Medicina, Capitalismo e Esquizofrenia

FMUSP

Prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Quem passa pela avenida Doutor Arnaldo vindo da Heitor Penteado em direção à avenida Paulista tem, logo após a rua Cardeal Arco Verde, à sua esquerda, o cemitério do Araçá e suas bancas de flores; à sua direita, pela ordem, o Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, a Faculdade de Saúde Pública, o cruzamento da rua Teodoro Sampaio, o Instituto Oscar Freire,  a Faculdade de Medicina (acima), o Instituto Adolfo Lutz, o moderno prédio do Instituto do Câncer, o Instituto de Infectologia Emílio Ribas e finalmente, a ponte sobre a Rebouças que dá acesso à rua da Consolação e à Paulista. A depender do trânsito, sempre muito intenso na região, não é raro perder quinze ou vinte minutos neste trajeto de quinhentos metros tendo como visão algumas das mais antigas instituições estatais da Saúde Pública do estado de São Paulo. Isso sem esquecer que tal fachada esconde o complexo gigantesco do Hospital das Clínicas que se estende até a rua Artur de Azevedo, tendo como limite a Teodoro Sampaio e a Rebouças. Tal como uma parada na qual quem se move são os espectadores, desfilam diante nós instituições centenárias ao lado de modernas instalações hospitalares numa paisagem que tem sido descrita como local “onde a tradição se junta à inovação tendo como objetivo a saúde da população”. É uma demonstração de poder. Público.

Quando entrei a primeira vez no prédio da Faculdade de Medicina, lembro-me bem, tive um tipo de dispneia (vale a visita, agora que está restaurada). “Nem parece que estamos no Brasil” – diziam com orgulho. O intróito é de mármore italiano. A escadaria central é imponente e, ao mesmo tempo, discreta. As salas de aula, tradicionais e belas. Vitrais, janelas, o relógio. As salas da diretoria e da Congregação são máquinas do tempo de austeridade e estilo. Obras de arte. Apenas lá pelo terceiro ou quarto ano da faculdade, a memória agora me falha, descobri que nossa belíssima casa fora construída com capital privado dos EUA proveniente da Fundação Rockefeller, por meio de acordos que se iniciaram no longínquo ano de 1916. Também o prédio do Instituto Oscar Freire, da Faculdade de Saúde Pública, do Hospital das Clínicas, além da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, ou receberam incentivos, ou foram totalmente construídos com verbas da mesma fundação. Demorei algumas décadas para me dar conta de tal extravagância. Na medida em que fui me inteirando dos fatos, questões foram surgindo. Por que cargas d’água uma fundação norte-americana com capital gigantesco proveniente da refinação monopolizada do petróleo e outras commodities (como carvão), forjada no pós-guerra civil (presumivelmente um conflito anti-escravidão), financiaria uma faculdade de medicina em um país sul-americano que, apenas algumas décadas antes do início das negociações, era uma monarquia escravagista? Por que o Brasil, e especificamente, a cidade de São Paulo? A medicina praticada aqui e lá era assim tão diferente para haver uma “exportação de tecnologia” dessa monta? Por que a Fundação Rockefeller acatou integralmente o tal relatório Flexner sobre ensino médico financiado por outra instituição (abastecida pelo capital da exploração também monopolizada do aço norte-americano) a Fundação Carnegie? Qual seria a relação entre esses eventos e a vinda de médicos norte-americanos ao Brasil, como Alan Gregg?

Desta vez, tive um tipo de cefaleia; e vertigem também. Isso sempre acontece quando tenho que pensar uma coisa muito grande e acho que minha cabeça não vai dar conta de pensar tudo, até o fim. Me foi inevitável relacionar os discursos de vários colegas e entidades médicas de hoje, expostos que estão por força de atitudes governamentais (vide Ato Médico, Programa Mais Médicos, etc), com as bases da estruturação do ensino médico no Brasil e, particularmente, em São Paulo. Haveria algo assim como uma “ideologia médica” alienante, esquizofrenizante? Algo que misturasse o humanismo visceral que os verdadeiros médicos carregam em suas entranhas com um vício de pensamento egocentrado e auto-referente? O que seria isso e como o diagnosticamos? De onde vem? Ao trazermos, com força, ao debate acalorado de hoje, a ciência que nos embasa e nossa própria sabedoria prática médica como argumentos inelutáveis ao criticismo “laico”, não estaríamos também invocando os fantasmas de um certo “conservadorismo sofisticado”, autoritário e paternalista, aos moldes dos grandes filantropistas à frente de suas poderosas fundações? Teria tudo isso alguma relação com a enorme crise na saúde norte-americana e seu encarecimento sem precedentes, com a interação, por vezes, promíscua dos médicos com as indústrias farmacêutica e de tecnologia médica, com o teor do que é publicado como ciência médica nas revistas especializadas, com as regras do jogo que transforma alguns de nós em professores titulares?

Tomei um grama de dipirona e fiquei com seu(?) gosto amargo na boca.

Discussão - 12 comentários

  1. Rockefeller e Carnegie competiam ferozmente, tanto quanto por quem seria o homem mais rico dos EUA, como por quem seria o mais “generoso”. Havia uma disputa quanto aos valores doados para filantropia e artes. Financiaram a criação de universidades, bibliotecas e salas de espetáculos EUA adentro e afora.

    O ministro da igreja batista Frederick Gates teve um papel fundamental na orientação da política de ações da Fundação Rockefeller. Passando de ações isoladas (“no varejo”) – suspeita-se, inicialmente realizadas como forma de melhorar a imagem do industrial – para ações em escala global (“no atacado”). Não se estranha que a FR tenha adquirido uma certa visão “messiânica” de propagar o ideário rockefelleriano. [1]

    A FR foi também agente da “política de boa vizinhança”.

    A escolha do Estado de São Paulo, provavelmente se deveu a uma visão prática de se obter o máximo de efeito com o dinheiro investido (“efeito de demonstração”) – nesse caso, preferiu-se local com uma melhor estrutura prévia, além de maior presença de imigrantes europeus [2].

    [1] http://books.google.com.br/books?id=b-Mgo8cptSkC&dq=funda%C3%A7%C3%A3o+rockefeller+brasil+petr%C3%B3leo&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s
    [2] http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702002000300005&script=sci_arttext
    ————-

    []s,

    Roberto Takata

  2. Andre Saijo disse:

    Atualmente, temos aulas de História da Medicina no segundo ano da faculdade, dentro das tentativas de humanizar o currículo médico. Interessantemente, nosso professor é extremamente franco no que se refere à fundação de nossa Casa: Dr. Arnaldo era presidente da Sociedade de Eugenia de São Paulo, conspirou para fechar a original Universidade de São Paulo e teve seus contatos e interesses com a Fundação Rockefeller.

    Estou curioso para ler as próximas postagens. Parece que a Residência Médica será bastante discutida por aqui. Interessante seu ponto de vista a respeito da situação atual!

    Abraços,
    André

    • Karl disse:

      André,

      As perguntas que movem o mundo parecem ser sempre as mesmas. “De onde viemos?” e “para onde vamos?”, nesse caso específico, fazem todo o sentido. Arnaldo Vieira de Carvalho era um ícone da elite intelectual e conservadora de São Paulo, não tenha dúvida. O fato de ser eugenista, na minha modesta opinião, não faz tanta diferença assim porque muitos cientistas da época como Haldane (o fisiologista), Fisher (o estatístico) e até mesmo o próprio Darwin, tinham um viés eugenista quase que inevitável, em função dos avanços científicos do momento.

      No mais, me sinto honrado por sua presença aqui. Este é um espaço que respira e transpira a “Casa de Arnaldo”. Seus filhos serão sempre muito bem-vindos.
      Obrigado pelo comentário.

    • alice de paula souza disse:

      Interessante, essa Sociedade de Eugenia… Faz pensar seriamente nas raízes da nossa FMUSP… e na postura elitista dos alunos e mestres.

  3. Fabiana disse:

    Algumas lembranças, só:

    Esquizofrenia (cultural, talvez científica):

    http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/montecristo/jussara/literatura/Machado_de_Assis.pdf

    Capitalismo (tupiniquim…):

    http://andsekkel.wordpress.com/2009/08/05/literatura-como-missao/

    Dor(es) de cabeça : )

    http://www.youtube.com/watch?v=Bx6HBc1v1So

    Ou sei lá. Talvez não tenha nada a ver… Ou tudo? : )

    Só o que me veio. Entre outras.
    bj

  4. […] Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo estabeleceu-se como uma “Rockefeller School”. Muitas outras escolas médicas a […]

  5. […] que tem lá suas glórias e é reconhecida por sua conquistas ao redor do planeta. Se nosso modelo hopkinsniano rockefelleriano atual não dá conta de atender a população, que se possa criar um alternativo que dê, mas não […]

  6. roberto soares de jesus disse:

    é crença popular (e talvez de muitos médicos)que a pressão alta é doença e não sintoma. Ora, o que adianta combater o roubo e esquecer que há uma patologia em quem rouba? Assim, o que adianta combater a pressão e não o que a eleva? E outro ponto legal é: 12 por 8 é pressão máxima ou ideal? Quem toma remédio para pressão não corre o risco de a elevar mais ainda já que o organismo tende a se adaptar àquela condição bioquímica? Não há um pânico desnecessário em torno desta questão já que há alguns 25 anos atrás talvez houvesse menos mortes relacionadas a isto, ou seja, não são os medicamentos fator de elevação da pressão arterial?
    estou curioso para ler os comentários, Karl

    Roberto

    • Karl disse:

      Roberto,

      A hipertensão é doença e fator de risco. Doença porque pode, ela mesma, levar a várias lesões em orgãos-alvo como rins, retina, coração. É fator de risco porque predispõe a outras doenças, em especial, à arteriosclerose, o que, por sua vez, levará ao infarto, derrames, etc. O valor de 120 por 80 mmHg é considerado “normal” por associação com eventos a longo prazo. Quem tem pressão maior que isso, tem mais eventos. Entretanto, mesmo esses valores podem ser elevados em pacientes portadores de vários fatores de risco (e doenças) como Diabetes, por exemplo. Nesses casos, o alvo da pressão deve ser até mais baixo que o famoso 12×8. Quem toma medicação para controlar a pressão não corre o risco de ter sua pressão elevada. Por fim, nossa população está envelhecendo e com isso mais pessoas chegam a idade avançada com situações clínicas características como hipertensão e arteriosclerose.

      Obrigado pelo interesse

      • roberto soares de jesus disse:

        espero que um dia as pessoas menos críticas possam entender o que está movendo os diagnósticos médicos além do interesse em curar as pessoas. Basta ver que a indústria farmacêutica é simplesmente a maior do mundo.
        hoje se toma remédio e mais remédio, mas não se vê saúde. os aparelhos tecnológicos não estão facilitando o diagnóstico das enfermidades? Ou será que eles estão criando mais demanda visando a ampliação dos lucros?
        quem entende um pouco de corpo humano e conhece o espirito capitalista sabe o quanto de engano se vende nas farmácias, nos consultorios médicos, etc

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