”. 😀
    E aqui diz tudo:

    “Não há de se negar a importância propedêutica e, com menor freqüência, terapêutica, dessas tecnologias, que permitem compreender com mais profundidade fenômenos fisiológicos e patológicos. […] Mas qual tem sido, verdadeiramente, o impacto dessas tecnologias de equipamento sobre a saúde […]? Como conseqüência visível, a prática da medicina se modificou muito; o médico tornou-se um especialista, um tecnólogo, todo o trabalho hospitalar se assenta hoje, primordialmente, em tecnologias de equipamentos, cada vez mais complexos. Os meios propedêuticos e de suporte terapêutico avançaram sobre os espaços conceituais e físicos do cuidado médico direto, cuidado agora intermediado por equipamentos e necessidades técnicas correlatas com a obrigatória assistência do especialista e equipes várias, que sequer conhecem a pessoa do doente […]”.
    RIBEIRO HP. O hospital: história e crise. São Paulo: Cortez, 1993. 135 p.

    Os resultados são alarmantes em termos de custo, baixo impacto sobre as condições de saúde das populações, iatrogenia e utilização tecnológica desenfreada. O problema não estaria no modelo de assistência?

  8. Karl disse:

    Talvez no modelo de assistência, ou na formação do médico. Ou talvez, até na forma como a sociedade quer que o médico atue. Obrigado pelo comentário, Sibele.

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