Slow Doctoring

 

É mais um manifesto. Depois do Slow Food, do Slow Blogging, Slow Thinking, entre tantos, chegou a vez do Slow Doctoring. O Slow doctoring é uma proposta de relacionar tempo e prática médica. Expus minhas vivências sobre tempo e de como acredito que ele seja intrínseco a cada pessoa. Se assim de fato é, uma consulta, visita ou qualquer interação onde se dê a relação entre um médico(a) e um(a) paciente é, também, uma relação entre vivências de tempo diferentes. Há uma percepção geral de que os médicos não têm muito “tempo” para seus pacientes. Um slowdoctor é um sincronizador dos tempos: aeônicos médicos e khrônicos dos pacientes.

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Slow Doctoring é ouvir. P a c i e n t e m e n t e. É confiar, estimular e aprender a construir uma narrativa do paciente. Você, além de se divertir, certamente se surpreenderá com isso.

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Slow Doctoring é a rejeição da filosofia do “Quebrou-Conserta” vigente na medicina contemporânea. Nada contra os ortopedistas, por favor. O problema é esse tipo de filosofia que passou a ser regra e vem sendo aplicada onde não seria necessária. Exemplo, dor no peito = cateterismo = stent-em-tudo-quanto-for-obstrução. “Quebrou-conserta”.

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Slow doctoring é entender que alguns diagnósticos só vem com o tempo e que para isso, é preciso ter o tempo como amigo e que ele, não é muito fácil.

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Slow doctoring é desobjetivar a medicina. Ela, menina dos olhos de Platão e Aristóteles, ficou moça com Descartes e Bacon e parece ter casado com Adam Smith. Para entender o humano não basta quantificá-lo, é preciso ser humano também, a maior das empatias.

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Slow doctoring é entender que atrás de sua caneta existe um arsenal gigantesco e extremamente agressivo de exames, tratamentos clínicos ou cirúrgicos capazes, hoje, de virar seu paciente literalmente do avesso e encontrar, não só doenças potencialmente tratáveis, mas também pseudodoenças cujo “tratamento” é, em si, a maior de todas as doenças: iatrogenia. Um carimbo em cima disso não endossa o ato.

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Como corolário do item 5, slow doctoring é domar a tecnologia médica e não deixar que ela dome você. Muito da “velocidade necessária” da prática é o médico a serviço da tecnologia e não do paciente. Evitar confundir medicina com tecnociência para não correr o risco de ser cientista em exercício ilegal da medicina.

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Slow doctoring é entender o lead-time bias e suspeitar dele. Sempre. Truque dos deuses siameses.

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Questionários são para quem não quer conversar. Assim como algoritmos e diretrizes são para quem não quer (ou não pode) pensar.

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Reconhecer que algumas vidas chegam ao fim e que a morte não é, de longe, a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa.

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“Se eu quiser diagnosticar um paciente, tenho que conhecer toda sua fisiologia ou fisiopatologia de sua doença. Se eu quiser tratá-lo terei de conhecer a farmacologia e a farmacodinâmica de suas medicações, riscos e benefícios de seus procedimentos. Se eu quiser cuidar dele, o que inclui convencê-lo de utilizar as medicações e submeter-se aos procedimentos, tenho que compreendê-lo como uma totalidade. Se eu quiser curá-lo ou aliviá-lo de seu sofrimento, serei seu médico, e para isso, tenho que respeitá-lo antes de qualquer coisa”. Por isso, ser médico de alguém dá muito trabalho e isso consome tempo.

PS. Deve haver mais algum. Mas 10 é um número bonito.

Discussão - 4 comentários

  1. Seu texto me lembrou um trabalho/projeto que fiz a muito tempo atras com um psiquiatra do Hospital das Clinicas de BH. Na epoca eu desenvolvia pesquisa na area de processamento cognitivo e utilizava como aporte teorico a Teoria dos Espacos Mentais (coisa de semiotica cognitiva…). Mas o ponto foi explorar as vantagens cognitivas (e medicas) da estrutura das narrativas entre medicos e pacientes. Foi um trabalho bem bacana (e TIME-consuming, oops) que so abandonei por causa da demandas do doutorado!

    Sobre o ponto 8, toda vez que vou a um consultorio medico aqui nos Estados Unidos, eu preencho 214.654.123 questionarios, converso com 123.454.314.345 enfermeiras e gasto 3 minutos com o medico mesmo — e que geralmente gasta 2 minutos dos 3 lendo os questionarios que respondi. Recentemente notei a mesma coisa em uma clinica veterinaria. Levei meu cachorro que rompeu o ACL a clinica e conversei com 3 enfermeiros antes do veterinario. Ele (o veterinario) so entrou na sala para dizer quanto custaria a cirurgia no cao.

    No mesmo ponto, ao inves de dizer que “algoritmos e diretrizes sao para quem nao sabe pensar”, eu talvez diria “nao questionar/entender algoritmos e diretrizes eh para quem nao sabe pensar’. Criar algoritmos e diretrizes eh algo cognitively-intense, se entendi direito! 🙂

    Bacana o texto, viu! Desculpe pela fala de acentos. Eu digitei de pe! lol 🙂

  2. Fabiana disse:

    André, excelentes comentários!
    Lendo, me lembrei de uma experiência que tive quando morei nos US em 2001. Tinha me esquecido dos detalhes – é, a memória é mesmo seletiva… Estava (re)começando um doutorado na University of Maryland (já estava no meio do meu na USP qdo resolvi morar nos US) e tinha ido visitar uma amiga numa outra cidade. Era sábado, 8 de setembro (de 2001, veja só!). Desci do ônibus com a mala nas costas e fui atropelada atravessando a rua numa faixa de pedestres, com o sinal aberto para mim. Resultado: direto pro Pronto Socorro local. Nada quebrado, mas sangrando e machucada. Olha – foram MESES de questionários. Nenhum médico olhava para mim mais do que 3 minutos. Vc tem TODA a razão…

    Doc, vc viu que, além do “Slow Food, Slow Blogging, Slow Thinking” (acho que o “Slow Blogging” é bem a minha praia, né, bota slow nisso 🙂 ), tem também o movimento do Slow Science (que eu, particularmente, apoio com todas as forças do meu serzinho…)? Checa só:

    http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/956065-slow-science-prega-pesquisa-cientifica-em-ritmo-desacelerado.shtml

    O mais doido de tudo é que, voltando ao link hoje, há lá o resultado de uma enquete que pergunta: “vc concorda com esse movimento?” Espia o resultado…

  3. Georg Tuppy disse:

    Caro Karl, vc conseguiu “pegar na veia”. Como velho clínico caipira venho há tempos matutando sobre nossa profissão e como ela esta sendo exercida na atualidade. A desumanidade, a não percepção de que o que nos faz médicos é o paciente e que dependemos dele essencialmente para sermos quem somos, se tornaram habituais na prática médica. Como vc diz “Para entender o humano não basta quantificá-lo, é preciso ser humano também, a maior das empatias.”
    Eu dependo dos outros para ser reconhecido como humano e tb como médico.
    A pergunta que me faço é : como levar esta consciência a cada um dos colegas , ou pelo menos a um nº expressivo deles?
    Mais uma vez parabéns por sua sensibilidade e percepção.
    Abçs. Georg

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