O Batman e o Estudante de Medicina

Toda vez que médicos ou estudantes de medicina cometem algum ato hediondo contra a humanidade, sinto como se milhares de olhares virtuais se dirigissem a mim. Essa observação atenta deixa transparecer, por vezes, um certo ar reprobatório, em outras, permite perceber semblantes dúbios, num misto de dúvida e comiseração.

Quanto ao julgamento moral, não há como escapar. Tais atos acabam afetando toda uma classe de trabalhadores da Saúde e, dada a velocidade da informação, julga-se, condena-se, explica-se o inexplicável em escala mundial. Mas isso não me perturba. Me incomoda muito mais, esse olhar que pergunta: “Por quê?”. Ou “O que é que vocês veem, fazem, sofrem que, de súbito, um ou outro, aqui e acolá, rendem-se aos instintos mais sanguinários e crueis ?”. “O que é essa pulsão de morte que mora dentro de vocês?”.

Assim é, que um estudante de medicina chamado James Holmes de 24 anos matou 12 pessoas e feriu 59  no cinema onde estreiava o novo “Batman”, no estado do Colorado nos EUA. Em 1999, de modo incrivelmente semelhante, Mateus da Costa Meira, então com 25 anos, cursando uma tradicional faculdade de medicina em São Paulo, capital, disparou mais de 40 tiros contra a plateia no cinema de um shopping center que assistia o filme “Clube da Luta” na mesma cidade. As estórias de Eugênio Chipkevitch e Roger Abdelmassih já fazem parte de enciclopédias virtuais. Artigos são publicados com compilações de crimes perpetrados por médicos. Matamos calouros em trotes. Tudo isso sem falar nas horrendas “experiências” realizadas por médicos e cientistas nazistas.

À parte da sociologia dos fatos, qual seja, a das sociedades bélicas, facilidade ao acesso de armas, mentalidade do “kickass“, “Tiros em Columbine” (que aliás, faz 10 anos e continua atualíssimo), que deixo aos sociólogos e filósofos de plantão e; à parte das explicações psiquiátricas e psicanalíticas do que possa passar dentro da cabeça dessas criaturas, muito além de seu sofrimento difuso e profundo que deixo a quem de direito, vou ficar com alguns números.

O censo de 2009 mostrou que o Brasil tinha 330.825 médicos e 191.480.630 de habitantes. Isso dá, grosso modo, 1 médico para cada 580 pessoas. Entretanto, a distribuição é bem desigual. A figura abaixo mostra um quadro de 2007. O Brasil tem uma proporção de 900 pacientes para cada médico, segundo o autor. Segundo dados do CREMESP (pdf), a proporção de médicos na cidade de São Paulo é de 232 habitantes para cada médico. Em Santos, o número chega a 158, dados de 2009.

 

Com isso, quero deixar a pergunta: Médicos e profissionais da área da saúde cometem proporcionalmente mais crimes hediondos que a população não atuante nesta área específica? A resposta parece óbvia que não. Entretanto, os crimes praticados em especial por médicos têm um peso social muito maior dada a imagem que ainda resguardam no cotidiano das pessoas. O que acaba chocando não é o crime em si, já que, desgraçadamente, é mais um crime, mais uma chacina, mais uma bestialidade humana. O que chama atenção nos noticiários são dois fatos: O Batman e o estudante de Medicina.

Um real, outro imaginário. O Batman nos vinga. Haverá correlação? O massacre “cinematográfico” brasileiro ocorreu durante a exibição de um filme violento também. É um “n” muito pequeno para concluir, diriam. E discutiriam… Já a facticidade do “estudante de Medicina” choca porque vai no nervo exposto daquilo que nos mantém em pé e que não é a imaginação, o sonho, a virtualidade. Nem tampouco é facilmente quantificável, já que habita os recessos de uma subjetividade sobrescrita e desbotada a nós legada pela sociedade tecnológica e espetacular. O maior horror dessas estórias talvez não seja proveniente do fato de que o vilão “Estudante de Medicina” mata seres humanos comuns, mas sim porque aniquila um dos últimos resquícios de nossa humanidade: a Esperança.

Discussão - 3 comentários

  1. Ricardo disse:

    Oi Karl,

    Excelente reflexão sobre o tema. Você se absteve de falar sobre alguns aspectos, mas queria dizer que a profissão de Medicina no Brasil está muito relacionada a um ideal de perfeição. Não só os estudantes mas também a população contribui para perpetuar essa imagem. Infelizmente essa imagem atrai para as universidades mentes não muito bem formadas e com valores distorcidos. Neste ponto considero que o problema não é a Medicina ou o estudante de Medicina, e sim, o estigma criado pela profissão que atrai jovens a procura de status e dinheiro (muita vezes apenas isso).

    Portanto, não devemos julgar os estudantes de Medicina em sua maioria nem mesmo condená-los de antemão, mas repensar no real significado de uma profissão, como a do médico, e contribuir para mostrar que é uma profissão para quem gosta, quer ajudar os outros, antes de si mesmo. E que é uma profissão como qualquer outra. É aí que nós, sociedade, estamos errando. Conferimos aos médicos um poder superior, conhecedor de todos os males e tratador deste, como a um Deus (independente de religião, ou falta dela).

    E parabéns pela sua reflexão e ficaria feliz se pudesse compartilhar a minha.

    Obrigado e abraços!

  2. Karl disse:

    Compartilhada está, caro Ricardo.

    Quanto a atração que a faculdade de medicina exerce sobre as “mentes não muito bem formadas”, eu tendo a concordar. Quanto ao poder que a sociedade dá aos médicos, pode ser também. Mas ele não é sombra do que já foi.

    Obrigado pelo comentário e bem-vindo ao Ecce Medicus.

  3. Chloe disse:

    Heeey, Doctor! : )
    Bem importante a sua reflexão e muito interessante notar que reflexões desse tipo sempre existiram na história da humanidade.
    Suzan Neiman no livro ‘O mal no pensamento moderno’, faz uma abordagem da filosofia a partir do problema do mal, em especial tratando de dois eventos que mobilizaram reflexões: o terremoto de Lisboa, sobre o qual muito de falou e que foi um marco de mal natural para os filósofos; e, Auschwitz, o qual ‘evocou uma relativa reticência. Os filósofos ficaram chocados, e, segundo a opinião muito famosa expressada por Adorno, o silencio é a única reação civilizada’. (pág. 14)
    Neste segundo momento não só surgia a pergunta ‘por quê?’, mas também a grande questão ‘onde e como erramos tanto, que todos esses séculos de evolução do pensamento não foram capazes de evitar algo tão terrível?’
    Neste momento a filosofia trazia para si, também, por meio de seus pensadores, a culpa por tamanha barbárie.
    Sempre que emitimos o julgamento isso não deveria ter acontecido, estamos diante do problema do mal? Designar algo como mal seria uma maneira de assinalar o fato de que aquilo abala nossa confiança no mundo? Essas e outras questões são abordadas no livro e acredito que, guardadas as devidas proporções, várias delas também poderiam ser aplicadas a esses casos citados na postagem.
    Acho que todos, sem exceção, temos nossa parcela de culpa quando se trata de mal moral, ainda que esta se mostre no fato de não nos chocarmos mais ao ponto de sairmos de nossa zona de conforto e fazermos algo a respeito.
    Mas sabermos que algumas pessoas continuam a reflexão e a busca de respostas sobre os motivos e o sentido disso tudo já faz surgir novamente uma pontinha de esperança, ao menos pra mim.
    ; )

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