As Deformações do Ver

Viajando de carro por uma estrada cercada de vegetação exuberante.

Filho: “Vai demorar muito, Pai?”

Pai: “Acho que mais 1 hora.”

Filho: “Uma hora! Que chato! Não aguento mais “tipo” ficar no carro…”

Esse diálogo repetiu-se por 3 vezes com intervalos cada vez menores e variações regressivas na estimativa de chegada do grande, assim como nas interjeições de extremo enfado do pequeno, acercadas de “tipos” por todos os lados. Foi quando o pai resolveu jogar sujo.

Pai: “Filho, o que você acha dessa floresta?”

Filho: “Bonita, ué. Por quê?”

Pai: “E de que cor ela é?”

Filho (espantado pelo retrovisor): “Verde, ora. Como assim?”

Pai: “Verde. Mas como eu sei que o verde que você vê é igual ao verde que eu vejo?”

Filho: “Porque é.”

Pai: “Como você sabe? E se o que nós chamamos de verde for, digamos, um tipo de vermelho pra você que desde bebê achou que aquilo era um verde e ficou por isso mesmo?”

Filho (começando a sentir o efeito): “Só um nome?”

Pai (com um olho no retrovisor onde vê o menino com o olhar perdido pela janela do carro e o outro na mãe que com as sombrancelhas fletidas expressava uma certa reprovação pelo conhecido golpe baixo): “Isso. Só um nome” – tirando uma das mãos do volante, para apontar o céu com o indicador.

Entrando numa pequena estrada.

Filho: “Mas, então. Tipo… Mas o que isso afeta (verbo utilizado por crianças habituadas ao game Pokémon da Nintendo dado que determinados golpes não afetam o oponente, no sentido de diminuir sua energia vital, p.ex. golpes de água afetarão pouco pokemons aquáticos que, por sua vez, são bastante afetados por golpes de fogo e assim por diante)?”

Pai (Pensando: “Maldito moleque pragmático! Puxou a mãe!” Esta não conseguiu evitar que sua boca se deslocasse leve e charmosamente para direita. Ele conhecia aquele sorriso. Mantinha os olhos na estrada, um pouco mais perigosa e movimentada agora. A floresta havia dado lugar a casinhas e pequenas propriedades): “Isso ‘afeta’ que cada um de nós tem um jeito de ver as coisas.” (seja o que Deus quiser, pensou de novo).

Filho: “Mas, Pai… (mudando o tom enfezado e esboçando um certo cansaço pelo esforço de abstração)… E meus desenhos?”

Acabando de entrar numa estrada de terra com pedregulhos que, ao atingir o chão do carro, soavam como o inverso de uma chuva seca.

Pai: “Que é que tem seus desenhos?”

Filho: “Se eu desenho o que eu vejo, a pessoa que olha, tipo, vê o quê? O que eu vi?”

Foi quando uma voz feminina aveludada e calma disse, em bom sotaque português: “Chegando ao seu destino”.

Discussão - 6 comentários

  1. João Carlos disse:

    hehehe… Sabe que eu sempre me perguntei a mesma coisa?

  2. Kentaro Mori disse:

    Muita gente pensa que daltônicos “trocam cores” — referência é sempre o Yahoo Respostas:
    http://www.google.com.br/search?q=+site%3Abr.answers.yahoo.com+daltonico+troca+cores

    Mas se este fosse o caso, um daltônico não teria problema para dirigir ou combinar cores!

    O fascinante é que isso se relacionada tanto com a retina — e existem pessoa tetracromatas:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Tetrachromacy
    — quanto com o próprio cérebro.

    Em japonês, “azul” e “verde” podem ser expressos pela mesma palavra, já em russo existem palavras diferentes para tons de azul, e isso afeta a forma como as pessoas enxergam as cores.

    E cores são apenas parâmetros mais fáceis de perceber e entender essas diferenças de percepção… cada um vê o mesmo desenho de forma bem diferente.

    • Karl disse:

      João, acho que todo mundo já pensou isso. Espera que vem mais coisas sobre a “Deformação do Ver” (e não da “visão”).
      Kentaro-san, me interessou muito essa história do japonês azul e verde terem o mesmo Kanji 青. Interessante é que várias outras línguas também fazem a mesma confusão(?). Isso me fez linkar no texto a página da Wikipedia que discute isso de forma sensacional. Por outro lado, “E cores são apenas parâmetros mais fáceis de perceber e entender essas diferenças de percepção… cada um vê o mesmo desenho de forma bem diferente.” Obrigado, hehe.

  3. […] Como pode ser visto, as faixas laranjas não cruzam algumas espirais verdes e as faixas rosas, não cruzam outras. Intercalando esse efeito, temos a figura 1 acima com suas “três” cores de espirais. A explicação desse fenômeno começa no fato de que o olho humano percebe o espectro de cores usando uma combinação de informações vinda de células da retina chamadas de cones e bastonetes. Os bastonetes são mais adaptados a baixa luminosidade e especializados em detectar a intensidade da luz. Os cones, por sua vez, ao detectarem intensidades maiores de luz, são capazes de disparar impulsos de acordo com comprimentos de ondas diferentes, em outras palavras, podem discernir cores. Veja na figura 4 abaixo, os três tipos de cones retinianos, cada um especializado em comprimentos de luz diferentes correspondendo aos espectros de azul, verde e vermelho. Repare como o espectro de captação, aqui normalizado para intensidade, do vermelho e do verde se sobrepõem. […]

  4. […] isso, quando um pintor como Cézanne faz a pergunta da criança “se eu desenho o que eu vejo, a pessoa que olha, tipo, vê o quê? O que eu vi?” a resposta vem na forma de uma sabedoria profunda. É como se perguntasse “quando em conto a […]

  5. […] fosse primordial e anterior às interpolações cerebrais que faço ao ver/interpretar uma imagem. Fez um desenho de como via as coisas e pediu que víssemos como ele via. Não sei se conseguiu e jamais o saberemos. Entretanto, é possível que ele tenha conseguido ao […]

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