Manifesto Ateológico

Casa nova. Cara nova. Gente nova no espaço. Talvez seja um momento interessante para reforçar algumas ideias. Com Onfray.

Meu ateísmo é tripartide. É, antes de mais nada, um anti-platonismo. Uma economia brutal de imaginação. Um artificialismo rossetiano. Por que não “propor-se o prazer, a felicidade, a utilidade comum, o contrato jubiloso”? Por que não “compor com o corpo em vez de propor detestá-lo”?; compreender paixões e pulsões, desejos e emoções, em vez de extirpá-los num dilaceramento de si. Para quê uma outra vida, uma outra história, um outro sentido? O sentido é esse mesmo que você sente; não há outro. Por que não, apenas e tão sómente, um puro prazer de existir?

Meu ateísmo é, também, uma anti-ciência. Anti-ciência dos fariseus, anti-ciência como mito da sociedade moderna com a resposta para todas as dúvidas e anseios da besta humana. Contra a figura ascética e monástica do cientista-sacerdote, único caminho para a Verdade. Contra o proselitismo pagão. A vontade de saber é apenas um outro afeto humano, apesar de ser o mais potente deles. Não compreender isso, é não saber. É ser um “ateu cristão”. É acreditar nas formas divinizadas da natureza, do homem, da história e do mundo.

Meu ateísmo, por fim, é uma Não-Crença e não uma “crença no não”. É uma vigilância metafísica. É a reafirmação da vida, estética, elegante, ética, atômica. É a encarnação do viver aqui e agora. É o morrer heróico, como a morte de um leão.

Discussão - 22 comentários

  1. Anti-ciência ou anticientificista?

    []s,

    Roberto Takata

  2. Rudolf disse:

    Esta semana vi um vídeo do Drausio Varela falando do ateísmo dele. Como ele é médico e popular, vou colocar aqui.
    http://www.youtube.com/watch?v=JcS7x-hQXC0

  3. Marcelo Esteves disse:

    Takata

    Não sei se é a opinião do autor, mas eu aceito anticiência, com toda licença poética que o termo permite. Porque a palavra foi sequestrada e tão conspurcada de cientificismo; que sofre, nela mesma, esta resignificação cruel.

    No mais, belíssimo texto.

    Onfray seria o quinto cavaleiro do ateísmo, ao lado dos já consagrados Dawkins, Harris, Hitchens e Dennet, este, também um filósofo.

    Mas, se em relação a Dawkins, muitos ateus fazem uma leitura superficial e fora de contexto, renegando o humanismo radical que perpassa cada linha que escreve … o que diria em relação a Onfray, quando apresenta reflexões que vão muito além da gaiola anticlerical tupiniquim.

    Um abraço

  4. Karnakicismo disse:

    Juvental, juvenal, vem tirar o leite. São seis horas da manhã, Juvenal, Juvenal

  5. Sibele disse:

    “Casa nova. Cara nova”. E, surpreendentemente, no novo índice do SBBr, onde os blogs são elencados por categorias – “Scienceblogs Brasil”, “Universo”, “Terra”, “Vida”, “Tudo Mais”, o Ecce Medicus está na categoria… “Humanidade”!!!

    “Por que não, apenas e tão sómente, um puro prazer de existir?” Isso não subentende numa espécie de alheamento, Karl? Como morrer heroicamente – tal qual um leão, assim?

  6. Karl disse:

    Takata e Esteves. “Anti-ciência” porque quem é cientificista não se classifica como tal.

    Rudolf. Dráuzio é um grande cara. Briga por essas coisas faz tempo.

    Sibele. Alheamento é viver aqui pensando lá. Desde de que não há “lá” uma saída (linda, hehe) é a estética.

    Obrigado por todos os comentários

  7. Sibele disse:

    Sim, é uma bela saída, sem dúvida! Mas não deixa de ser um alheamento “aqui”, não acha? E um tanto quanto hedonista…

  8. Sibele disse:

    Karl, Karl…

  9. Igor Santos disse:

    Hedonismo é a única postura que faz sentido.

  10. Sibele disse:

    Certo, certo… esse meu afeto humano (a vontade de saber) faz-me insistir aqui. Vamos lá, portanto.

    Desconfio que a lida por longo tempo num ambiente diuturnamente calcado em situações-limite entre a vida e a morte, e onde essa lida por vezes determina muitos destinos, sendo extremamente estressante – pois implica em responsabilidade pessoal – induz à questão se “seria preciso, para sobreviver a esses tsunamis, um tipo de boia? Algo em que se possa agarrar, de preferência, algum tipo de terra firme, mesmo que seja uma miragem?”(4º §).

    Muitos se agarraram em boias metafísicas – as religiões, pois convenhamos, bem ou mal elas cumprem essa função de alívio.

    Declarando que essa saída (ou boia) não serve para você, e mesmo admitindo (ou confessando) que essa negação lhe atrapalha um pouco (1º §), aqui você anuncia, enfim, que a saída (“linda, hehe”) é a estética. E depois acrescenta: “sim, hedonista, sim. Intersubjetividade hedonista. Ética hedonista. Política hedonista”. Onfray até os ossos!

    Mas diga-me, Karl: não seria um tanto utópico? Já presenciamos um mundo hedonista – não esse, difundido por Onfray, na melhor tradição do pensamento grego que comemora a vida e a felicidade e o prazer, mas aquele outro, aquele hedonismo que enfim se banalizou – ególatra, egoísta e materialista. Não é o que vemos amplamente por aí, com as consequências que bem conhecemos?

    E o viver aqui e agora, sob esse contexto – essa “realidade”, vá lá…, não implica, necessariamente, num alheamento? Sem essa, hã… “abstração”, sinceramente, não vejo como viver esse aqui e agora, ser “feliz e depois, humilde” (5º§). É como está nesse comentário. A equação não fecha.

    E ainda desconfio de mais: será que assim esse “hedonismo” não se torna ele mesmo uma forma de alienação, tão apontada e criticada pelos ateus naqueles que são crentes?

  11. Fabiana disse:

    Comentário #2:

    Sibele… Vc pegou o diabinho pelos chifres (e o diabinho é o problema, não é vc não, viu, Karl?, caveira nem tem chifres – só um fumação geral!… :p )

    A resposta para o teu “afeto humano” está na forma, e não conteúdo… Pensando melhor, o problema é que está na forma, e não tanto no conteúdo… Não será? Olha bem.

  12. Sibele disse:

    F: “caveira nem tem chifres – só um fumação geral!” Uahahaha! E será, Fabiana, que “pensar com a cabeça de uma caveira” não é o que causa essa fumação toda? :)))

    Pior é que, segundo o Karl, eu estou quase lá! Ai de mim! 😛

    Quanto à forma e conteúdo, no fim parece que mutatis mutandis, ambas servem bem a seus propósitos. A opção é do freguês.

    K: “Vou escrever mais sobre isso.” OBAAAA!!! \o/ Aguardamos!

  13. Fabiana disse:

    😉

    Só o Karl mesmo pra vir com essa de “pensar com a cabeça de uma caveira”, Sibele… Depois dessa, só o “Fantaman” mesmo pra salvar a pátria… E o cara deve ter sido antepassado do Karl, não?, vc não acha que os 2 se parecem? 😀

    (eu só sei que eu era beeeeeeem pequeninha – um pouco menor que hoje, rsrsrs -, mas eu AMAVA o Fantaman… 😉 )

    Let’s see. 🙂

  14. Fabiana disse:

    E só pra terminar o dia rindo, que eu to aqui rindo sozinha com a minha lembrança, um verso do Drummond:

    “Esconjuro se é necrófila”

    😀

    (E chega, qq dia o Karl vai me expulsar do EM de tanto que eu fico aqui preenchendo este espaço 🙂 )

    Beijos! Boa noite 😉

  15. Sibele disse:

    Bom, pra falar a verdade, Fabiana, acho que não há muita semelhança entre K. e esse Fantomas de desenho animado de origem japonesa. Esse Fantomas é meio infantilizado para representar o nosso K. Mas talvez haja, sim, uma ascendência com outro Fantomas, o original francês, que por sua vez derivou outro personagem (olha a linhagem!), dessa feita italiano, em comics (bem, na verdade photo comics – a famosa fotonovela, ou melhor ainda: uma spaghetti photo comics! Não tem o “spaghetti western”? Pois então!) inacreditável!

    O nome? Killing! (também conhecido como Satanik, Kilink, Sadistik, etc, dependendo do lugar onde foi publicado).

    Matador, não? 😛

    Responder ?

  16. Sibele disse:

    E a gente se diverte! 😀

  17. Fabiana disse:

    Uau, Sibele! Isso é que é linhagem… 🙂

  18. […] tudo isso, a solicitação de definições é carregada de uma grande carga metafísica. Se por um lado, uma definição fica longe de esgotar determinado assunto, por outro, é clara e […]

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