Deus Não Existe

2946162595_b6e8b16e60_o“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (João 1:1-3)

 

Deus não existe. Nem poderia jamais ter existido. Pelo menos do ponto de vista linguístico. Existir vem do verbo latino ex-istere e significa “sair de”, “manifestar-se” tomando um sentido de “vir a ser”. Existir, portanto, não pode ser uma característica do Deus monoteísta. Ele jamais poderia ter vindo a ser em determinado momento porque, nesse caso, não seria eterno.

Se eu digo então, que Deus é… vou compará-lo com algo que conheço e esta é uma metáfora que estará fadada à imortalidade, o que não é bom para quem quer saber das coisas. Segundo Umberto Eco (Kant e o Ornitorrinco, pág 17-54) ninguém jamais estudou semânticamente de forma satisfatória o verbo ser. Parece ter sido Pascal o primeiro a notar a dificuldade: “Não podemos nos preparar para definir o ser sem incorrer neste absurdo: porque não podemos definir uma palavra sem começarmos pelo termo é, expresso ou subentendido. Então, para definir o ser, é preciso dizer é, e assim usar o termo definido na definição”. Problema semelhante ocorre com as afirmações sobre a essência divina. Quanto mais poder é dado a Ele, menos apreensível fica. Veja a encrenca.

Talvez haja apenas uma só chance de Deus existir de fato. Isso ocorre quando Ele se manifesta, vem a ser, dentro do próprio indivíduo que Nele crê. Acho que Santo Agostinho tratou disso no Livro X das Confissões e Espinoza foi excomungado de duas religiões por pensar algo parecido com isso. Engraçado que este Deus parece não bastar para muita gente. Talvez, sua popularidade não seja muito alta porque, tal indivíduo, um portador de Deus, não pode exportá-lo. Seria preciso que Ele despertasse no outro e isso, além de não depender de uma decisão racional, cria um Deus ao qual um outro não teria acesso. De qualquer forma, não é um Deus muito “útil” porque cada um tem o Seu com todos os corolários decorrentes dessa limitação.

O caso contrário, o do Deus eterno que é, simplesmente, se torna, de fato, uma grande sacada. De cara, já causa um nó em quem tenta “pensá-Lo” ao cair no dilema de Pascal (de fato, existem outros dilemas muito mais cabeludos que esse. Veja por exemplo, o verbete “Ser” no Abbagnano). Sendo inapreensível ou “impensável” formalmente (ou pelo menos difícil de pensar, nem o Kant!), faz-se divino pela intangibilidade.

Gênio. O sujeito que escreveu “no princípio, era o Verbo” sabia exatamente o que queria não dizer.

Discussão - 6 comentários

  1. Sibele disse:

    “Por enquanto médico, quem sabe um dia, livre-pensador?” – Parece que este dia está cada vez mais próximo! 🙂

  2. Pedro Cabral disse:

    O problema não está na crença da existência ou não de Deus, pois se existimos é porque algo nos criou. O problema está na natureza do criador. O Universo é infinito, portanto, nada pode criar o Infinito, uma vez que nada pode ser maior que ele. Então só nos resta uma alternativa: O próprio Universo é o criador. Mas como o Universo seria o próprio criador? Sabemos que tudo no Universo é regido por uma linguagem matemática. Hoje, os cientistas já sabem queo universo todo é permeado por uma energia. Eles a chamam de Energia Escura, porque não a vêem. Ora, uma Energia infinita e regida por uma linguagem matemática é uma Energia Inteligente. Logo, o próprio Universo é um campo infinito de energia inteligente, mas não Consciente, pois não faz sentido a existência de um ser que não conhece sua própria dimensão, já que é infinito (pelo menos, segundo Huberto Rohden esta forma de consciência que conhecemos). Esta teoria se encaixa na filosofia taoista que diz: Tao (o Universo Imanifesto, Deus) gera Ki (uma energia secundária já pertencente ao universo relativo), pois se divide em Yang e Yin e gera tudo que existe. É daí, talvez, que surgiu a frase “Deus criou o universo” traduzindo como Tao (o Universo Infinito) criou Ki (o universo relativo), somente assim ela faz sentido. E isso me leva ao conceito de que estamos dentro de um CHIP INFINITO, o Universo com todo seu mecanismo interno seria, portanto, um COMPUTADOR INFINITO, não manobrado por alguém de fora como no filme Matrix, mas manobrado por nós mesmos. Qualquer coisa que quisermos fazer podemos, desde que obedeçamos suas leis (manifestadas na matemática, física e química). Para quem quer se aprofundar neste assunto escrevi o livro XXXXX publicado pela XXXXXX e que pode ser adquirido diretamente no XXXXX ou na LIVRARIA XXXXX. Ele discute o Universo Inteligente, senhor de sua própria criação. Entretanto, este não é um livro materialista, pois mostra que somos quantidades ínfimas de energia gerada pela vibração da Inteligência Infinita até adquirimos consciência através das sucessivas reencarnações em corpos materiais até evoluirmos para Seres Superiores (Espíritos de Luz).
    Infelizmente, este é um assunto sobre o qual as pessoas se recusam a falar e até a pensar. Elas têm medo, horror mesmo do desconhecido e isso leva ao comodismo de aceitar as explicações burlescas dos religiosos inclusive de que quando se sofre é por que o deus pai gosta muito de nós e está nos pondo a prova para ver nossa o grau de nossa fé. Esta é a desculpa que os religiosos têm par justificar a miséria humana. Como psicanalista posso assegurar que esta é uma atitude de transferência dos nossos pais biológicos que nos protege quando criança para um pai mais poderoso que nos protegerá quando adultos. Recebi um E-mail que trazia uma lenda cherokee da iniciação de um jovem ao estado adulto. Nela ele ficava de olhos vendados a noite toda a mercê de toda sorte de perigos, mas ao acordar e tirar a venda dos olhos viu que seu pai estava ao lado dele o tempo todo. Comparava a mensagem a Deus nos protegendo. Respondi então: Se Deus está ao nosso lado, por que então ele não protege seus “filhos” como o pai do índio e evita tanta desgraça, tanto assassinato no meio do mundo. Esta é a razão pela qual nossos antepassados tomaram os extraterrestres que assomaram em nosso céus como deus e sua comitiva de anjos que vieram trazer justiça à Terra, fazendo prosperar os bons e aniquilando os maus, imagem esta bem retratada nos textos bíblicos e que perdura até hoje, mas o Infinito não pode se reduzir ao finito (aspecto humano). Assemelho esta condição a de dois personagens lendários de nossa história. O primeiro chamado de Bartolomeu Bueno da Silva vendo as índias ricamente adornadas com chapas de ouro procurou saber sua procedência. Como ela se recusaram a lhe informar ele pôs fogo a uma tigela contendo aguardente, afirmando que, se não lhe desse a informação lançaria fogo em todos os rios e fontes. Com medo, os índios informaram o local e o apelidaram de Anhangüera (em tupi, añã’gwea), diabo velho. O outro persongem é Diogo Álvares Correia que recebeu o apelido de Caramuru (palavra tupi que significa lampreia) ao afugentar indígenas que o queriam devorar, matando uma ave com um tiro de arma de fogo. O náufrago português foi bem acolhido pelos índios Tupinambás que o chefe deles, Taparica, lhe deu uma de suas filhas.

    Pedro Cabral Cavalcanti – pcabralcavalcanti@gmail.com

    • Karl disse:

      Olá, Pedro. Interessante seu comentário. Entretanto, tive que editá-lo. Por razões contratuais, não posso divulgar produtos comerciais (livros, medicamentos, etc), ok? Obrigado pela sua compreensão e pelo comentário.

    • Raphael Cordeiro disse:

      O Universo não é infinito, mas está em expansão.

      Não descarto a teoria da criação do universo através do Big Bang, mas todos tem que concordar que tanta matéria e energia vieram de algum lugar.

      Sendo Deus a fonte de tudo, Ele poderia muito bem controlar uma imensa quantidade de matéria, utilizando uma quantidade de energia, para nós, inimaginável, comprimindo tudo num único ponto. O resultado? Uma imensa explosão, dispersando toda aquela matéria e energia, algo que ainda hoje acontece. “No princípio criou Deus os céus e a terra”, ou seja, o espaço e a matéria. “A terra era sem forma e vazia”, como Moisés, há mais de 3000 anos atrás poderia saber o quão sem forma são os corpos celestes?

      A expansão do universo foi teorizada por Einstein, tendo sido provada.

      Fiz uma busca rápida num app da Bíblia e encontrei uma única referência a Deus existir, mas ao analisar o contexto podemos ter o significado apontado no texto: “Talvez haja apenas uma só chance de Deus existir de fato. Isso ocorre quando Ele se manifesta, vem a ser, dentro do próprio indivíduo que Nele crê.”

      Agora, imagine um pai que tem dois filhos: O primeiro criou “a rédeas curtas”, com regras que teria que seguir, não para não ser castigado, mas simplesmente para evitar que algo ruim aconteça com ele, como por exemplo: Não volte tarde da casa do seu amigo. O filho pode entender: Meu pai não quer que eu me divirta. Mas a verdade é que o pai está preocupado com o fato do filho estar exposto aos perigos de andar tarde na rua. Mas, ainda assim, vê seu filho rebelde, o desobedecendo e o negando.

      Com seu segundo filho faz diferente. Se faz semelhante ao pequeno e, para cada ação errada de seu filho, ele mostra em si mesmo um exemplo de como as coisas poderiam ser diferentes. Ele espera agora um filho que o ame mais do que o tema.

      Deus escolheu um povo para ser seu (o que ainda hoje é). Infelizmente este povo errou e se afastou do Criador. Deus então se fez como nós, pequenos humanos. Deus encarnado recebeu o nome de Jesus (ou Yeshua no hebraico). Nos mostrou algo diferente, mesmo vivendo como um humano não pecou nenhuma vez, tendo assim um povo que o seguiria por amor.

      Deus errou com o povo que escolheu? Absolutamente não! A escolha deste povo foi a mesma de Adão: errar. Deus sempre se mostrou o caminho a ser escolhido para se afastar do pecado. “Um abismo atrai o outro”, e com isso um pecado atrai o outro.

      Não é Deus quem pune ou deixa o homem ser punido. Ele apenas é fiel à sua própria palavra: “Se comer deste fruto, certamente morrerá”.
      Não “passa por cima” do livre-arbítrio humano: se o homem quer se matar assim acontecerá, mas se for à Deus, será salvo.
      E, mais importante de tudo: Ele é infinito, onipotente e Eterno.

      Desculpe qualquer coisa, mas escolhi não me calar desta vez.

  3. […] aliás. Se o infinito é muito difícil de ser pensado e dito (lógos), ao colarmos seu conceito ao “verbo” teremos um ser invencível que, além das vantagens imateriais de sua impronunciabilidade, será a origem e a causa de tudo […]

  4. Anaximandro disse:

    Está escrito no artigo: “Deus não existe. Nem poderia jamais ter existido. Pelo menos do ponto de vista linguístico. Existir vem do verbo latino ex-istere e significa “sair de”, “manifestar-se” tomando um sentido de “vir a ser”. Existir, portanto, não pode ser uma característica do Deus monoteísta. Ele jamais poderia ter vindo a ser em determinado momento porque, nesse caso, não seria eterno”.

    No entanto, o vácuo quântico, que deu origem ao Universo e o sustém, existe sem nunca ter vindo a ser.

    P.C.:
    https://www.youtube.com/watch?v=k9Ru91eEt4k
    https://www.youtube.com/watch?v=enbUz92Tchk
    https://www.youtube.com/watch?v=ABZ8rrDMc54

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