Fenomenologia da Elegância

andrea-laliberte-femme-elegante-iiiPor que não costumamos dizer que cachoeiras ou praias são elegantes? Quem pode ter o atributo da elegância? Seria a elegância um modo-de-ser exclusivo das coisas do humano? Um terno ou um vestido não são elegantes em si. Tornam-se (ou não) quanto vestem alguém. Já um móvel pode ser elegante mesmo que não haja ninguém por perto. Uma floresta não é elegante. Um jardim pode ser. Mas por quê? Qual característica (humana?) singulariza a nós e nossas coisas como candidatos à elegância?

E por fim, mas não menos importante: o que é elegância e qual a importância em ser elegante? É possível uma atividade humana, por exemplo, a ciência ou a medicina, ser desempenhada de forma elegante? Se sim, como isso se dá? Um artigo recente em uma importante revista de nefrologia (ver abaixo) ressalta a importância de uma ciência elegante. Basicamente, os autores defendem a ideia de que a elegância teria um valor epistemológico em si dado que pode emergir na forma de síntese (organização de dados de uma forma diferente que permita ver algo novo, como no exemplo da descoberta da vacina da varíola por Jenner); na forma de uma combinação entre simplicidade e equilíbrio (como na hipótese do trade-off de Bricker & Slatopolsky para o equílibrio entre cálcio e fósforo nos mamíferos); ou, finalmente, na forma de simplicidade e linearidade (como na hipótese dos supernéfrons de Barry Brenner). Seria um tipo de Navalha de Ockham estética e parcimoniosa. Em algumas áreas da matemática, isso parece mesmo ser o método. A conclusão do artigo, que reproduzo agora em tradução livre do inglês, me parece reveladora.

Um estudo sistemático da elegância requer uma abordagem interdisciplinar que envolva a pesquisa biomédica contemporânea, uma perspectiva histórica e uma compreensão filosófica das bases da ciência. Como na famosa frase de Kuhn: “é especialmente em períodos de reconhecida crise que os cientistas voltam-se às análises filosóficas como dispositivo para decifrar os enigmas de suas atividades”. Nós acreditamos que a história e a filosofia têm um papel na prática cientifica cotidiana, não apenas nos momentos de crise. A perspectiva histórica e a reflexão filosófica não são elementos tangenciais mas componentes fundamentais da pesquisa científica. Em especial, elas nos permitem desenvolver características da ciência que a tornam elegante e melhor compreender porque uma mente elegante é um propulsor do progresso científico.

Se essa fórmula é válida ou não, podemos tentar discutir mais adiante. A elegância contudo nos afeta cotidianamente e provoca em nós um vislumbre do sublime. Antes de saber o que seria uma “medicina elegante” por exemplo, é preciso entender como algo elegante, pessoa, objeto ou ação, se apresenta a nós. Como se destacaria tal elegância no mundo que me cerca visto que a discrição, e não a ostentação, e a parcimônia, e não o excesso, são características do que é elegante? Que impressão causa em mim tal fenômeno é um trabalho que pode ser abordado de múltiplas formas. Tentarei, com todos os riscos inerentes a um amador (no sentido forte do termo) no assunto, a via fenomenológica. O tema me é caro e mereceria uma abordagem menos diletante dado que pode constituir a “via estética” como uma alternativa concreta como perceberam os colegas do artigo abaixo. Mas considerem como um exercício. (Se eu errar, corrijam, por favor!).

Ver Fenomenologia da Elegância II e III.

ResearchBlogging.org

Nathan MJ, & Brancaccio D (2013). The importance of being elegant: a discussion of elegance in nephrology and biomedical science. Nephrology, dialysis, transplantation : official publication of the European Dialysis and Transplant Association – European Renal Association PMID: 23378419

Discussão - 15 comentários

  1. De modo geral, uma condição necessária para a elegância é ser um produto fruto do design. Daí que elementos naturais belos só serão elegantes por extensão figurativa do termo.

    Mas há uma variação cultural no que se entende por elegância. A simplicidade pode ser valorizada modernamente, mas as vestimentas rococós da indumentária da nobreza (e a mobília vitoriana cheia de detalhes) mostram como isso pode mudar com o tempo.

    []s,

    Roberto Takata

  2. Karl disse:

    Elegante é diferente de belo, chique ou requintado, atributos que se aplicariam melhor a seus exemplos, mas concedo a mudança do que é elegante “no tempo” como vc chama a atenção. Por outro lado, mesmo o uso figurativo de um atributo como a elegância pode soar forçado e… deselegante, quando aplicado a elementos naturais. Questão de estilo.
    Obrigado pelo comentário.

  3. Doc,

    O rococó teve seu momento em que foi considerado elegante. Daí que a simplicidade não é necessariamente um atributo relacionado à elegância.

    A elegância está relacionada a um *refinamento* estético (isto é, envolve um esforço consciente de superação na produção de um elemento belo). Mas o sentido desse esforço depende do contexto cultural. Pode dar trabalho tanto produzir algo simples quanto produzir algo complexo. A cultura local e da época pode valorizar, digamos, a complexidade: daí um objeto que envolva todo um trabalho para encher de detalhes é considerado elegante. (Isso pode levar todo mundo a buscar a mesma coisa, o que pode levar à saturação e acabar se invertendo – como todo mundo tem mobília intrincada, agora um grupo passa a valorizar o minimalismo…)

    Claro, outros eixos além do simples/complexo devem atuar. Temáticas também variam: natural/artificial, étnico/cosmopolita…

    Nesse sentido, a elegância se aproxima de sua origem etimológica – relacionada a ‘eleger’: cada cultura no tempo e no espaço ‘escolhe’ que elementos estéticos valoriza e isso define a elegância (o que supera a média na busca desses elementos).

    []s,

    Roberto Takata

    • Karl disse:

      Não divergimos em absoluto como ficará claro no que seguirá. Gostaria, entretanto, ainda uma vez mais, de chamar a atenção para o fato de que o gosto da cultura no tempo e espaço influenciam principalmente o que hoje chamamos de moda e não tanto o que é considerado elegante. É possível algo estar na moda e não ser elegante? E o contrário, ser elegante e não estar na moda? A elegância não parece ser condição necessária nem suficiente para fazer parte de um zeitgeist estético de cada época.

      Por outro lado, expressões do tipo “perder com elegância”, “chorar com elegância” ou até “jogar futebol com elegância”, podem ser rastreadas no passado e possuem um certo grau de perenidade cuja vertente da explicação pelo “gosto cultural no tempo” não dá conta de esgotar, percebe? O verbete da wiki traz essas dificuldades e explica que os usos do termo nessas situações possui campos semânticos não isomorficos. Aqui se encaixa também o fazer ciência ou medicina com elegância, motivos do artigo exposto no post. Como seria isso?

      As tentativas de encontrar a essência da elegância, o seu ser, ambicionam demonstrar um denominador comum a esses campos semânticos. Será que ele existe? Seria possivel perguntar por ele? se sim, qual forma de abordagem deve ser a mais indicada para procurá-lo? Filosofia da linguagem/analítica? Fenomenologia? Neurofisiologia da percepção? Antropologia cultural?

      Foi essa aventura intelectual que me chamou.
      Obrigado por vir.

  4. Doutor,

    O elegante é o componente “superior” da moda. Os exemplares mais refinados da moda são considerados elegantes.

    Nesse sentido, sim, é possível estar na moda sem ser elegante: basta não ser um exemplar superior. Mas, não, o elegante faz parte da moda, então o elegante fora de moda não existe.

    Quanto aos outros exemplos, no refinamento do comportamento. Também está sujeito a mudanças culturais. A etiqueta social sofre variação. No Japão, fazer barulho enquanto toma sopa ou ingere macarrão é considerado educado e elegante. Aqui, não.

    O fazer ciência com elegância ou elaborar uma teoria elegante, envolve valorização de aspectos culturais dentro de uma certa comunidade – no caso, a comunidade científica. Em geral, considera-se uma teoria elegante quando faz uso de poucos ad hocs, justamente porque a cultura acadêmica valoriza a navalha de Occam (ainda que haja razões operacionais para essa valorização).

    []s,

    Roberto Takata

  5. Chloe disse:

    Caro Karl,
    adoro postagens que me fazem pensar! : )
    Então, minhas impressões:
    pensando no que seria a medicina com elegância, vinha uma imagem na minha cabeça, mas não as palavras para descrevê-la.
    Então fui dar uma olhada no dicionário para ver os vários significados da palavra e tentar sair da encruzilhada.
    Do Houaiss, o que achei que combina com a idéia de ‘medicina com elelgância’ é: ‘caracteristica de procedimento que revela cortesia, distinção; decoro, fineza, gentileza’; e também ‘harmonia’ (que poderia vir do conhecimento) e ‘leveza’ (da segurança na prática)!
    A elegância nada tem de forçado, ao contrário, flui naturalmente.
    Interessante é o paradoxo que me vem à mente, pois ao mesmo tempo que a elegância atrai por assim o ser, ela afasta! Ou não deixa que se aproximem. Está sempre em outro nível, não se mistura.
    Elegância é equilibrio, nada de passional.
    A elegância é fria…
    C.

    • Karl disse:

      Takata. Curiosa a divisão da moda em “superior” e “inferior”. Não sei se entendi direito. A moda é essencialmente efêmera, por vezes cíclica, e tira seu vigor de sua renovação constante. Reconhecer as variações geográficas e temporais de um aspecto cultural e estético como é a elegância, não apaga dela uma característica que persiste, signi-fica, talvez transculturalmente e através do tempo até. Um exemplo disso poderia ser a pergunta: O que será que é visto no tomar sopa com barulho no Japão, no estilo rococó na França setecentista, num objeto matemático ou teoria científica que são tidos como elegantes? Não é “apenas” beleza, nem “apenas” modismo, nem “apenas” o que seria socialmente aceito em determinada cultura. É o quê?

      Chloe. “A elegância é fria”. Muito interessante. Já para você, parece que a elegância carrega um grau de altivez e até, porque não, de soberba que “afasta”. Por quê? Algo que agrada aos olhos e o espírito poderia então, afastar os “corpos”? Qual seria a fonte desse tipo de sentimento dúbio?

  6. Doutor,

    O “superior” foi entre aspas. Como argumentei nos comentários anteriores, dado um conjunto de diretrizes valorativas (espaço-temporais de uma dada cultura) estéticas, há um *esforço* a ser feito para se adequar a tais diretrizes. O *resultado* desse esforço pode ser mais ou pode ser menos adequado. É nesse sentido que se diz “superior” (e, por inferência, “inferior”).

    Podemos distribuir os resultados de acordo com um sistema de pontuação subjetiva. O que será denominado elegante estará no extremo superior dessa distribuição.

    []s,

    Roberto Takata

  7. Chloe disse:

    Bom Dia Karl! : )
    Altivez talvez sim, na dignidade, nobreza; mas, soberba… não sei se seria o caso. Pensei ontem: ‘será que estou levando para o lado da arrogância?’, mas não era por aí.
    A elegância estaria fora desses vícios morais (humanos). Ela seria como a justa medida, o que não sobra e nem falta. Faz o que é preciso, envolvendo-se o suficiente para melhor desempenhar o que lhe cabe e, tão logo o faça, vira a página. Há coisas mais importantes para lidar! Na elegância não há tempo para o que é superfluo.
    E ela não está aberta a julgamentos externos, ela não se importa neste sentido, porque se sabe ‘o melhor possivel’, daí talvez o carater dúbio; porque este é despertado em nós, enquanto observadores da elegância; mas pra ela tanto faz o que o outro pensa, ela faz o que tem que fazer e muito bem feito, ponto.
    Vem a idéia de que talvez as pesquisas cientificas e a medicina fossem elegantes se estivessem imunes às paixões humanas. Mas será? Será que não é justamente a paixão humana que leva ao aprimoramento dessas práticas?
    Seria possivel elas se envolverem na justa medida e ainda assim continuarem avançando?
    Mas, a elegância também pode ser visionária!
    E daí tiraria o seu avanço!
    É curioso pensar nisso tudo porque a idéia de elegância vai passeando entre pessoas e prática médica/cientifica, do concreto para o abstrato.
    E vira um jogo estimulante, que hora puxa para um lado, ora para outro.
    Pex: ‘como uma prática pode ser visionária? não o seriam as pessoas?’
    ; )

  8. Karl disse:

    Takata. Ok.

    Chloe. Onde está a elegância? Em quem vê ou quem tem? Hehe. Muito bom…

  9. Chloe disse:

    Quanto à elegância, foi bom pensar nela, nos últimos dias, como excelência + distanciamento, discrição, mistério…
    Ri sozinha quando pensei que ‘a elegância é ninja!’
    Quanto à sua última pergunta… se vc descobrir a resposta me conte, rs…
    Daí podemos partir para a justiça, a bondade, a beleza…
    : )

  10. Chloe disse:

    Heeey Doctor!
    antes que me joguem pela janela, rs…
    Só pra deixar claro que quando digo que a elegância ‘é’ isso ou aquilo, e ‘não’ aquele outro, quero dizer:
    ‘A idéia que consigo formar, a partir das impressões advindas da minha limitada perspectiva, leva-me a descrevê-la (elegância) dessa forma’.
    Quem sou eu pra dizer o que é ou não a elegância, rs…
    Eita…
    ; )

  11. Fabiana disse:

    @Takata,

    Uma “pergunta-provocação” marota:

    Haveria algo como um “sexo elegante” (no sentido de uma relação sexual)? (E aí não quero dizer “sexo com roupas -?- ou acessórios elegantes”, óbvio 🙂 )
    A experiência diz que sim – mas tenho dificuldade em relacionar isso com “moda” ou com “um componente superior da moda” ou com “um conjunto de diretrizes valorativas estéticas”. Um pouco melhor, talvez, para o critério “refinamento de comportamento”?!?… Mas mesmo assim…

    Não sei não… Como é que fica isso?

    Karl: “Não é ‘apenas’ beleza, nem ‘apenas’ modismo, nem ‘apenas’ o que seria socialmente aceito em determinada cultura. É o quê?”…

  12. […] Recomenda-se ler antes esta introdução. […]

  13. […] Ver os posts anteriores aqui e aqui. […]

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