Ao Cientista Totalitário

“Na colocação dos problemas histórico-críticos, não se deve conceber a discussão científica como um processo judiciário, no qual há um réu e um promotor, que deve demonstrar, por obrigação de ofício, que o réu é culpado e digno de ser tirado de circulação. Na discussão científica, já que se supõe que o interesse seja a pesquisa da verdade e o progresso da ciência, demonstra ser mais avançado quem se coloca do ponto de vista de que o adversário pode expressar uma exigência que deva ser incorporada, ainda que como momento subordinado, na sua própria construção. Compreender e valorizar com realismo a posição e as razões do adversário (e o adversário é, em alguns casos, todo o pensamento do passado) significa justamente estar liberto da prisão das ideologias (no sentido pejorativo, de cego fanatismo ideológico), isto é, significa colocar-se em um ponto de vista crítico, o único fecundo na pesquisa científica”.

O texto é de Antonio Gramsci e foi escrito entre 1932 e 1933 e serve não apenas para a colocação de problemas histórico-críticos. Serve para a vida. Nenhum tipo de totalitarismo é aceitável. Também o da ciência não o é. Pense nisso quando for discutir “cientificamente” da próxima vez. Você não tem a verdade, tem apenas um modelo capaz de prever resultados de um número limitado de experimentos. A Verdade é outra coisa…

Consultei a excelente coletânea de Carlos Nelson Coutinho “O Leitor de Gramsci”. Ed. Civilização Brasileira.

Discussão - 21 comentários

  1. Fabiana disse:

    A Verdade talvez nem seja… 🙂

  2. “tem apenas um modelo capaz de prever resultados de um número limitado de experimentos.”<=O que é muito mais do que muitos modelos apresentados como alternativos.

    []s,

    Roberto Takata

  3. Emanuel disse:

    Oi Karl! Bacana e profundo. E mais importante: verdadeiro. Me lembra um texto que escrevi semanas atrás lá no caderno, só muito mais mundano. Segue o link, se interessar: http://caderno-de-laboratorio.blogspot.com/2011/10/professora-qual-resposta-certa.html
    Abraços!

    • Karl disse:

      @ Fabiana. Talvez nem… hehe

      @ Takata. “[…] é muito mais do que muitos modelos apresentados como alternativos”. Mas que continuam não sendo a verdade.

      @ Emanuel. Obrigado pelo comentário e parabéns pelo blog. Achei muito legal o “Caderno”.

  4. “Mas que continuam não sendo a verdade.”<=Mas pra que precisaria ser a verdade? Basta ser melhor. E, no caso, é muuuuuuito melhor em termos de acerto de previsão.

    []s,

    Roberto Takata

    • Karl disse:

      Beleza. É só não confundir então. O problema é que nego confunde muito isso. Exemplos há aos borbotões.

      • Paula disse:

        Adoro essa palavra… borbotões…

        Acho que o grande problema do cientista totalitário é que ele se “conforma”, se “conforta” e se sente “poderoso” com ter respostas previsíveis dadas por um modelo com algumas variáveis controladas. E DE VERDADE acham que basta. E quando basta, vira uma verdade que não permite críticas, nem dele, nem dos outros.

  5. Mário disse:

    Interessante a colocação de Gramsci. Ainda mais interessante quando fala de tolerância, já que Gramsci era um totalitário, defensor do partido único, ao qual todos deveriam servir e que faria as vezes de sociedade (partido e sociedade, uma coisa só). O partido, chamado de “moderno príncipe”, em referência ao “velho” príncipe de Maquiavel, deverá aparelhar as instituições (escolas, igrejas, imprensa, etc) com seus intelectuais orgânicos a fim de esvazia-las de dentro pra fora, fazendo-as perder o significado original. A revolução não será instaurada por armas, mas pela guerra por corações e mentes. As velhas instituições serão convertidas em ressonadores das diretrizes do moderno príncipe, que eliminará a velha ordem através dessa guerra cultural. Enfim, e só dessa forma, o socialismo seria implantado. É para lá que a história se dirige, assim crêem os marxistas. O socialismo seria algo inevitável, inexorável. Poucas visões de mundo e a respeito da política são tão totalitárias quanto o historicismo. Assim, a deferência que se faz à tolerância na citação – assim acredito – deve ser lida tendo em mente essa restrição: a da pretensão do próprio Gramsci de saber o fim da História. Isso não estaria em discussão.

    • Karl disse:

      Opa, Mário. Não sou nenhum especialista em Gramsci, muito, aliás, pelo contrário, mas acho que há uma certa confusão de termos aqui. O que Gramsci escreveu, no início do século passado, deve ser contraposto com as ideias correntes na época. Sua oposição aos métodos do PCI, em especial, à liderança de Bordiga; suas divergências com Lênin e com os reformistas; sua valorização da intelectualidade e da cultura humanas como formas de libertação; a “deseconomização” do marxismo; a revolução passiva como você bem descreveu; além do papel “catártico” do partido em elevar a consciência política do cidadão (isso em franca oposição ao que Lênin pensava como partido), entre outros; foram ideias lançadas à frente de seu tempo e que permitiram sua “redescoberta” por correntes de esquerda atuais, mas também por setores da direita que veem em Gramsci, o principal adversário a ser combatido. Isso palavras do próprio Carlos Nelson Coutinho. De pretensão, pelo que pude entender, Gramsci tinha muito pouco. Talvez um dos pontos em que se possa estabelecer uma crítica a seu pensamento é de que ele era um baita sonhador: morreu apenas com 46 anos sendo 10 dos quais vividos em uma cela. Se bem que no final, você tem mesmo razão: sonhar também é uma forma de pretender.

      Obrigado pelo comentário.

  6. Mário disse:

    Também não sou especialista. Talvez ele não tenha tido mesmo grandes pretensões, mas reconheço-o como bastante presente na estratégia política da esquerda atual.

    Apenas quis destacar o contraste entre a tolerância proposta quando do debate de idéias e pontos de vista, na citação, e o aspecto dogmático e finalista do marxismo, seja na sua vertente gramsciana ou leninista.

    Agora, tratando do tema do post, acho que você foi muito feliz ao abordá-lo. Por coincidência, debatia ontem mesmo com alguns colegas quando surgiu na discussão uma questão envolvendo ciência, política e sociedade. Critiquei a fala de um colega que defendia que as pessoas deixassem de dar tanta importância “à mídia” e passassem a ouvir mais “os especialistas”. A discussão prosseguiu até o ponto em que destaquei que se a verdade está com os cientistas, então paremos de opinar, de refletir, de discutir. Fechemos o congresso nacional e que o debate fique restrito aos especialistas, com a sociedade aquiescendo passivamente diante das decisões de um conselho notáveis. Este exemplo, embora exagerado, parece ser compatível com a postura de muitos que fazem divulgação científica. Daí a oportunidade de sua postagem, lembrando da eficiência do método científico, mas com a ressalva que chegar à verdade são outros quinhentos. Temos a história para comprovar o efeito desastroso de conceitos científicos extrapolando seu significado restrito e sendo incorporados em ideologias políticas – e isso por vezes com o aval de cientistas. Na discussão em que fiz referência, citei um trecho de Contra o Método de Paul Feyerabend (concorde-se ou não com sua epistemologia, acredito que esta colocação que ele faz é pertinente) a respeito dessa relação entre a “verdade” científica, política e sociedade:

    “A CIÊNCIA TEM DE SER PROTEGIDA DAS IDEOLOGIAS, E AS SOCIEDADES, EM ESPECIAL AS DEMOCRÁTICAS, PROTEGIDAS DA CIÊNCIA. Isso não significa que os cientistas não possam tirar proveito de uma educação filosófica, nem que a humanidade não tirou nem vá tirar proveito das ciências. Contudo, tais benefícios não devem ser impostos; devem ser examinados e livremente aceitos pelos participantes da permuta. Em uma sociedade democrática, instituições, programas de pesquisa e sugestões têm, portanto, de estar sujeitos ao controle público (…)”

    Abraços e obrigado pela oportunidade.

  7. Fabiana disse:

    Também não sou especialista em Gramsci, gente, mas estudei muito as esquerdas totalitárias, principalmente no Brasil, principalmente vinculadas à experiência do cárcere. E digo uma coisa: devemos, sim, Karl e Mário, a “‘deseconomização’ do marxismo” a Gramsci, ao seu pensamento. Ouso dizer que, à época em que ele escrevia, era difícil fugir de modelos de pensamento, não totalitários, como você menciona, Mário, mas totalizadores – o que é um pouco diferente.
    Já os usos que são feitos dos modelos criados, por esquerdas autoritárias ou não, por direitas autoritárias ou não, isso pode e deve, sim, ser esclarecido e criticado. Muitas vezes, também, o pensamento de um autor transcende sua própria personalidade e os limites de sua ação política, esta, sim, balizada por aspectos da vida que às vezes exige tomadas de posição bem contraditórias, até.
    Penso, por exemplo, na reverberação do pensamento de Gramsci na esquerda acadêmica norte-americana dos anos 80 em diante. Devemos à leitura que Edward Said faz de Gramsci, entre outras, a gênese de todo o campo de estudos chamado depois de pós-colonialismo – embora Said também tenha tido uma atividade política alvo de enormes polêmicas, como sabemos. Devemos também grandemente a Gramsci o reconhecimento e o respeito por um certo tipo de atividade intelectual que possa talvez, um dia, revolucionar alguma coisa.
    Limites todos temos, intelectuais ou não. Somos limitados por nossa capacidade ultra restrita de ver o mundo enraizados em nosso tempo e espaço. Como diria Graciliano Ramos, intelectual de esquerda que se corroía a si mesmo de autocrítica,
    “começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.
    Sonhar sair das muitas prisões que nos tolhem o gesto já é, de alguma maneira, esboçar o ato que nos libertará delas. Destruí-las já é outra história.
    Mas tem uma coisa que seu comentário, Mário, ressalta, e da qual o Karl sabe também (acho que sim 🙂 ): a idealização pura e simples do pensamento das esquerdas por serem “de esquerda” é comum e inadequada. Somos às vezes taxados de “direita” por isso. Tudo bem. Vamos nos mexendo 🙂

    (Tem um texto bárbaro, e marxista na veia, gramsciano também, que busca interpretar a realidade brasileira e criar um modelo de análise dela com uma visão profundamente de esquerda, mas sem os totalitarismos da ortodoxia, que é o livro do Jacob Gorender, O escravismo colonial, principalmente sua introdução metodológica. É um libelo contra a generalização de modelos, ainda que profundamente respeitoso ao pensamento de Marx. Mas isso já é outra história, né, estou fugindo da Medicina… 🙂 )

    Parabéns, aos dois, pelos comentários!
    (Karl, acho que eu sonho muito!… Já to quase virando Luther King – “I have a dreeeeaaaammm”… 🙂 )

    Beijos

  8. Gabriel disse:

    Essa verdade com V maiúsculo provavelmente nem existe.

  9. Mário disse:

    ” Os perigos impostos pelo excesso de autoconfiança científica são máximos quando os cientistas procuram não somente uma cura para o câncer ou para a doença mental, mas uma explicação final, definitiva para quem somos ou mesmo para quem deveríamos ser. O falecido filósofo Isaiah Berlin alertou que aplicar a ciência e o raciocínio aos assuntos humanos com grande frequência conduz ao totalitarismo.

    ‘Um senso de simetria e regularidade e um dom para dedução rigorosa, que são pré-requisitos de aptidão para algumas ciências naturais, inevitavelmente conduzirão a uma aterradora intimidação de um lado e a um sofrimento indescritível do outro na esfera da organização social, a menos que sejam modificados por um alto grau de sensibilidade, compreensão e humanidade’.

    Berlin nos exortou a atentar para os ‘terríveis simplificadores’, ‘grandes organizadores despóticos’, ‘homens possuídos por uma visão universal”. (John Horgan, em A Mente Desconhecida).

    • Karl disse:

      “Borbotões” é parente de “gorgolejo”, Paula e acho que vc tem razão. E sim, Mário, a questão discutida com seus amigos é crucial. Jürgen Habermas e Bruno Latour trataram dela com profundidade e são leituras interessantes sobre o assunto. Faço minhas as palavras de Fabiana e também uma pergunta: haveria uma ciência de esquerda?

      Gabriel, o que existiria então, possivelmente?

  10. Mário disse:

    É claro que a Verdade com V maiúsculo existe sim, Gabriel. Disso não há dúvida. Como disse o Karl, seria como questionar a própria existência e o ser. Uma coisa é a Verdade, outra é se podemos conhecê-la ou vislumbrá-la.

  11. Fabiana disse:

    Oi Mário, desculpe insistir, e claro que depende do conceito de ideologia que adotamos. Mas não vejo como poderíamos separar ciência de ideologia, ciência de sociedade. Todo estudo científico é produto de um grupo social e, portanto, imbuído de uma ideologia, não?

    @Karl: pergunta que dá o que pensar, essa – “haveria uma ciência de esquerda?” (boas perguntas são “sempre” muito melhores do que boas respostas… Né? 😉 )

    Fiquei matutando: depende do que entendemos por esquerda…

    Se esquerda for o marxismo ortodoxo, acho que a resposta é não – nunca teríamos uma ciência (superestrutural) de esquerda, já que não temos uma infraestrutura econômica (não capitalista) que sustente a produção desse pensamento (mas esse tipo de raciocínio já está bem caduco até pras próprias esquerdas…).
    No contexto do pensamento de Gramsci, acredito que a resposta seja sim: poderíamos ter uma ciência de esquerda, um tipo de pensamento revolucionário, contra-ideológico, produzido no sentido do novo e da mudança e que fosse capaz de uma ação social transformadora das próprias estruturas.

    Aí me lembrei deste texto:

    “Quando a série ideológica apreende os valores da cultura, articula procedimentos de criação, de aplicação prática e de transmissão direcionados para a ótica particular de um grupo social, independentemente da origem de classe do escritor. Em cada país, a ideologia dominante – é óbvio – vincula-se às expectativas do grupo socialmente hegemônico, mas não é só. Como a ideologia, como as demais séries culturais, tem dinâmica própria [e aqui é que o texto difere do marxismo ortodoxo e se aproxima de Gramsci], as produções culturais [nas quais a ciência se inclui] são atravessadas também por outras perspectivas não hegemônicas. Inclusive, por aquelas emergentes que podem presentificar formas do devir histórico.” (Benjamin Abdala Jr., Literatura, história e política)

    Isso é o que se chamaria de vanguarda.
    Há vanguarda na ciência também, não?

    Mas “vanguarda” não é exatamente “ser de esquerda” – embora, no contexto do capitalismo, a esquerda sempre tenha reivindicado seu papel de vanguarda…
    Daí que assim: Galileu, por exemplo. Foi de vanguarda, e contra-ideológico, claro, frente ao pensamento religioso – ortodoxo… – do século XVI – a Inquisição que o diga. Mas não podemos dizer que Galileu fosse de “esquerda” – conceito que estava longe de existir em mil quinhentos e bolinhas…

    Então, resumindo: ideologia é diferente de esquerda que é diferente de vanguarda… Mas às vezes esquerda = ideologia. E às vezes vanguarda = esquerda.

    Eita perguntinha difícil… Assim, como quem não quer nada?
    Você é *terrível* quando toca em feridas… Sai da frente… 😉

    beijos 🙂

  12. Karl, quando li o seu post imediatamente me veio as afirmativas da Dawkins sobre “como sabemos a Verdade” através da Ciencia (nao sei se Verdade e Ciencia foram usados com maiusculas, mas imagino que Dawkins nao se incomadaria com isso.

    Era ele o seu alvo imediato, no post????

  13. Hum, este é o titulo do novo livro do Dawkins:

    The Magic of Reality: How We Know What’s Really True

    • Karl disse:

      Osame. O alvo não foi o Dawkins especificamente, mas todos aqueles que se comportam, sempre ou durante algumas fases da atividade científica, desta maneira. Não li esse livro dele, mas o título é sugestivo.

      Fabiana. Quando estava começando a esquentar, você terminou o comentário. Eu estava gostando, hehe

  14. Mário disse:

    Fabiana, tinha digitado aqui um comentário. Pena que deletei tudo sem querer. Logo, logo elaboro outra resposta. Abraços.

  15. Fabiana disse:

    Heh, Mário, essas coisas acontecem, né? Pior é quando vc elabora o maior comentário e ele vai cair no spam… (:
    Fico esperando sua resposta.

    Karl: essa história de comentário que se deleta foi justamente o que aconteceu com o meu… Só que o meu se deletou da mente! Pode isso? 🙂
    Assim: vinha eu “no trânsito massacrante de São Paulo”, matutando no assunto, e tinha a certeza de ter 3 pontos pra falar. Aí, na hora de escrever, puf, só vieram dois! E ainda não me lembro do 3! O que vc acha que ficou faltando? Quem sabe se vc me disser sobre o que ainda quer que eu fale eu consiga resgatar o comentário perdido… 🙂

    O EM parece às vezes uma corrida de revezamento, né? Vcs não acham? E eu considero isso o máximo: nada de ficar por aí articulando pensamentos sozinhos apenas. Um contraste aqui, uma outra perspectiva ali, um acréscimo, uma ajuda, e, em meio ao caos, vamos construindo nosso jardim de cosmos pequeninos.

    Beijos. Bom dia 🙂

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