Medicina com Fronteiras

O título do post é, obviamente, um trocadilho com uma das coisas mais fantásticas e sublimes que a medicina já produziu, a Medecins Sans Frontièreentidade humanitária com ações globais em áreas de vulnerabilidade social e o tirei da excelente entrevista de Juliana Sayuri d’ O Estado de São Paulo com o médico Mário Scheffer, coordenador de estudo Demografia Médica no Brasil, patrocinado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Pretendo, nas próximas linhas, explicitar minha opinião sobre a notícia, veiculada em 06/05/2013, da vinda de 6.000 médicos de Cuba, e de outros tantos de Portugal e Espanha, para trabalhar em regiões carentes do Brasil.

Suponhamos que venham então. Seis mil pessoas de um país estranho venham, de fato, exercer medicina nos ermos do Brasil. O Governo Federal especificaria suas áreas de atuação, sua remuneração e seu modo de trabalhar. Não temos dados concretos sobre esse plano, o que me dá um certo calafrio na espinha dado o déjà-vu de pirotecnia administrativa, como sói acontecer em políticas públicas no Brasil. Vamos então, especular.

Sobre a validação. “O médico pode ser definido como o ser humano pessoalmente apto, tecnicamente capacitado e legalmente habilitado para atuar na sociedade como agente profissional da Medicina – o que lhe assegura o direito de praticar todos os atos que a legislação permite ou obriga”, e a submeter-se às normas classistas bem como a seus princípios éticos. A definição se baseia em 3 quesitos que, faltantes, descaracterizariam a profissão de médico. É necessário ser: 1) Humano apto; 2) Capacitado tecnicamente; 3) Habilitado legalmente. A capacitação técnica é difícil de avaliar dada a relação intrínseca da medicina com a prática, mas a realização de exames frequentes e os programas de educação médica continuada ajudam a minimizar isso em várias localidades do mundo. A habilitação legal, por mais discutível, vinculada à capacitação técnica, politicamente influenciável e provincianamente conduzida que seja, é necessária. Aqui, a comparação com a habilitação de motorista é plenamente válida.

É sob essa lógica que o CFM tem atuado. A necessidade de ordenar a profissão, controlá-la e estabelecer normas para sua estruturação cabe ao conselho classista. Acho muito engraçado articulistas, palpiteiros, políticos, pacientes, e pessoas em geral, acusarem a corporação chamada CFM de “coorporativista”. Isso soa um pouco como acusar o Exército de ser bélico. O CFM está no seu papel e a discussão não deve ser desarticular sua argumentação, mas criar opções a ela. O próprio CFM está elaborando propostas para fixação do médico brasileiro nos tais “vazios assistenciais”. Uma crítica que caberia aqui é mas por que não fizeram isso antes? Por que esperar o anúncio da contratação dos médicos estrangeiros para lançar tal proposta? Nesse sentido, o chacoalhão veio em boa hora.

Países como EUA, Canadá, Reino Unido têm médicos estrangeiros em proporções variadas que beiram os 20%. Todos têm também, sem exceção, regras para validação dos diplomas (habilitação) e verificação da capacidade por meio de programas específicos. Não vejo problema nenhum com isso e a vinda de médicos que cumprissem tais condições – e isso também está sob discussão – é uma decisão de quem elabora as políticas de saúde.

Sobre as estratégias de assentamento. Uma das coisas que tem intrigado a opinião pública é o fato de que, mesmo com bons salários, os médicos não são capazes de “interiorizar-se”, o que mostra que a questão não é, nem de longe, meramente econômica. Setores do pensamento de esquerda acusam as faculdades de medicina de uma formação elitista e tecnologizada, fazendo com que o médico se sinta “nu” na ausência de sua tecnologia, impedindo-o então de trabalhar em locais onde ela fosse precária. Para resolver isso, propõem a vinda de médicos formados em faculdades voltadas para a atenção primária, como por exemplo, a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) em Cuba. Em que pesem as enormes dificuldades em se estudar medicina em Cuba e a manifestação contrária do senhor ministro da saúde, a proposta se apoiaria no fato de que tais médicos seriam desprovidos dessa arrogância tecnológica e mais aptos a trabalhar em condições difíceis. Não descarto, a priori, esse raciocínio.

Mas, como evitaríamos que tais médicos abandonassem seus postos? Por mais ideologizado que seja, a necessidade de formação, crescimento e ascensão na carreira é inerente ao bom profissional, ao que recusa-se a estagnar e, no caso dos médicos, ao que sabe da responsabilidade que tem e da possibilidade de que um erro pode equivaler à morte. Quais ações seriam implantadas para que tais médicos fixassem-se nos locais onde o governo necessita? A pergunta procede. Criar um sistema nos moldes do Judiciário e programas de assentamento do médico que incluem a educação continuada são possibilidades. Mas por que raios, esses programas não poderiam funcionar para os médicos tupiniquins também?

Em suma, o assunto é bastante complexo. Particularmente, não sou contra a vinda de médicos estrangeiros desde que se mostrem capacitados a exercer a profissão de acordo com as regras estabelecidas pela sociedade brasileira. Pode-se discutir as regras sempre, dificultar ou facilitar de acordo com um plano de ação. Por outro lado, não acredito que a vinda de tais médicos resolva o problema. A saúde da população transcende as fronteiras da atuação do médico que está contida nela. Ao voltarmos nossos olhares para as áreas carentes de atendimento em saúde veremos que a necessidade é muito maior que a vã lógica “medicalista” poderia supor.

Remédios não curam o abandono.

Angola © Atsushi Shibuya/MSF 2001

Angola © Atsushi Shibuya/MSF 2001

Discussão - 13 comentários

  1. Karl disse:

    Interessante livro sobre a interiorização dos médicos, se bem que com dados um pouco antigos. Uma resenha interessante aqui.

    RUMO AO INTERIOR: MÉDICOS, SAÚDE DA FAMÍLIA E MERCADO DE TRABALHO. Maciel Filho R, Branco MAF. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 205 pp. ISBN: 978-85-7541-164-3

  2. Paula disse:

    E há escolas de medicina voltadas para atenção primária, no Brasil? E mais, se os próprios brasileiros têm dificuldade de interiorizar-se, poderão os estrangeiros fazer isso com mais facilidade? Penso que não faltam médicos, e sim, condições ao exercício da Medicina. Já vejo pulularem nas revistas e jornais críticas às práticas dos médicos estrangeiros que estão, na verdade, escondendo problemas muito maiores, de condição da prática médica…

    Agora… se ser um ser humano apto é condição pra ser médico, então temos que caçar a licença de uns 20% de médicos que eu conheço… rsrsrs

    • Karl disse:

      Paula, o tipo de médico que eles procuram está em falta até mesmo na cidade de São Paulo que tem 4,48 médicos/1000 habitantes. Esse médico “público”, bom e barato, é raro até mesmo no SUS e praticamente inexiste no sistema de saúde suplementar, como chama atenção o relatório Scheffer. O curriculo das escolas médicas tem cunho generalista, mas as residências e especializações mais valorizadas, não.

      Quanto a suspender a licença de alguns médicos por incompatibilidade com a espécie humana, estou de acordo, hehe. Faltam, entretanto, critérios objetivos que medeiem essa guerra inter-espécie já que há também pacientes que não pertencem à Homo sapiens sapiens., a única espécie que estamos habilitados a cuidar.
      Obrigado pelo comentário.

  3. Meire disse:

    Opinião irretocável.

  4. Felipe disse:

    A opinião de quem vê tudo com outros olhos, não sou médico, portanto, reconheço que há um viés na minha opinião.
    Independente do que o CFM diz, eu tenho a impressão de que não formamos médicos aptos à atenção primária no nosso país. Comecei a pensar melhor sobre isso quando conversei com um aluno de iniciação científica aqui do laboratório que é acadêmico de medicina. A visão deles sobre medicina social e medicina familiar é que são disciplinas dispensáveis do currículo do curso. Noto que os demais IC’s da medicina tem opiniões semelhantes. Algo como: “médico bom é médico especialista, com uma residência em algo super específico e complexo”.
    Isso pode ser um fator isolado, algo que ocorre apenas nessa Universidade. Mas, e se não for? E se for característica comum às escolas de medicina brasileiras? Estamos formando um monte de médicos aptos a resolverem problemas de “vida ou morte” e estamos deixando de lado a formação de médicos aptos a resolverem problemas consideravelmente mais simples, mas nem por isso, menos importantes. Problemas que em muitos casos podem ser de “vida ou morte”, vide periferia e casos de diarreia, desnutrição, etc etc.

    Será que a vinda desses médicos, aptos a resolverem os problemas “simples”, associados à medicina familiar e preventiva não é positiva?
    Penso que sim, penso que mais do que atender a população, esses médicos podem trazer uma cultura médica diferente, mais social e mais caridosa.

    • Karl disse:

      Felipe. Como eu escrevi no texto, não é possível descartar uma formação algo elitista para os médicos brasileiros. Vou lhe dar um exemplo tosco. Quando atendemos uma dor no ombro, o ressonância magnética pode fazer parte de um algoritmo de manuseio, do tipo, RM -> lesão do ombro -> ortopedista; sem lesão -> anti-inflamatório e imobilização, etc. Quando um médico atender uma dor no ombro e não tiver a RM, vai ficar perdido. Na verdade, ele aprende a raciocinar COM a RM porque sabe que há inúmeras condições que, apesar de raras, podem ser diagnosticadas no exame e que, caso não o solicitarmos, poderão não ser avaliadas e o médico poderá ser processado (morremos de medo de processos!). O que esquecemos é que a enorme maioria dos pacientes não precisa do exame para ter suas condições melhoradas, sua dor aliviada, etc, etc. Como conviver com essa dúvida após o conhecimento de um caso raro? Médico funciona assim: “Olha, pede uma RM nesse caso porque uma vez, tive um paciente que era muito parecido….”. E quando vc menos espera, pimba! tá lá a esquisitice! Já vi esse filme varias vezes.

      Essa visão da especialidade é uma visão mundial e não é restrita aos esculápios brasileiros. Isso que você citou a respeito dos problemas mais simples está totalmente de acordo com a minha visão. Há, entretanto, problemas de remuneração, calotes de prefeituras e outras coisas que não são ditas nas discussões, mas há uma tendência a superespecialização sim.

      O problema de trazer médicos de fora sem revalidação do diploma é a criação de categorias de médicos. Isso é muito ruim. Disse que não sou contra a vinda dos colegas estrangeiros, mas sou a favor da revalidação. A vinda de médicos com outra visão ou ideologia da medicina não é a principal preocupação dos médicos. É a principal preocupação de setores conservadores da sociedade pois consideram-na como a vinda de “agentes” (palavras deles) comunistas infiltrados em comunidades pobres. Será a “revolução comunista” posta em marcha.

      Obrigado pelo comentário

      • Bruna Ribas disse:

        Karl, acredito que não virão revolucionários infiltrados.Pela experiência deles esse “comunismo” de 100 doláres por mês como salário máximo de um médico não funciona!!!É a chance deles de ascenção social.O que não é errado, diga-se de passagem.O revalida obviamente deveria ser lei para todos os formados fora do país, mas como diz o governo, aprovados não teriam obrigação de permanecer nos postos nos confins do Brasil, então é uma obrigação ficar onde o governo apontou.Ironia é agora o governo querer estender a prova para todos, até os formandos brasileiros e o perigo é que a margem de aprovação seja menor da que dos “estrangeiros”.Segundo a OMS, Cuba está em 39°lugar em qualidade de saúde, o Brasil é o 125% lugar, e lá não tem grandes tecnologias, o que implica que eles devem dar uma grande importância em medicina preventiva o que aqui é bem negligenciada.Não sei se estamos formando excessivos técnicos e maus médicos.Discordo de vc num ponto: tecnologia não deve ser o centro na formação de um diagnóstico, como se diz, o exame é complementar.Estudamos isso em semiologia: 90% do diagnóstico é anamnese e exame físico, como acabamos assim, dependentes da tecnologia?E como faziam os bons médicos antigos, que não são tão antigos assim(20,30 anos atrás)?E casos raros, é raro, não é o cotidiano.

    • Bruna Ribas disse:

      As universidades públicas federais estão sim formando médicos aptos para trabalhar com a população desfavorecida sim, haja visto o exemplo da que eu estudo FURG- que fica no sul do RS, onde o hospital universitário é 100% SUS e estamos em contato com pacientes nas UBSF desde o primeiro ano da faculdade.Justifica em parte sim o raciocinio do governo, afinal seriam os cubanos uma mão de obra mais barata, porém será que virão especialistas de Cuba, pois o que falta para o povo é um atendimento especializado de pediatras, obstetras, cardiologistas, etc. que não querem se interiorizar.Generalistas BRASILEIROS não irão faltar para assumir esses postos de trabalho, pois a proposta de remuneração do governo é bem atrativa, já que além da bolsa de 10 mil reais, soma-se um valor de 20 até 30 mil para quem for designado para os confins do Brasil.Além disso, as prefeituras provavelmente não irão mais fazer concursos, pois deixarão a cargo do governo federal, pela proposta quem irá remunerar, e essa será a opção dos recém formados que não passarem nas residências.Então, vai faltar vagas para os cubanos!

      • Mauro disse:

        Médicos brasileiros recém formados são contratados com salários acima de R$ 8.000,00 por mês em qualquer CAPITAL do Brasil. Por que iriam para alguma cidade no “* do mundo” ganhando esse mesmo salário?… ora, minha filha terminou a residência há um ano e ganha em Curitiba mais de R$ 10.000,00 por mês. Voce acha que ela iria para alguma cidade do interior? …
        Devemos receber de braços abertos todos os médicos que vem para cá dispostos à encarar as cidades no interior do país.

  5. Rafael Garcia disse:

    Acho engraçado também que o problema da educação médica nos rincões do Brasil ainda não tenha entrado em pauta aí. Será que a criação de cursos de medicina razoáveis em universidades do Piauí, Acre e outros estados pobres não seria um investimento federal com retorno melhor?

    Universidades podem funcionar com médicos experientes do Sudeste que se instalem nesses lugares apenas temporariamente para treinar médicos locais. Isso não ajudaria a solucionar o problema do assentamento permanente? Claro que isso não é uma coisa que se pode fazer do dia para a noite. Mas existe alguma solução mágica?

    Quando se fala em projeto de desenvolvimento para a Amazônia, os governos nunca pensam em educação. Existe gente morando lá. Essas pessoas, que são tão inteligentes quanto qualquer brasileiro, têm de ganhar oportunidade para conseguirem de cuidar de si. Mas quando se fala em desenvolvimento para a Amazônia, a esfera federal só pensa em investir em hidrelétrica. Alguém pensou em criar uma faculdade em Altamira?

    • Karl disse:

      Bem lembrado, Rafael. Conheço a diretora da Faculdade de Medicina da UF do Amapá em Macapá. A faculdade está apenas na sua 4a turma. Nem internos ainda foram formados! As dificuldades são enormes e o problema não se restringe a estrutura: a política é um entrave considerável e, muitas vezes, intransponível.

  6. Felipe disse:

    Obrigado pela resposta Karl. Cada vez que leio teus textos e participo de pequenas discussões, seja via twitter ou pelo blog, tenho a sensação de conversar com um espécime raro dentro da medicina (ou pelo menos dentro do quadro de médicos que eu conheço e convivo, a outra raridade é um amigo peruano, médico e revalidado aqui). Raro porque no teu discurso é possível notar que você possui empatia e consequentemente se preocupa com a organização/estrutura da medicina.

    Mesmo os alunos de IC do laboratório que participo, apesar de serem fantásticos, não possuem tal preocupação. Eles estão sendo formados nesse algoritmo que você citou, onde o exame é indispensável. Não estão sendo treinados a pensar alternativas aos exames.

    Ouvi por aí (não lembro se foi rádio ou podcast, tenho ouvido muitas cosias) que a OMS possui dados positivos da importação de médicos cubanos na Venezuela, relatos de diminuição de mortalidade infantil, problemas de desnutrição, melhoras em educação sexual e etc. Todos os pontos abordados era de medicina familiar.

    Os calotes das prefeituras, a criação de uma nova classe de médicos, e o que alguns chamam de “contrato quase escravo” para os cubanos devem ser debatidas. Uma coisa que detesto é a mania da presidenta em tomar decisões e fazer a coisa acontecer “goela abaixo”, sem consultas aos conselhos de área, sem discutir, sem planejar. Um exemplo disso é o próprio Ciência sem Fronteiras, programa lindo, mas mal arrumado.

    Enfim… a discussão aqui está agradável, tenho visto cada coisa pelas bandas do twitter que tenho ficado assustado. Pelo menos aqui são sugeridas alternativas, são discutidos pontos positivos e negativos e o “monstro comunista” não passa de conto de fadas.

    Ah, funny story terça pela manhã fui em um PS particular por causa de uma dor de garganta (popular amigdalite) e saí de lá com o antibiótico e o seguinte diagnóstico:”Ah, não teve febre, não tem placa bacteriana, não perdeu o apetite…Tome o antibiótico, se melhorar era bacteriana”.
    Tomei o antibiótico, a dor passou, o inchaço diminuiu e teu colega pode ter acertado… ou não, se fosse viral hoje estaria no 7 dia do ciclo. 😉

    • Bruna Ribas disse:

      Mas Felipe, o médico da sua história lhe informou o que vc deveria esperar nos próximos dias.Medicina não é uma ciência exata, tem seus mistérios e um certo grau de imprevisibilidade.Ele poderia ter te mandado fazer vários exames, investigar se era estreptococos, te enviar a um otorrino para investigar bem sua garganta, poderia pedir biópsia, etc…e isso ficaria caro e certamente foi desnecessário porque hj vc está bem e o problema foi resolvido com o antibiótico.

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