DEK – J e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestuário médico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e até metrôs e ônibus. A campanha é mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-pós, estetoscópios e outros apetrechos utilizados pelos médicos não são de fato, para ficar perambulando por aí, tendo em vista o enorme problema das infecções cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, há um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porquê ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento científico bastante razoável como pode ser visto aqui (em inglês). Digo razoável, porque o papel desses veículos (dizemos fômites) na transmissão de doenças ainda está para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprovável, que possa ser, não quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais provável.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam só aos cotovelos’ (tur. yelék, pelo ár. argelino djalíka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gibão de pano, de mangas curtas, até o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafetã’; trata-se de um dos vários nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela língua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos também. Há um tamanduá de nome jaleco. Para nós, jaleco é uma capa curta de mangas também curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. É utilizada por dentistas, farmacêuticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu já usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: peça de pano, plástico ou couro, presa pelo pescoço e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com alteração do -a- pré-tônico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualização: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta é guarda-pó ou simplesmente, capa, como no inglês)

Avental e gravata constituem um “uniforme médico” de respeito não só porque a imagem do médico veiculada em muitos filmes é essa, mas também porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padrão dos professores. A gravata já foi alvo de várias críticas [1] e muitos já a abandonaram. Mas isso não nos exime da pergunta: Mas então, o que é que um médico deve trajar?

Tive uma experiência interessante com a série “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos comentários porque são bastante esclarecedores quanto às expectativas dos pacientes quanto a aparência dos médicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers à pergunta, como seria a aparência de um médico importante para você?

Para mim, estereótipo de médico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images é bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os comentários acima e direi que meu ideal de médico é um sujeito novo, recém-saído da universidade, doido para colocar em prática anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem alguém olhando por cima do seu ombro. Um médico jovem, empolgado, atualizado, que lê muito e sabe a importância de uma batidinha no abdome e uma puxada de pálpebra. Quanto mais estetoscópio no pescoço e esfigmomanômetro no bolso melhor. Na minha cabeça, quanto mais velho o médico, mais antiquados os seus métodos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atrás para os quais “pedir exame” é sinônimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso já foi até tema de um estudo [2] cuja conclusão foi que, “em contraste com os médicos que veem os aventais brancos como risco de infecção, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os médicos devem vestir aventais brancos para sua identificação ficar mais fácil.” Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a vestimenta do médico é algo que está além do simples fato da proteção, higiene e etc. Há sim, uma identificação visual, uma comparação cognitiva com uma imagem pré-concebida proveniente das experiências particulares que cada pessoa teve em contato com a doença e com a possibilidade de ser assistida por alguém no qual depositaram sua confiança. Repito aqui o que já escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pré-concebida do médico varia muito, não
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de público atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o médico é INDISSOCIÁVEL da população que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
médico, seja um hospital público ou particular, seja seu próprio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. Não reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
mão da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
prática! A prática, como já abordei em diversos posts, tem a tensão
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
aparência do médico é um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

Discussão - 15 comentários

  1. Rudolf disse:

    Eu não entendi direito uma coisa. Os germes que o médico traz do jaleco que usou no ônibus fazem diferença dentro do ambiente hospitalar, onde a biôma bacteriológico é muito mais mortal?
    Ou não seria realmente nojento os germes poderosos que ele carrega para fora? Como para o restaurante.

  2. Igor Santos disse:

    Considerando que a pergunta foi “Qual é sua expectativa quanto a aparência desse médico(a) [dentro do consultório]?”, continuo concordando comigo mesmo.
    O maior problema de todos, e o que realmente criou a polêmica, foi a sutileza da piada.
    Pessoas que realmente tem preconceito com médicos vieram com os quatro pés e os médicos com egos inflados demais preferem defender o indefensável a admitir um erro.
    Há algum tempo a moda era andar com a esmeralda da formatura, mas o público em geral nem é tão observador nem tão informado assim para reconhecer o profissional pelos dedos.
    Se o médico ou estudante quer divulgar sua profissão ao mundo, que o faça, não tenho problema algum com isso. Só não gosto dessa seboseira explícita.

  3. maria disse:

    gostei da ponderação bem construída, como sempre. pra ver se entendi bem:
    você concorda com a campanha do “médico limpinho”. avental fora de lugar carrega elementos que não deveria nos dois sentidos (sujeira da rua para dentro do hospital, microrganismos do hospital para a rua).
    mas fica incomodado, lá no fundinho, com a sugestão de que avental e estetoscópio desfilados são auto-anúncio de superioridade.
    concordo com a importância de cuidar da imagem. uma boa gravata de seda atrairá uns pacientes e espantará outros, idem para cabelos grisalhos, idem para aparência pela trintena. assim médicos e pacientes se conquistam mutuamente.
    fica, pra mim, um pedacinho desconectado na argumentação: afinal, para que raios os fulanos se acotovelam em meio à multidão das calçadas da teodoro sampaio de avental bordado com “neurocirurgião” ou seja lá o que for?
    a meu ver, a campanha do atila e do igor está correta. só precisa tomar cuidado, assim como os médicos com seus trajes de trabalho, para não deslocar a crítica. ela vale para ruas e restaurantes, não para hospitais e consultórios.

  4. Karl disse:

    Obrigado pela pergunta, Rudolf. Quanto ao aspecto puramente bacteriológico do problema temos que as bactérias hospitalares só conseguem sobreviver lá porque resistem de alguma forma aos antibióticos utilizados. As bactérias “da rua” são mais aptas a viver lá. “Teoricamente”, uma bactéria de hospital apanha muito na rua e a da rua, morre rapidinho no hospital em função dos antibióticos.
    Esse raciocínio, muito básico, guia alguns comentários de médicos aos posts sobre o uso dos jalecos do Atila e do Igor, mas o problema é bem maior que isso.

  5. Karl disse:

    Tá certo, maria. A foto que o Atila colocou no primeiro post da série é de uma lanchonete dentro do hospital, há que se considerar. Também acho e concordo que há exageros e chamar a atenção para isso é sempre bom.
    Igor. É isso aí.
    Obrigado pelos comentários.

  6. David disse:

    Uma pergunta: por que a preocupação só com o jaleco e não com toda a roupa do médico ou fisioterapeuta ou enfermeiro? Afinal tem muito profissional de saúde que nem jaleco usa. Eles também não representam perigo a população ao sair com a roupa de trabalho na rua?

  7. Karl disse:

    David, excelente pergunta. Mas, prefiro deixar que os lançadores da campanha “Médico Limpinho” a respondam. Obrigado.

  8. @David, @Karl,
    Claro que é uma campanha *geral* de saúde. Incluindo o hábito simples de higienizar as mãos que muitos médicos ainda não têm.
    Mas é uma pergunta no estilo: “Por que campanha por uso de cinto de segurança? Não é todo um comportamento irresponsável ao volante que faz o estrago?”
    É simples questão de foco. O uso de cinto de segurança, por si só, reduz a gravidade dos acidentes. As campanhas q focam nisso não estão dizendo que então tudo bem beber logo antes de dirigir, ultrapassar o sinal vermelho, levar crianças no banco da frente…
    Deixar de usar jaleco fora do ambiente de trabalho já diminui a exposição desnecessária de pessoas a patógenos que circulam no ambiente hospitalar, de pesquisas microbiológicas e de atendimento à saúde.
    Se tem profissionais que não usam jaleco ou equivalente no trabalho, eles estão errados também. Mas não faz sentido pedir que eles saiam pelados.
    []s,
    Roberto Takata

  9. David disse:

    Roberto, mas uma campanha por uma atitude mais responsável no trânsito não foca em uma profissão, enquanto essa campanha adota um tom condenatório com médicos. Não seria mais interessante exigir que os hospitais disponibilizassem roupas e jalecos para que os médicos utilizassem? Se a questão é foco, então que ele mostre o problema (“o uso de jaleco fora do ambiente de trabalho”) e não parte de uma população que erra. Parece muito mais uma campanha de caças às bruxas do que de educação.

  10. Fabiana disse:

    @maria, @Karl,
    E não é só pra mostrar superioridade em relação ao resto dos mortais que “fulanos se acotovelam em meio à multidão das calçadas da teodoro sampaio de avental bordado com ‘neurocirurgião'”, não lhes parece? Vejo nisso também uma “hierarquia intermédica”: interespecialidades (nesse caso, “neurocirurgião” tem provavelmente mais glamour do que… digamos… ortopedista, ou dermatologista?) e também “interinstituições” (tem provavelmente mais “brasão” o profissional cujo jaleco ostentar a marca de certas unidades hospitalares do que de outras), será que não?

  11. Interessante matéria, gostei!!!

  12. Aleph, o terrível disse:

    Karl,
    você já imaginou se um ator de filme pornô resolvesse sair por aí com a sua roupa de trabalho?

  13. Danilo disse:

    Davi, se voce me permite responder, eu acredito que o debate em torno do jaleco, ou guarda po, ou avental, ou capa, especificamente se deve ao fato de este ser a maior peca de todos os EPI’s (equipamentos de protecao individual). Cobre uma grande area do corpo (os meus vem ate abaixo dos joelhos). Quando um profissional de saude (dentista, medico, enfermeiro etc…) vai a um buffet com seu jaleco-cracha, a probabilidade deste tocar o buffet eh bem maior do que os sapatos do individuo o fazerem.
    Apenas uma pequena prova de como os EPI’s sao usados inumeras vezes apenas como fortificantes de moral ou intelecto, deem uma olhada neste link: http://voce.estadao.com.br/ojoalves

  14. Fabiana disse:

    @Aleph:
    huahuahuahuahua…
    Eu diria que iríamos de Aleph a Tav em 5 segundos, passando por todo o alfabeto!
    E põe “terrível” nessa história… 😀
    Bom, eu nunca vi ator pornô na rua com roupa de trabalho… Mas já vi paciente de aventalzinho azul amarrado atrás – e mais absolutamente nada! – andando no meio de uma rua movimentada dos Estados Unidos como quem passeia pela Paulista ao meio-dia… Fugiu do hospital com certeza…
    Já pensaram se os pacientes do HC resolvessem sair pela Teodoro Sampaio afora como os médicos do HC, com os seus modelitos? História digna de Machado!
    Abraços a todos.

  15. Davi,
    Não há um tom condenatório contra os médicos. Há um tom condenatório contra médicos (e outros profissionais de saúde) que usam jaleco fora do ambiente de trabalho.
    Do contrário, seria o mesmo que dizer que uma campanha que critique direção alcoolizada seja uma campanha condenatória a motoristas em geral.
    []s,
    Roberto Takata

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