Privilégio e Sina

Médicos são bons observadores. Por força do ofício. Entretanto, ao observar fatos cotidianos, o olhar médico é um misto da ingenuidade watsoniana de Doyle – no que concerne a sua pragmática pueril – com uma capacidade descritiva crua vernacular scliariana ou, porque não, drauziana. Médicos soem escrever bem (com exceção de alguns que se metem a escrever blogs sobre temas variados) sendo a perspectiva médica diferente da da doença, em se tratando de coisas do mundo. Fisiopatologia tem hora, queridos! A quotidianidade os inibe, sociopatas naturais, ou os confunde. Diante de sua prerrogativa de invadir lares, desculpados que estão, a avaliar um pobre ser humano em estado precário de vida, estado precário este, difícil de definir dado que a própria definição de vida é, por si, complexa e, no caso de seres humanos, linguísticos por natureza, envolve um tipo de limitação que muitas vezes é de juízo totalmente arbitrário -, dizia, invadir lares, entrar em contato com a intimidade de famílias com a intenção precípua de “ajudar” quem quer que seja é, um privilégio e uma sina. Um privilégio porque um médico, sendo um arquétipo humano primordial, como bruxas e vampiros, catalisa sentimentos e esperanças generalizadas, para-raio emocional, tipo entidade mesmo. Com avental e estetoscópio no pescoço então, nem se fala. Uma sina porque o médico entra em contato com a humanidade – e com “humanidade” quero dizer não o conjunto dos seres humanos, mas a atividade decorrente de sua relação mútua – da espécie e isso é sempre impactante, dado que reassegura e reafirma sua animalidade. E, tal como olhar a própria ressonância, o médico se dá conta de quem ele realmente é e “se” vê-se. Nesse momento sublime então, caem por terra seis anos de faculdade, três anos de residência, não sei mais quantos anos de pós-graduação que geraram teses cuja obsolescência é mais rápida que sua capacidade de envelhecer-; e o médico percebe que todo esse tempo, todo o estudo e sua duração interminável, toda a prática e o investimento só serviram para fazer com que o tempo passasse. O velho deus siamês. Agora, tudo se encaixa. A animalidade faz sentido. O peso da sina do “conhecer a humanidade” por dentro de seus interstícios transfigura-se no privilégio de tornar-te quem de fato és…

Hehehe.

Discussão - 3 comentários

  1. Aron Barco disse:

    Este, Karl, não é meramente o drama do médico, é o drama da consciência. Ou, lembrando Camus, do absurdo que a consciência vê.

  2. Karl disse:

    Bem lembrado. Entretanto, os médicos têm uma “consciência que se vê” muito mais freqüentemente do que gostariam, quase uma assombração ou um tipo de “sogra transcendental” com a qual têm que lidar diuturnamente.

    Para fugir dela, alguns apegam-se à ciência – linda, sedutora, porém desprovida das emoções banais que tornam as relações tórridas -, ou pasteurizam-se em protocolos sociais clichês fazendo a alegria de “clientes” necessitados de figuras maternas ou paternas. Outros ainda, deprimem-se, escrevem, to-and-fro, up-and-down, mas não largam o vício. Ô, raça…

    Obrigado pelo comentário.

  3. Aron Barco disse:

    Infelizmente, os que mais vi na vida foram os que se pasteurizam na impessoalidade: me viam como uma doença, um desvio de septo, mais uma receita de óculos, etc…

    PS: “Sogra transcendental” foi ótimo… adotarei.

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