Sonho de Memória

Sob a história, a memória e o esquecimento.

Sob a memória e o esquecimento, a vida.

Mas escrever a vida é outra história.

Inacabamento.

Paul Ricoeur

Como a memória se relaciona com o real?

~ o ~

Dona Alzira tem 84 anos e nenhum problema grave de saúde, exceto um Alzheimer avançado. Bebe sua cervejinha e dorme a sesta durante o dia. É capaz de entabular uma conversa na qual, apenas após uns 5 minutos de papo, o interlocutor começa a perceber que alguma coisa não se encaixa muito bem. É divertida e adora um palavrão.

Precisamente hoje, Dona Alzira recebeu, no café da manhã, a notícia de que um grande amigo seu, Vicé (pronuncia-se Vitché), veio a falecer. Olhou para baixo e ficou triste. “Morreu de infarto, dormindo. Pelo menos não sofreu, não ficou numa cama…” Ela não chorou e terminou o café em silêncio.

Foi para seu quarto, tomou banho, trocou de roupas e chamou a filha. Após alguns segundos de insuportável silêncio, começou a chorar bem baixinho. “Que foi, Mãe?” “Não sei. Tive um sonho ruim. Sonhei com o Vicé…”

Discussão - 7 comentários

  1. Helmo Santos disse:

    É realmente intrigante a maneira como a memória, ou o passado e o presente são interdependentes, uma vez li que o passado é o que dá a significação para os nossos atos no agora. Dividir a nossa existência em passado-presente-futuro, é enorme equívoco, viver é um processo contínuo, e à nossa realidade dificilmente aceita dicomotomizações.

  2. Fabiana disse:

    Esquece-se o que se quer esquecer, ou o que não se pode lembrar?

    Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere:

    “E aqui chego à última objeção que me impus [ao escrever o livro]. Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos penso que valiam pouco. Outras, porém, conservaram-se, cresceram, associaram-se, e é inevitável mencioná-las. Afirmarei que sejam absolutamente exatas? Leviandade. Em conversa ouvida na rua, a ausência de algumas sílabas me levou a conclusão falsa – e involuntariamente criei um boato. Estarei mentindo? Julgo que não. Enquanto não se reconstituírem as sílabas perdidas, o meu boato, se não for absurdo, permanece, e é possível que esses sons tenham sido eliminados por brigarem com o resto do discurso. Quem sabe se eles aí não se encaixam com intuito de logro? Nesse caso haveria conveniência em suprimi-los, distinguir além deles uma verdade superior a outra verdade convencional e aparente, uma verdade expressa de relance nas fisionomias. Um sentido recusou a percepção de outro, substituiu-a. Onde estará o erro? Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e nos dão hoje impressão de realidade.”

    To tão imbuída de Graciliano, né, Doc?, que é difícil cortar a citação. Se achar que deve, edite, tá?

    Claro que o Alzheimer é patológico, involuntário e muito triste.
    Mas…
    “Um sentido recusou a percepção de outro, substituiu-a. Onde estará o erro?”

    • Karl disse:

      @Helmo. Acho que Kant acertou ao dar à dimensão do tempo um status apriorístico na cabeça do Homem. Biologia é outra coisa. Por acercar-se da “coisa-em-si” o tempo não se equivale mesmo.

      @Fabiana. Eu preciso ler Graciliano (sem as obrigações vestibularescas que o detonam). Interessante esse texto. O que Graciliano descreve para uma “conversa ouvida na rua” é perfeitamente transponível para o ato de ouvir uma língua estrangeira. Ao captarmos o significado de algumas palavras, formamos um sentido que não é a realidade crua da fala. E, na ânsia de buscar um sentido (essa é nossa sina), na ausência de um, criamo-lo. Essa é a mágica das músicas estrangeiras. Tem a ver com a imagem grega da verdade, aletheia, literalmente não esquecer, mas que aos gregos também tinha um sentido de desvelamento. É muito mais legal alguns véus que uma nudez frontal, hehe. Graciliano oscila, entretanto, na fé que tem esse novo sentido que atribuiu à fala e às coisas que mal ouviu e se isso teria ou não um valor de verdade. O sentido que recusa a percepção do outro é a vontade de verdade nietszcheana. Para Él bigodón, esquecer era a forma ativa em detrimento ao lembrar. Desesperadamente, Graciliano procura moralmente seu erro para depois afirmar que tais sentimentos e lembranças “completam-se e nos dão hoje a impressão de realidade”. Muito bonito.

  3. Fabiana disse:

    Ele é maravilhoso, Doc. Especialmente na crueza da autocrítica.

  4. Daniel Christino disse:

    “There is lambswool under my naked feet
    The wool is soft and warm
    – Gives off some kind of heat
    A salamander scurries into flame to be destroyed
    Imaginary creatures are trapped in birth on celluloid
    The fleas cling to the golden fleece
    Hoping they’ll find peace
    Each thought and gesture are caught in celluloid
    There’s no hiding in memory
    There’s no room to void”

    Esquecer é importante.

  5. Fabiana disse:

    Lindo mesmo.
    D. Alzira é o exato oposto do Funes, né? Ambos doentes…
    Heh… Quase te mandei esse texto hoje 🙂

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