Carta-Resposta do Prof. Maurício Rocha e Silva

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Segue a carta do prof. Maurício Rocha e Silva sobre a suspensão de revistas médicas brasileiras pelo JCR, conforme publicado neste blog. As opiniões do autor não são necessariamente as mesmas do editor do blog. Esperamos, entretanto, que isso possa fomentar um debate salutar sobre as publicações científicas brasileiras, debate de importância maior para amadurecermos no nosso papel de relevância científica que conquistamos a duras penas. Todas as perguntas dirigidas ao autor do texto lhe serão encaminhadas por email e me comprometo a publicar integralmente, tanto as questões, quanto suas respostas. (Me reservarei, contudo, no direito de editar eventuais textos ofensivos e em “caps lock” abusivo).

Ainda a propósito da suspensão de revistas pelo JCR

Mauricio Rocha e Silva

Editor, Clinics

Clinics foi suspensa por um ano do Journal Citation Reports (JCR) 2012. A suspensão foi provocada por dois artigos publicados em 2011. A suspensão significa que CLINICS não teve Fator de Impacto divulgado para 2012 pelo JCR. Este é responsável pela publicação do fator de impacto de 8.841 periódicos científicos mundiais. Mas não é a única agência avaliadora no mundo, como veremos adiante.

O Hospital das Clínicas e a Editoria de Clinics estão examinando determinados aspectos do ato de suspensão e entendem que não existem fundamentos dentro das regras JCR em vigor que justifiquem esse ato.

Há que notar que, até hoje, o site JCR continua a afirmar que “Suppressed titles were found to have anomalous citation patterns resulting in a significant distortion of the Journal Impact Factor.” (Títulos suprimidos apresentaram padrões anômalos de citação, que resultam numa distorção significativa do Fator de Impacto da Revista). Isto só pode significar que a condição obrigatória para suspensão é uma distorção significativa do Fator de Impacto.

E qual foi a distorção significativa provocada em nosso fator de impacto? Clinics foi suspensa pela publicação de dois artigos na Revista da Associação Médica Brasileira sobre pesquisa científica brasileira em áreas específicas do conhecimento: aparelhos cardiorrespiratório e locomotor. Estes artigos citam 330 artigos brasileiros, dos quais 127 publicados pela CLINICS. Estas 127 citações representam apenas 18% de todas as citações recebidas pela CLINICS em 2011 (total 704 citações) Como consequência, o Fator de Impacto de Clinics elevou-se em 22% (de 1,687 para 2,058). Como é que esta distorção de fator Impacto é comparada com outras no sistema ISI? Para isso realizamos uma avaliação por amostragem pesquisando 200 revistas não suspensas pelo JCR e escolhidas randomicamente. Convidamos qualquer leitor a fazer o mesmo: escolha o seu método de randomização e veja o que aparece. Esta análise revelou 31 revistas (15,5%) com elevações de Fator de Impacto iguais ou superiores aos 22% da Clinics. Estendendo esta amostragem para o universo de 8841 revistas pode-se esperar encontrar cerca de 1300 revistas com “distorções” iguais ou superiores às da CLINICS. Nenhuma dessas foi suspensa. Entenda-se: não estou acusando de distorção estas revistas semelhantes à CLINICS e não suspensas. Estou simplesmente mostrando que o que não é infração ética para tantas, subitamente virou infração para Clinics.

Como notei, o JCR não havia instituído essa modalidade de impropriedade de citação em 2011, quando os artigos foram publicados. As primeiras revistas suspensas por stacking o foram em Junho de 2012. Três revistas foram suspensas por citações circulares. Só então é que se ficou sabendo que esta modalidade passara a existir. Consequentemente, a nova regra foi aplicada retroativamente à Clinics. Mesmo agora, junho de 2013, as regras continuam obscuras e dão a JCR margem para ações discriminatórias.

Vale repetir: o JCR não detém monopólio mundial de avaliação de impacto. Duas outras grandes instituições também o fazem. (1) A editora científica Elsevier, a maior do mundo, sediada na Holanda, possui um site  www.scimagojr.com, que divulga um impacto entendido pela CAPES, pela FAPESP e pelo CNPq como equivalente ao da JCR. Continuamos ali representados e quem quiser saber quanto será o nosso impacto Scimago 2012 só precisa esperar até o próximo mês de julho. (2) SCIELO, uma das mais importantes experiências de catalogação científica do mundo, sediada em São Paulo, publica também um Fator de Impacto. Continuamos ali representados. A suspensão de Clinics no JCR choca de frente com a não suspensão no Scimago e na SCIELO.

Mesmo que comentaristas inseridos neste e noutros blogs prefiram discordar de nossa posição, seria muito mais conveniente evitar a indecorosa e anônima pressa de criminalizar um evento entendido pela própria JCR como mera decisão técnica. CLINICS foi apenas excluída do JCR em 2011. Tudo o mais referente a ela continua incluído no sistema JCR e decorre normalmente.

Aproveito para reafirmar e renovar nosso compromisso com a informação ética e verdadeira da ciência, dentro do conceito de dignidade da atividade científica.

Discussão - 12 comentários

  1. Karl disse:

    Professor, obrigado pelos esclarecimentos. Agradeço a coragem e disposição de utilizar este blog como veículo de informação. Aproveito para colocá-lo à disposição dos outros editores que, por ventura, queiram manifestar-se. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas:

    1) O senhor argumenta que os critérios do JCR são algo vagos para o enquadramento da Clinics no stacking citation devido a 2 artigos publicados na Revista da Associação Médica Brasileira, mas convenhamos que citar 330 artigos em 2 publicações sendo que quase 50% deles (127) oriundos de apenas 1 revista (Clinics) da qual o senhor é o editor-chefe pode soar algo estranho até para ouvidos mais inocentes. Por outro lado, um levantamento simples mostra outros artigos de revisão com o mesmo padrão de citação, exatamente em um período de cálculo do impacto. Seria isso coincidência ou uma prática moderna entre revistas?

    2) Revistas científicas têm seu FI elevado ou diminuído ano a ano. O mero fato de o senhor utilizar uma amostragem randômica de revistas com elevação do FI na JCR não significa que tais publicações tiveram “distorções”! Elas podem ter aumentado o FI por vias “não distorcivas”. Talvez eu não tenha entendido corretamente, mas o senhor poderia explicar esse “experimento” de outra forma?

    3) Qual o impacto (desculpe o trocadilho) dessa suspensão para os futuros autores das revistas? Um autor que queira publicar ou mesmo tenha um artigo sob peer review terá a mesma visibilidade para seu artigo a partir de agora? Eventuais contratos publicitários seriam afetados?

    Obrigado

  2. Francisco Campos disse:

    O Prof. Mauricio quer justificar o injustificável. Ele e a revista que ele edita deveriam apresentar desculpas à nação.

    • Trata-se de tematica complexa. O Editor da revista apresentou um panorama. Uma linha. E fato que ha um desequilibrio na metrica entre a acao da revista e a medida do indexador (JCR). Assim e o mundo da ciencia. O CLINICS, como revista, utiliza os padroes internacionais consagrados. Nao ha de se duvidar da sua credibiidade. Nao ha prejuizo para autores e tao pouco visibilidade do periodico. Sou solidario as revistas que vivenciam esta situacao neste momento. Devemos aprender a lidar com estas questoes. Isto chama-se competitividade. O CLINICS e importante periodico internacional.

  3. Shridhar disse:

    @Francisco Para usar as palavras do Roberto Jefferson, “parece que estamos num convento de freiras”.

    Todo mundo que trabalha com ciência sabe que fator de impacto é um instrumento tosco para quantificar a qualidade de ciência. E todos que acompanham o mercado editorial científico sabem que virtualmente todos os “fringe journals” tentam ganhar pontos no JCR através de métodos lícitos mas extremamente questionáveis. Um desses métodos é o uso de “review articles”. Um outro método é aquele empurrãozinho dos editores durante a revisão para citar alguns artigos na própria revista. Esse ar de espanto na comunidade científica brasileira me lembra bastante Casablanca: “I’m shocked, I’m shocked.” Ok, a Clinics e outros jornais foram pegos por uma revisão de critérios da JCR e tomaram uma punição de 1 ano. Os editores estão tentando se esquivar utilizando uma tecnicalidade. A situação toda é lamentável, o grau de vergonha alheia nesse caso é alto.

    Agora, é pra tanta violência retórica? Afinal Prof. Maurício está tentando resolver um problema complicadíssimo, o de melhorar a imagem de sua revista num contexto complicado, a ditadura da Qualis no cenário científico brasileiro, que já sofre de um preconceito contra citações externas. O abacaxi que ele tem não dá pra descascar. Ele tentou usar um recurso que até ano passado era lícito, o uso de review articles questionáveis pra aumentar a quantidade de citações.

    Quer usar sua indignação pra alguma coisa mais horrível? Leia os lattes de alguns pesquisadores 1A e dê uma olhada na lista de publicações. Já vi muitos que publicam um monte em jornais ruins que têm Qualis alto por alguma aberração (que às vezes suspeito ser conluio). E já ouvi de um caso de um professor que incluiu artigos de uma outra pessoa que tem nome parecido.

  4. Marcelo Hermes disse:

    O que vemos aqui é um claro caso de “autocitação cruzada”. É uma vergonha. E pensar que no passado eu era fã desse prof Mauricio. Mas Pindorama é assim mesmo, deceptions…deceptions…

    Passei essa estória para o Estadão, Folha e Correio Braziliense. O Prof Mauricio vai ter q se explicar com o CNPq (e com o povo brasileiro) que paga as contas do Clinics.

  5. Curioso disse:

    Bom sábado a todos,

    Já postei alguns pontos logo no início da discussão e continuo discordando da defesa apresentada. Cada vez me convenço mais que foi errada a ação da Clinics e outras duas revistas, aparentemente.

    Continuo não entendendo como o prof. Maurício insiste em dizer que isso é novo no JCR! Reproduzo aqui parte de um texto encontrado na Internet sobre as supressões do JCR 2011 e que é similar a situação atual: “Almost all of those banned are excluded because of excessive self-citation, although three journals — Cell Transplantation, Medical Science Monitor and The Scientific World Journal — apparently worked together to cite each other and thus raise impact factors” Bom, desde quando esta modalidade é nova Prof. Mauricio? Como alguns relataram neste blog, tudo foi muito conveniente, título de artigo de “revisão” ou editorial, anos dos artigos listados na lista de referência, etc, não parece normal.

    Sugiro que peguem os artigos do prof. Mauricio de 2011 e 2012 e olhem as listas dos artigos citados e vejam os padrões.

    Procurei me informar e o Prof. Mauricio é um ótimo pesquisador, de reputação também idônea, mas sinceramente jogar e contestar o JCR é inaceitável. Não que o JCR tenha sempre razão, mas eles tomam muito cuidado nestes casos tanto que a lista dos periódicos retirados do JCR é pequena no universo que existe, ou seja, imagino que eles só colocam aqueles que realmente foram ao extremo e abusaram mesmo.

    Acontece e acho que serve de lição e tenho certeza que a Clinics vai se recuperar e voltar, seja em 1 ou 2 anos.

    Porém, uma coisa eu concordo, acho que para cada caso de supressão, o JCR deveria também incluir uma rápida explicação da razão para supressão, pois pode ser que nós todos estejamos enganados e essa discussão seria inútil. Nada de ficar acusando, estamos levantando fatos importantes e que servem para orientar pesquisadores, editores, etc.

    Por último, com a palavra os editores dos outros periódicos! Por que se calam e só o prof. Mauricio da a cara para se defender?

  6. Claudia disse:

    A autocitação cruzada é coisa corriqueira e feita pelas melhoras revistas do mundo. Fato. Também os pesquisadores autores o fazem para aumentar seu indice H. Fato.

  7. Bruno disse:

    Para dar uma atualizada, acredito que serve de informação:

    Conselho Superior descredencia revistas excluídas do JCR, da Thomson Reuters
    (http://www.capes.gov.br/36-noticias/6410-conselho-superior-descredencia-revistas-excluidas-do-jcr-da-thomson-reuters)

    Parece meio autoritarista a decisão da CAPES, pois quem acaba perdendo são os autores e as PPGs que nada tem a ver com a situação.

  8. Horacio disse:

    Essa numerologia é completamente idiota. E nós, brasileiros, com a nossa “cordialidade” (veja Sérgio Buarque de Holanda), falsificamos algo que já é bem precário. Erros e equivocos e hipocrisias que se somam. Todos perdem. Principalmente o sofrido povo do Brasil paga a conta dessa bobagem e dessas vaidades, e nem sequer sabe o que é “Qualis” e indice de impacto.

  9. Joao C B Villares disse:

    Ao Professor Mauricio Rocha e Silva. Mais uma vez, nós nos sentimos envergonhados pela malandragem de um mestre.

  10. […] professor Maurício Rocha e Silva, editor-chefe da revista, enviou uma carta-resposta a este blog, publicada em 27 de Junho do corrente ano, dando suas explicações. Desde então, nenhuma outra […]

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