Burburinho e Risadas

cezanne.fiquetA sala pequena do apartamento não comportava todos e alguns estavam na varanda, pouco mais espaçosa. O burburinho e as risadas misturavam-se ao som dos talheres batendo na louça dos pratos e às repreensões sobre não falar de boca cheia, sentar-se direito à mesa… Os meninos devoravam uma lasanha de longa-data-apreciada da avó. O dia era festivo e a avó trouxera sua mãe – a bisavó – de sua distante residência para apreciar a confusão da “juventude”, como gostava de dizer, e matar a saudade dos bisnetos.

Foi quando a avó chamou a atenção para o fato de que apesar de todos já se servirem, a bisavó ainda não estava à mesa. O burburinho e as risadas cessaram. “Vem vó”. Ela não quis vir. “Não precisa, eu como aqui mesmo”. “Não, vamos sentar com todos!” Foi quando ela chamou a filha e disse, com os olhos miúdos, no ouvido dela, que tinha medo de derrubar a comida na frente dos meninos…

Quase 35 anos antes, submetera-se a uma mastectomia radical e o consequente linfedema do seu braço direito – um edema persistente associado a terríveis e frequentes infecções – o tornaram pesado demais para movimentos tão simples quanto levar um garfo à boca, coisa que ela fazia então com o esquerdo, mesmo sendo dextra. Isso a obrigava a comer muito devagar e a, por vezes, “errar o alvo”, derrubando o alimento, o que transformava uma simples refeição em um momento de suplício, misto de acanhamento e decrepidez, só possível na intimidade do cuidado. “Sem querer” a avó deixou transparecer o desconforto da bisa aos meninos. Um deles, se levantou e desferiu: “Vem vó! Não tenha vergonha, a senhora já me deu comida na boca”. “Pra mim também”, disse o pai e neto. “Pra mim, também” disse a avó e filha. A radicalidade lógica, minimalista e feroz, que apenas as frases carregadas de conteúdo histórico-emocional podem ter não dá muita margem à discussão. Os olhinhos miúdos deram as mãos e ela sentou à mesa.

O burburinho e as risadas recomeçaram e foram – devagar – assumindo o controle da situação.

Discussão - 6 comentários

  1. Faltou elemento essencial para apreciação da cena e compreensão completa do contexto: a lasanha era de quê?

    []s,

    Roberto Takata

  2. Maria Helena disse:

    Arrepiei e me emocionei! Quem já passou por alguma situação parecida sabe, sente… Grata pelo texto e pelo momento!

  3. Sibele disse:

    Tocante! Que família linda!

    Mas Karl, por ser uma bisa e a masté há 35 anos, em tempos idos quando a prática era invariavelmente a extirpação radical, incluindo gânglios cuja falta provocava esses linfedemas no MS do lado operado… pergunto: hoje essa sequela cirúrgica ainda é frequente? Futuras bisas mastectomizadas com as técnicas de hoje ainda terão motivos para se sentir desconfortáveis como essa graça de vovovó?

    • Karl disse:

      @Takata. Lasagna. São mais de 100 receitas milenares. Não “sei” qual era essa.
      @Maria Helena. Seja bem-vinda.
      @Sibele. A cirurgia de Halsted não é mais realizada. Hoje, o diagnóstico é mais precoce, os procedimentos cirúrgicos menos invasivos e as técnicas de reconstrução muito melhores.

      Obrigado por todos os comentários.

  4. Igor Santos disse:

    Como disse (implicitamente) Maria Helena, essa é uma abstração difícil. Quem já carregou o avô no colo ou precisou ficar insistindo para que ele comesse “só mais um pouquinho” sente a verdadeira radicalidade lógica cognitivamente dissonante que a situação pode provocar. Com força.

  5. Maria Helena disse:

    Karl e Igor,
    por um erro médico já passei por cenas parecidas sentada dos dois lados da mesa familiar… Então senti a”verdadeira radicalidade lógica cognitivamente dissonante”( impressionante esta frase, Igor, adorei!) duplamente. Sendo assim o “causo” contado de forma tão sensível e “gostoso” de ler pelo Karl me tocou muito e a suas palavras também, Igor, pois como sua leitora não senti nenhum sarcasmo nelas, quem sabe, tavez, rs, uma certa emoção. Com força.

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