A Ciência Normal e a Normalidade da Ciência

normoseO conceito de “ciência normal”, conforme sugerido por Thomas Kuhn n’ “A Estrutura das Revoluções Científicas,” descreve um tipo de atividade científica caracterizada pelo que poderíamos chamar de “polimento” do paradigma vigente. Segundo o físico americano, tal atividade contribui para o progresso científico como o encaixe das peças contribui para a montagem de um quebra-cabeças. Entretanto, grandes saltos da ciência ocorrem quando a própria figura do quebra-cabeça é substituída, para manter a mesma analogia. Quando o próprio paradigma, estrutura formal de descrição da realidade, rui, incapaz de abarcar novos achados experimentais, a ciência avança. Um outro paradigma deve ser proposto de forma a explicar os novos fenômenos aumentando, assim, nossa capacidade de compreensão (ou de previsão de fenômenos) do mundo.

Críticas a esse modelo não faltam, mas ele ainda permite compreender alguns dos problemas que assolam o mundo científico, em especial, concernentes ao seu braço editorial, responsável pela divulgação dos achados factuais e considerado fundamental para o desenvolvimento da ciência de forma geral. Ao definir a quantidade de publicações como critério de qualidade de um grupo de pesquisa, tal como fazem os sistemas de avaliação atuais, determinamos suas atribuições editoriais como as mais importantes. Não importa quão inovadora é a pesquisa (algo que só vai ser esclarecido muitos anos mais tarde), quão criativa e quanto progresso trará no futuro, importa apenas se está publicada. A publicação transforma-se em um fim em si; a pesquisa, em mero pretexto.

Por suas próprias características, é muito mais fácil publicar a “ciência normal” kuhniana do que algo que vá subverter toda uma ordem científica a partir de então. Não é possível quebrar paradigmas tão facilmente, até porque eles são construídos a partir das fraquezas de seus antecessores. Ao replicarmos tal modelo em âmbito mundial, criamos um exército de cientistas “normais”, mas não incentivamos a criatividade, a inovação e o dissenso. É isso que pode ser chamado de “padronização do meio acadêmico”. Uma adequação conforme um modus operandi que visa publicar, obter financiamento para pesquisa e publicar mais. Não por acaso, vários pesquisadores importantes têm se mostrado contra tal modelo. Expressões como “normose” (adaptação a situações patológicas), “crise de criatividade”, “pasteurização da ciência”, entre outras, são utilizadas para descrever esse contexto.

Como conciliar a restrita disciplina do método científico com a saudável liberdade do pensar, da argumentação sem evidências, da articulação irresponsável de ideias, de forma que a criatividade, ainda a melhor ferramenta que temos para responder perguntas, não seja acorrentada e suprimida, será o grande desafio que a ciência deverá encarar nos próximos anos. Afinal, as perguntas mais difíceis são sempre aquelas que se encontram na mais profunda intimidade de nossas próprias contradições.

Discussão - 6 comentários

  1. Erick Soares Lins disse:

    Liberar a criatividade para correr solta na ciência requereria uma mudança muito grande das estruturas em volta – como bem escrito, a parte de publicações, os mecanismos de financiamento e tal. É algo grande demais para nós pequenos bolsistas conseguirmos sequer arranhá-la. Mas isso não é exclusividade da pesquisa. Dar espaço pra criatividade significa diminuir controle, o que por sua vez abre possibilidade de erros – coisa que o mundo não tolera muito, principalmente em certas atividades críticas. As próprias corporações não estão acostumadas a essa ideia, e sim a repetição de processos que sabidamente dão certo. Eu tava lendo o Creativity Inc., que é a história da Pixar do ponto de vista gerencial, e ele aborda isso como um diferencial eles em relação a outros estúdios, e até extrapolando ao design e indústria.
    Enfim, temos que dar retorno ao investimento aplicado, é meio que exigência do cliente. E “o freguês tem sempre razão”

  2. Karl disse:

    Poxa, Erick. Gostaria que esse texto te inspirasse a pensar diferente. Quem sabe um dia corporações, editores, peer reviewers não irão se sensibizar com a creatividade solta.. hehe
    abraços

  3. Rudolf disse:

    A falta de creatividade e a repetição das mesmas coisas vão além do sistema de bolsas promovendo números ao invés de qualidade. Já existia antes da indústria das publicações. É também o motivo para o colapso do império galático na Fundação de Asimiv. Repetição em pesquisa e rasgamento de superfície também existe na indústria, mas não é regra geral. Volta e meia aparecem produtos inovadores. Inovação envolve riscos. Riscos são assustadores a princípio, mas existem técnicas para administra-los. Também há métodos para promover criatividade que são possíveis de ser aprendidos. Organizações e cientistas inteligentes usam esse tipo de técnica. Por fim, a interdisciplinaridade é muito importante para a criatividade. Na maior parte das vezes, a inovação acontece com a introdução de ideias e métodos usados por outros grupos de pessoas/cientistas/”criadores de qualquer coisa” numa certa atividade. Inovação acontece quando onhecimentos dominados em outras áreas é aplicado numa nova área, seja essa uma aplicação direta ou uma aplicação análoga. É por isso que eu sempre leio este blog. Trabalho com engenharia médica, e leio sobre filosofia médica para usar o que eu aprendo aqui numa forma subjetiva, sei lá como.

    • Karl disse:

      Pois é.. Rudolf. Mas eu sempre fico pensando numa domesticação desse risco em inovar. Me explico. É comum nas empresas coisas como ‘brain storming’, reuniões de criação e tal, não é? Inovar envolve criar. Criar é um troço totalmente estocástico. Sempre que tentamos ‘dirigir’ um processo de criação corremos o risco de restringi-lo. É nessa zona intermediária que deve estar a resposta. O post não teve a pretensão desse alcance. Me referia especificamente à questão das publicações que, de uma certa forma, ajudam a restringir a criatividade, acho eu.

      Obrigado pelo sempre pertinente comentário

      • Rudolf disse:

        Sobre brainstorming:
        https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/0a/71/19/0a7119d28d826350de29e2d33b46bd24.jpg

        Existem metodologias de inovação, e essas metodologias evoluem com o tempo. Não manjo muito de motivação de criatividade, mas já tive alguns cursos de criatividade em desenvolvimento de produto. Não acho que exista o segredo da criatividade. Acho que a criatividade vem mais de uma bagagem da mistura de diversas experiências da vida. Criatividade pode ser ensinada? Sim e não… não dá para se “ensinar” criatividade e cobrar na prova. Acho que pode ser estimulada.

        Sim, o modelo de sistema de pesquisa não parece estimular a criatividade; pelo contrário. Criatividade não pode ser medida diretamente, nem mesmo com números. Como se pode distribuir bem os recursos escassos para pesquisa de maneira impessoal? Acho que nenhum país ou agencia de fomento tem uma solução para isso.

        Sabe o que eu acho que mais funciona para pesquisa? Quando a fonte do dinheiro faz uma encomenda: “quero que em 10 anos coloquemos um astronauta na lua, dou X dinheiros para quem fizer boas propostas. Depois dou mais dinheiro para quem demonstrar a viabilidade da proposta. Depois dou muito, mas muito mais dinheiro para fazer isso dar certo.”

        • Karl disse:

          Acho que concordamos, ao menos em parte. Entretanto, quanto à definição dos rumos da pesquisa há que se tomar um cuidado. Uma coisa que os cientistas costumam esquecer é que a definição do rumo das pesquisas não pertence apenas a eles. Isso gera muita controvérsia. Lembro-me de um exemplo que para mim ficou clássico. O professor de fisiologia respiratória da Harvard era um cara que se chamava Jere Mead (http://jap.physiology.org/content/jap/early/2009/10/08/japplphysiol.01125.2009.full.pdf). A Harvard meio que extinguiu o departamento de fisiologia depois que ele se aposentou em 1987 e seu filho, que estudava biologia molecular, costumava brincar com o pai dizendo que ele fazia paleofisiologia. Os grants já eram bastante escassos para estudar mecânica respiratória na época e estavam muito mais voltados à biologia molecular ou à epidemiologia clínica (abordei esse assunto aqui http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2008/03/a-ciencia-medica/). Ou seja, as agências de fomento já tem esse poder de “orientar” os rumos da pesquisa. O jornais têm um papel decisivo nisso também ao definir o que é “hot” ou não para ser publicado. O cientista, que tem que publicar se não morre, vai na onda..

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