O Sherpa Subterrâneo

Caspar Friederich - O andarilho

A melhor forma de aproximar-se de um “conhecimento” e operacionalizá-lo de modo a poder emitir juízos com valor de verdade sobre ele é, na minha opinião, escalar-lhe os caminhos montanhosos de suas várias faces dotados das “ferramentas” que nossa condição humana permite. Ciência, literatura, filosofia, artes, são formas de captar o que nos cabe da coisa-em-si humana. Argue-se que um desequilíbrio axiológico em relação ao que representa uma verdade científica e uma literária ou pictórica, pode inviabilizar essa discussão, como a disputa entre o rochedo e o mar. Muito foi escrito sobre isso e tal debate está mesmo na base de uma teoria da verdade que tem na ciência seu modelo mais bem acabado. Por isso, é possível concordar com Albert Levi quando ele diz que “mesmo nossas armas foram roubadas”, pois ao tentar atribuir verdades a obras literárias, p.ex., as julgamos com os “juízes da ciência”.

Esse assunto me é bastante caro como pode ser notado por sua recorrência nesse blog, mas me justifico. Se a medicina não deve ser confundida com a ciência médica – um de seus pilares de sustentação – é porque o paciente não pode ser reduzido à fisiologia, fisiopatologia e farmacologia de suas agruras. Qualquer médico que não seja um cientista em exercício ilegal da profissão sabe que a ciência médica não dá conta do todo de seus pacientes. Adoecer é uma forma de ser-no-mundo que pode ser entendida de várias maneiras. Se assim é, deve haver outros caminhos que conduzam às verdades deste ou daquele pacientes individuais. Mas que caminhos? Perdemos a inocência quando descobrimos o viés. Tais individualidades assemelham-se mais a idiossincrasias sem padrões definidos, a um labirinto no qual não se trilha o mesmo caminho duas vezes.

A nós, médicos de um tempo em que a informação e sua velocidade viral formam a tessitura do real que nos afeta, resta conhecer as outras faces da montanha que constituem um paciente de carne e ossos. Como se não bastasse as centenas de artigos, livros e prática árdua e incessante que visam a resposta à pergunta “o que é?”, ao médico ainda urge a indagação abissal: “quem é esse ser que sofre?” Do que é ele constituído e como esse “material” afeta seu ser-no-mundo? Ah, há ainda o mundo…

Compreenderia melhor se eu sentisse as dores que sentem? Se sentisse a falta de ar que sentem? Acolheria melhor se me acometesse o medo que os acomete? Mestre da interpretação dos signos, sou o mero usuário de um programa escrito pelo paciente no que se refere a este “lado oculto da montanha”. Esse programa, construído ao longo de toda sua vida com a vasta riqueza que flui do contato entre humanos e suas humanidades, me ilude e confunde. Eu precisava “falar” a linguagem de máquina subjacente a esse software. (E não me venham com a psicanálise! Também ela, software. E, ainda pior, metalinguistico).

Foi então que entendi que não estavam nas alturas as minhas respostas. De fato e ao contrário,  precisava de algo como um sherpa subterrâneo, senhor dos caminhos intrínsecos de seu próprio ser. Precisava de um super-paciente com poderes de expressão além do homem que pudesse levar-me ao nível primitivo de sua constituição primordial. Que me conduzisse à crueza e à violência de seus impulsos mais básicos para eu então ver, com meus próprios olhos, onde está a semente que se desdobra em doença lá em cima, lá na superfície revolta e poluída das convenções sociais onde se dá o fatídico encontro. Mas, um paciente assim subverte o equilíbrio de forças na relação com médico subvertendo também, a própria medicina. Ao médico é necessário deixar-se sequestrar por ele o que não acontecerá se ele não tiver a consciência do querer. O médico é treinado para não fazê-lo e, se for bom, não o fará de fato. A única alternativa possível então, é abandonar a arena de embate onde se dá o contato com o paciente e procurá-lo em outros lugares sem deixar de “estar” médico sob o risco de perder o olho clínico que o identifica. E onde encontrá-lo? Antes, onde procurá-lo?

Se consideramos, como acima, outras formas de obtenção de “verdades” com todos os problemas que disso possam decorrer, temos que procurar pelos grandes mestres e por seus vestígios patológicos. Ora, quem dentre os humanos domina a linguagem das artes? Quem dentre nós traduz melhor seus interstícios mais febris em quadros, poesias, livros, esculturas, personagens, música e todas as manifestações do espírito humano? Como é quando um gênio das artes escreve, pinta, compõe, representa, sobre suas doenças ou sobre a forma como percebe as doenças? Ao conceber uma obra de caráter universal, um artista contribui para o corpus cultural da humanidade, criando novos gostos, novas formas de subjetivação, novas formas de ser-no-mundo e com elas, novas formas de adoecer. E o ciclo se fecha.

Por isso, quando um pintor como Cézanne faz a pergunta da criança “se eu desenho o que eu vejo, a pessoa que olha, tipo, vê o quê? O que eu vi?” a resposta vem na forma de uma sabedoria profunda. É como se perguntasse “quando eu conto a você a dor que sinto, o que é que você sente?”

ResearchBlogging.orgLevi, A. (1966). Literary Truth The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 24 (3) DOI: 10.2307/427972

Discussão - 18 comentários

  1. Fabiana disse:

    Vou dividir com vc um trecho da (proposta de) tese que me deixou calada, a uma semana atrás (estranho, né, como quando a gente faz uma pergunta in-sis-ten-te-mente, vem uma resposta de um canto jamais esperado…). Sobre Deleuze e Guattari:

    “A filosofia e a arte enfrentam o caos, mas não fazem o mesmo corte nem o povoam da mesma maneira: ‘aqui constelação de universo ou afectos e perceptos, lá complexões de imanência ou conceitos. A arte não pensa menos que a filosofia, mas pensa por afectos e perceptos.’ (DELEUZE; GUATTARI, 1997d, p.33).
    O filósofo é a afirmação de um ‘eu penso’ e o artista, por sua vez, tem a ver como o “eu sinto”. Quanto o artista capta um pensamento, uma ideia, ele traça um recorte, um plano de composição. E, nesse plano, cria: o pintor, seus quadros; o escritor, seus escritos; o diretor de cinema, seus filmes… Diferentemente do filósofo, que trabalha com conceitos, o artista lida com a força das sensações e cria um bloco que conserva e se conserva: “num romance ou num filme, o jovem deixa de sorrir, mas começará outra vez, se voltarmos a tal página ou a tal momento.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997d, p.213). A arte conserva o sorriso, independentemente do artista que a criou, independentemente do modelo de que se serviu, independentemente dos seus espectadores, que se limitam a experimentá-la. “O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afectos.” (DELEUZE & GUATTARI, 2007, p.213). Estes, os perceptos e os afectos, mais do que sentimentos, afeições e percepções, constroem um monumento, segundo esses autores, que se mantém em pé sozinho: a obra de arte.
    Para se fazer filosofia, a imanência deve ser traçada, personagens conceituais devem ser inventados, e o conceito deve ser criado. Não sendo assim, não há filosofia.
    E, por sua vez, para fazer arte, há de se traçar um plano de composição, inventar personagens estéticos, e criar um monumento. Não sendo assim, não há arte.”

    (o texto é de Davina Marques)

    Não entendo nada de Deleuze, e muito pouco de Filosofia, vc sabe. Mas não é incrível, isso? “A arte conserva o sorriso”…?
    A Mona Lisa que o diga…

    Beijo. Bom dia 🙂

    • Karl disse:

      Vou ser obrigado a discordar desse bonito texto. Afirmar que o filósofo é a afirmação do “eu penso” e o artista, por sua vez, do “eu sinto”, é derrapar cartesianamente. É admitir que essas atividades são paradigmáticas de modos de ser humanos dualistas, mente-cérebro, corpo-alma, filosofia-pintura, etc. Deleuze e Guattari não pensam assim. Veja só: “A arte não pensa menos que a filosofia”. “O plano de composição da arte e o plano de imanência da filosofia podem deslizar um no outro, a tal ponto que certas extensões de um sejam ocupadas por entidades do outro.” (DELEUZE, G. 2000, “O que é Filosofia?” p. 89). É isso. Tudo isso é “pensar”, pois é uma atividade cerebral superior.

      Não. Pergunte à moça se ela tem um corpo. Se responder que sim (e não colecionar cadáveres!), peça para ela reescrever tudo com a seguinte frase na cabeça: “Eu sou um corpo”.

      • Davina disse:

        Entrando no jogo…
        Obrigada pelos comentários sobre o meu texto, K. Sim, lendo apenas o material recortado posso até ser criticada de “cartesiana”! eheheh E vou reescrever.
        Porém, preciso explicar, o meu objetivo nesse trecho da tese era trazer o conceito de plano de composição para a discussão, e fiz isso a partir de plano de imanência, defendendo a importância da criação. Aliás, a primeira frase desse bloco é exatamente: “Uma das palavras mais importantes na obra deleuziana é a criação: o filósofo cria, o cientista cria, o artista cria.” E, mais adiante: “Deleuze e Guattari consideram a arte e a filosofia como potências do pensamento. Como já vimos, o plano de imanência é da filosofia. A arte opera em um plano que eles denominam de plano de composição. Tanto um como outro se opõem à ideia de formação, de desenvolvimento.” E o próprio capítulo começa com a advertência: “Quando se trata daquilo que Gilles Deleuze escreveu, só podemos separar os conceitos didaticamente.”
        Os termos “eu concebo”, “eu sinto” e “eu funciono” são da tradução de O que é a filosofia? (p.271 e 275, por exemplo), mas percebo em meu texto uma falta, a ausência de “cérebro”[– eheheh – não é piada] (que para você pode ter soado como um destaque ao contrário para uma noção de “sujeito”, afinal, na redação temos uma “afirmação” do “eu” penso, “eu” sinto… credo! (em todas as definições da palavra). Essas palavras e as coisas… eheheh “A linguagem É a discussão”(sua, de 03 de fevereiro). De Deleuze e Guattari:

        “É o cérebro que diz Eu, mas Eu é um outro. Não é o mesmo cérebro que o das conexões e integrações segundas, embora não haja transcendência. E este Eu não é apenas o “eu concebo” do cérebro como filosofia, e também o “eu sinto” do cérebro como arte. A sensação não é menos cérebro que o conceito.” (p.271)

        Sim, é pensar, é pensamento. Citando novamente D e G:

        “O que define o pensamento, as três grandes formas do pensamento, a arte, a ciência e a filosofia, é sempre enfrentar o caos, traçar um plano, esboçar um plano sobre o caos. (…) Isso não implica, contudo, que a arte seja como uma síntese da ciência e da filosofia, da via finita e da via infinita. As três vias são especificas, tão diretas umas como as outras, e se distinguem pela natureza do plano e daquilo que o ocupa. Pensar é pensar por conceitos, ou então por funções, ou ainda por sensações, e um desses pensamentos não é melhor que um outro, ou mais plenamente, mais completamente, mais sinteticamente “pensado”. (…)
        Os três pensamentos se cruzam, se entrelaçam, mas sem síntese nem identificação. A filosofia faz surgir acontecimentos com seus conceitos, a arte ergue monumentos com suas sensações, a ciência constrói estados de coisas com suas funções.” (p.253-4)

        Bem, agora, respondendo…, eu estou um corpo – ehehehe, um corpo que vibra em conexões com pensamentos da arte, da filosofia e da ciência. A boca que fala vem daí (sua, 03 de outubro/2008). E concordo que “ciência, literatura, filosofia, artes, são formas de”, mas não de “captar” (claro, deixando de fora a discussão iniciada em 17 de janeiro sobre a coisa-em-si – eheheh). Fico com D e G, são formas de recortar o caos, de pensar e de lidar com planos recortados. Se “adoecer é uma forma de ser-no-mundo”, essas três potências do pensamento (arte, filosofia e ciência) podem exercer uma função saúde, não biopolítica, de controle, de disciplinarização, mas de possibilidades de re-existências, não acha?
        Imagino que possa chamar isso de “questão de fé”, mas não se trata disso nem de utopias. Acontece que não dá pra desprezar o que o pensamento é capaz de construir. Eu trabalho com literatura, com cinema, com filosofia, sempre tangenciando grandes áreas, e me encanto com os monumentos e os conceitos que construímos.

        A pergunta “quando eu conto a você a dor que sinto, o que é que você sente?” deveria pairar como um lembrete acima de nossas pobres cabeças nem sempre pensantes, nas salas de aula, nos consultórios médicos, nas ruas, em nossas casas…

        Obrigada novamente.
        E muito prazer! Beijo!
        Davina

        • Karl disse:

          É neste sentido que se diz que pensar e ser são uma só e a mesma coisa.
          G. Deleuze & F. Guattari. “O Que é Filosofia?” pág 54. Editora 34

          Davina,

          Você É um corpo. Você citou, citou e concluiu “eu estou um corpo […], um corpo que vibra em conexões com pensamentos da arte, da filosofia e da ciência. A boca que fala vem daí.” Essa é a boca de outrem! Essa “cerebralização” dos monumentos – conceituais, funcionais ou artísticos -, é um fio de navalha para cairmos na armadilha cartesiana. Eu acho, para falar a verdade, esse negócio do plano de imanência no D&G (não é Dolce & Gabana, hein!) um pouco confuso. Porque, pensei, um plano para ser considerado imanente, de cara, já pressupõe a própria transcendência, não? Aí, lá na pag 62 eles avisam:

          Mas um risco de confusão surge muito rápido: em vez de o plano de imanência, ele mesmo, constituir esta matéria do Ser ou esta imagem do pensamento, é a imanência que seria remetida a algo que seria como “dativo”, Matéria ou Espírito.

          Ou seja, cada vez que utilizamos uma “imanência-para” confundimos o plano com o conceito de imanência e ele se torna um universal transcendente, veja só. “Assim mal entendido, o plano de imanência relança o transcendente”. Foi exatamente isso que entendi de seu texto. Mais lá na frente, eles ainda enumeram os “4 erros do plano” e isso se encaixaria no primeiro. Será que não há uma aporia nesse raciocínio pelo fato de utilizarmos o plano de imanência para outra coisa que não o filosofar? Aí, eu já não dou conta de pensar isso com você e precisaríamos de algum especialista neste tipo de raciocínio.

          “Se “adoecer é uma forma de ser-no-mundo”, essas três potências do pensamento (arte, filosofia e ciência) podem exercer uma função saúde, […], mas de possibilidades de re-existências, não acha?” Acho. Os hipocráticos também. A filosofia surgiu como “a medicina da alma” e vice-versa. Meu ponto, raison d’etre do post, é o überpatienten capaz de manipular tais “potências” e me guiar no plano de imanência, de tal forma, que me habitue à luminosidade intensa de ver/ser o outro.

          Obrigado pelo comentário e o prazer foi meu.

          • Fabiana disse:

            To adorando ver vcs dois conversando…

            O prazer é todíssimo… meu! 😉

          • Fabiana disse:

            Ah, só mais uma coisinha. Andei pensando. Eu *sou* um corpo (pelo menos euzinha…). Sou sim. Não “estou” não. Seja lá o que isso quer dizer 🙂

          • Fabiana disse:

            Hm. Mais uma coisa. É uma pergunta, não uma provocação: eu não sei mesmo. Será que o piano de imanência deleuziano poderia ser entendido, não como algo oposto a uma transcendência, mas como uma espécie de… “plano de latência”? Algo como um conjunto muito amplo de possibilidades, no (ou do) qual eventualmente se recortassem algumas formas e combinações? Nesse sentido, ele também estaria ligado à ideia de transcendência? (Me parece que não diretamente, nesse caso.) Que que vcs acham?

          • davina disse:

            Bom dia!
            Cá estou novamente, “presa fácil” de seu blog-máquina-de-envio-de-sinais-anzois. Você lança a linha, eu sei que é possível armadilha de pensar-escrever, e irresistivelmente me lanço ao jogo. De novo.
            Li seu auto-retrato e seu sobre outro dia e é bacana ver o seu movimento de criação, de arte-engenho, do médico na relação com sua atividade diária. Você pretende criticar, em seu espaço de provocar pensamento, a crise da sua profissão, esse esgotamento ético, a tecnologização da prática médica, a redução da medicina à ciência médica e desta à tecnologia, o próprio conceito de doença e a postura do médico contemporâneo com suas certezas, seus deslizes, suas angústias. Pra mim, quando faz isso, criando pensamentos, você trabalha filosoficamente, construindo-os e traçando um plano de imanência. Transcendente seria a ideia de um médico todo poderoso, dos saberes super valorizados, representante de uma ciência-tecnologia rendida a interesses que muitas vezes se esquecem do homem-médico e do homem-paciente, este pacientemente esperando uma resposta de um deus.
            Você faz a crítica ao médico e também ao homem adoecido, a uma sociedade adoecida. E busca fazê-lo na concretude dos problemas que surgem para você. Entendo que este é um trabalho em imanência (do ponto de vista filosófico), principalmente porque você não parece estar interessado em soluções universais para todos os médicos e todos os pacientes.
            Você já tem o recorte (o plano), já tem o personagem conceitual (seu sherpa), falta “só” criar o(s) seu(s) conceito(s)… K. em devir-filósofo! Eheheh

            Você escreveu: um plano para ser considerado imanente, de cara, já pressupõe a própria transcendência… Talvez…, se você, como filósofo, for “tomado” pelo problema da transcendência. Nesse caso, ela precisa ser “suposta”, para que seja possível um pensar outro. Para mudar o que significa pensar, retoma-se o que se pensou antes. Não é assim? A transcendência não precisava nem precisa ser inventada, já está aí desde… os gregos?? Eu acho o máximo pensar que o plano de imanência de Platão, por exemplo, “cria” a transcendência.
            Mas penso que você tem razão: eles (D &G) falam do fazer filosófico, de uma imagem do pensamento.
            Deleuze e Guattari fazem exatamente a crítica a uma filosofia como reflexão sobre algo, a uma filosofia que se pretende história (da filosofia), de uma filosofia que seja caminho para alcançar algo que já está lá a priori – no campo das Ideias, lá longe (sim, na transcendência). Eles querem (re)afirmar que o que ela é mesmo é criação. E a criação vai se dar em um plano “traçado”, que permitirá a criação do(s) conceito(s) filosófico e de personagens conceituais.
            Pra mim, é exatamente esse pensamento conectivo, criativo, que fascina, atrai e põe a pensar. E eu, máquina desejante, agenciando escritas em um blog, sou forçada, violentada, a pensar.
            E me toca voltar à tese e ler O que é a filosofia? de novo, e pensar com o corpo. Ehehehe E reescrever!

            A propósito de imanência, você conhece o texto do Bento Prado Jr.? É bem legal. (PRADO JR., Bento. A ideia de “plano de imanência”. In: ALLIEZ, Éric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. Coordenação de tradução de Ana Lúcia de Oliveira. São Paulo: Ed.34, 2000, p.307-322.)

            O que é que me “fisga”? Sou, pisciana, apanhada pela boca. eheheh. É exatamente a boca de outrem, que me faz desejar viver-pensar o que me “afeta”. O que você anda escrevendo me coloca em movimento, com vontade de continuar escrevendo com você (pena estar envolvida em outras conexões neste momento – daí demoro a voltar e a coisa fica compriiiiiida). Na sua boca, na sua escrita, não ouço-vejo um médico buscando respostas em/para um ser único, transformado em universal, em um doente aparato fisio-anatômica-químico. O sherpa tem/teria uma singularidade e uma multiplicidade que faz com que você se pergunte se esse super-paciente conseguiria levar às últimas consequências o que você quer dizer. Seria possível incorporá-lo, absorvê-lo, segui-lo até as entranhas de seu sofrimento?
            Talvez não. Mas ainda assim, ele não é um robô, mesmo que artisticamente ele se aproxime da ficção científica. Um sherpa subterrâneo pode dar a ver, a pensar, a seu médico-artista-filósofo… e a seus leitores.
            ….
            Escrita-ficção…
            Não consigo deixar de citar Deleuze em Diferença e Repetição (Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006)…

            Um livro de Filosofia deve ser, por um lado, um tipo muito particular de romance policial e, por outro, uma espécie de ficção científica. Por romance policial, queremos dizer que os conceitos devem intervir, com uma zona de presença, para resolver uma situação local. Modificam-se com os problemas. Têm esferas de influência em que, como veremos, se exercem em relação a “dramas” e por meio de uma certa “crueldade”. Devem ter uma coerência entre si, mas tal coerência não deve vir deles. (p.17)
            (…)
            Eu faço, refaço e desfaço meus conceitos a partir de um horizonte movente, de um centro sempre descentrado, de uma periferia sempre deslocada que os repete e os diferencia. Cabe à Filosofia moderna sobrepujar a alternativa temporal-intemporal, histórico-eterno, particular-universal. Graças a Nietzsche, descobrimos o intempestivo como sendo mais profundo que o tempo e a eternidade: a Filosofia não é Filosofia da História, nem Filosofia do eterno, mas intempestiva, sempre e só intempestiva, isto é, “contra este tempo, a favor, espero, de um tempo que virá”. (p.17)
            (…)
            Ficção científica também no sentido em que os pontos fracos se revelam. Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-la impossível. (p.18)

            Beijo!
            Davina

          • Karl disse:

            Caríssima Davina,

            Por favor, não reescreva nada antes de falar com alguém que entenda D&G de verdade. Eu estou mais para o Rorty e sua “descriminalização” da filosofia do que para os autores dos mil-platôs.

            Não tenho esse texto do Bento Prado Jr, mas me pareceu bastante interessante.

            Venha sempre, vamos “parlando, parlando” e, como os dois italianos náufragos da anedota, vamos chegar em alguma ilha perdida do mundo da vida.

          • davina disse:

            Fique tranquilo, K! O que você escreveu a respeito do meu texto só me ajuda a tomar cuidado extra com as palavras, não pretendo jogar a tese fora! Eheheh. Estou contando com o apoio de bons parceiros nessa escrita.
            Sim, parlando, parlando… E escrevendo, escrevendo…
            Abraço,
            D.

          • Fabiana disse:

            Parlando, parlando… Quem sabe vcs não descobrem que a tal ilhota é, assim… a América? 🙂

            Beijos pros dois

  2. Fabiana disse:

    Ela vai gostar de conversar com vc 🙂

    E ter um corpo é tudo de bom, né? Eu acho 😉

  3. Fabiana disse:

    Já até liguei pra ela pra falar disso!! :))
    Vai vir aqui e em outros lugares tb. Ta convidada. 😉

  4. maria disse:

    pois é: carne e osso mais alma, seja lá o que isso for. e é a parte mais insondável.

  5. Kentaro Mori disse:

    A ideia de um sherpa subterrâneo seria algo remotamente relacionado à psicanálise? Ou pelo menos ao lê-lo lembrou-me do caso do paciente que acreditava ser o senhor de um mundo em outra galáxia, com o pequeno detalhe de que era um cientista brilhante e sua fantasia era absurdamente detalhada — com detalhes objetivos de diversos mundos. O terapeuta pensou em permitir que o paciente mergulhasse cada vez mais fundo nesses detalhes para ao final fazer com que ele mesmo percebesse as contradições que acabariam surgindo, mas ao final foi o próprio terapeuta que sucumbiu à avalanche de informações e passou a partilhar da fantasia do paciente, considerando que ele realmente podia ser o senhor de muitos mundos extraterrenos. Ao final mesmo foi o paciente que admitiu a fantasia e orientou o terapeuta de tal. O caso é em parte fictício, mas foi descrito em:
    http://harpers.org/archive/1954/12/0006789
    E depois em um livro pelo terapeuta.

    Também gostaria de provocar e sugerir que os sherpas subterrâneos poderão ser organismos artificiais. Religião e filosofia evitam demais essa possibilidade que talvez seja a abominação última, enquanto a arte a aborda quase sempre com o complexo de Frankenstein. Mas sem dúvida viveremos em um mundo muito interessante quando houver não apenas órgãos como sistemas fisiológicos inteiros produzidos artificialmente, para não dizer de inteligência artificial e como tudo isso se integrará, ou não, a seres humanos individuais e à sociedade como um todo.

    A medicina passou milênios abordando a questão por um lado, da enfermidade e bem-estar de um indivíduo ou grupo completos, com todas as questões elevadas que isso envolve. Top-bottom. Diversas ciências, a maior parte das quais muito recentes, poderão chegar rapidamente a exatamente as mesmas questões, mas de um lado oposto, bottom-up.

    Claro que isso deve soar mais como ficção científica: a personagem principal das histórias de robô de Isaac Asimov não eram robôs, era a *psicóloga* de robôs, Susan Calvin. Era de certa forma uma médica.

    • Karl disse:

      @maria. Tudo isso junto e misturado, ao mesmo tempo agora. Tudo, então, seria um pouco insondável.

      @Kentaro-san. Na última frase do quarto parágrafo do post, entre parênteses, eu rejeito sua hipótese inicial, hehe. De qualquer forma, a estória é bem interessante.

      Quanto à hipótese/sugestão seguinte, sim. Um sherpa subterrâneo é para mim um super-paciente, na verdade, um überpatienten, para levar às últimas consequências o que quero dizer. Alguém cuja analogia respiratória sobre-humana seria um tipo de sensibilidade tal e capaz de manipular meus sentidos de tal forma que quase posso incorporá-lo em suas queixas, absorvê-lo em sua doença. Segui-lo até as entranhas de seu sofrimento é a forma mais radical de compreendê-lo. Um mestre da manipulação dos sentidos humanos assim só poderia ser um artista (ver o próximo post). Num organismo artificial presumi, pelo resto do comentário, que sua humanidade também iria diminuindo em um degradê, inversamente proporcional à quantidade de “artificialismo” que ele contivesse em seu corpo. A pergunta fatal é a de quanta carne e osso necessitamos para sentirmo-nos (ou fazermo-nos) humanos. Acho que esse indivíduo seria, não um sherpa subterrâneo, dado que sua “desumanização” o assorearia ao médico. A imagem melhor talvez fosse mesmo a do robô.

      Obrigado pelos comentários.

  6. […] para mim tal pergunta se reveste de grande importância, onde estava a doença de Cézanne? Qual a semente interior que se desdobrava em doença lá em cima? Cézanne se comporta como um portador de uma patologia […]

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