{"id":1057,"date":"2011-11-21T15:41:43","date_gmt":"2011-11-21T18:41:43","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=1057"},"modified":"2011-11-21T15:41:43","modified_gmt":"2011-11-21T18:41:43","slug":"stravinsky-roth-e-a-grand-place","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/11\/21\/stravinsky-roth-e-a-grand-place\/","title":{"rendered":"Stravinsky, Roth e a Grand Place"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1063\" style=\"width: 342px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/11\/stravinsky-roth-e-a-grand-place\/grand-place\/\" rel=\"attachment wp-att-1063\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1063\" class=\"size-full wp-image-1063   \" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/11\/Grand-place.jpg\" alt=\"\" width=\"332\" height=\"442\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/11\/Grand-place.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/11\/Grand-place-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/11\/Grand-place-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/11\/Grand-place-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/11\/Grand-place-1080x1440.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1063\" class=\"wp-caption-text\">Grand Place, Bruxelas, B\u00e9lgica 2011<\/p><\/div>\n<p>Pessoas que me cercam costumam usar a palavra &#8220;atormentado&#8221; para definir um estado de esp\u00edrito que, por vezes, me consome. Um estado de profunda introspec\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o por temas ou autores ou m\u00fasicas ou qualquer que seja a pe\u00e7a intelectual que se encaixe nesse cen\u00e1rio. N\u00e3o seria uma tristeza, nem um estado depressivo. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o de sangue correndo nas veias, de pensamentos trespassando o esp\u00edrito, uma <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Sentience\">senci\u00eancia<\/a> do tempo; coisas assim. O que \u00e9 engra\u00e7ado nisso tudo \u00e9 que volta-e-meia acabo arrumando uma rela\u00e7\u00e3o entre esses v\u00e1rios objetos de tempor\u00e1ria obsess\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o que talvez s\u00f3 exista na minha cabe\u00e7a, ex\u00edmia em encontrar padr\u00f5es onde, no mais das vezes, eles n\u00e3o existem. Quando existem, h\u00e1 quem chame essa visualiza\u00e7\u00e3o de <em>intui\u00e7\u00e3o<\/em>. E de repente, por uns breves segundos, intu\u00edmos um sentido para o mundo para logo depois, essa bruma de hiperconsci\u00eancia se dissipar num cotidiano qualquer. Querem um exemplo?<\/p>\n<p>Vamos com um fundo musical primeiro. Stravinsky. Estou fascinado por <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Igor_Stravinsky\">Stravinsky<\/a>. Para se ter uma ideia do meu conhecimento de m\u00fasica erudita, raramente ouvi algo al\u00e9m de Bach (o velho) e Mozart (pe\u00e7as principais). Haendel (sinfonia aqu\u00e1tica) \u00e9 legal. Pronto, acabou. N\u00e3o tenho ouvido para coisas muito complicadas e prefiro ritmos e improvisa\u00e7\u00f5es. Villa-Lobos, s\u00f3 no viol\u00e3o do Egberto. No feriado, entretanto, vi o filme <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Coco_Chanel_%26_Igor_Stravinsky\">Coco Chanel &amp; Igor Stravinsky<\/a> de Jan Kounen. Desde ent\u00e3o, escutei tudo o que pude de Stravinsky (al\u00e9m de descobrir em peregrina\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, que as grandes lojas de discos de S\u00e3o Paulo n\u00e3o sabem e n\u00e3o t\u00eam absolutamente nada sobre ele). H\u00e1 uma m\u00fasica no filme, ironicamente chamada de &#8220;<em><a href=\"http:\/\/youtu.be\/onYs9iYfI10\">Les 5 easy piece pour piano solo<\/a><\/em>&#8221; em seu primeiro movimento, um <em>andante,<\/em>\u00a0que \u00e9, como diria, tenebrosa? Sombria? Mas ao mesmo tempo, prodigiosa na sua simplicidade. Depois disso, ouvi a Petrushka, as sinfonias para violino (sensacionais), ouvi tudo que consegui&#8230; A m\u00fasica de Stravinsky foi uma surpresa de grandiosidade para mim, como uma prosa nietzscheana, como uma explos\u00e3o sexo-lingu\u00edstica em Miller, como a vol\u00fapia de uma cerveja na Grand Place em Bruxelas.<\/p>\n<p>Fiquei tamb\u00e9m fascinado pela palavra <em>n\u00eamesis<\/em> e por <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Nemesis_(mythology)\">N\u00eamesis<\/a><\/em>, a deusa. Descobri que h\u00e1 um livro chamado a &#8220;N\u00eamesis da Medicina&#8221; de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ivan_Illich\">Ivan Illich<\/a>, veja s\u00f3. Illich morreu em 2002 e no ano seguinte foi re-publicado um artigo &#8211; a partir de seu original no <em>The<\/em>\u00a0<em>Lancet<\/em> de 1974 &#8211; com o resumo das ideias do livro no anivers\u00e1rio de seu falecimento (abaixo). A deusa N\u00eamesis \u00e9 a deusa da vingan\u00e7a, mas n\u00e3o uma vingan\u00e7a qualquer. Ela personifica a vingan\u00e7a divina a quem sucumbe \u00e0\u00a0<em>hybris, <\/em>uma mistura de soberba com &#8220;sem-no\u00e7\u00e3ozismo&#8221;, que leva um mortal a &#8220;se achar&#8221; perante aos deuses e, obviamente, a fazer enormes besteiras. Illich come\u00e7a o artigo com a seguinte frase (em livre tradu\u00e7\u00e3o): &#8220;Nas \u00faltimas d\u00e9cadas a pr\u00e1tica m\u00e9dica profissional tem se tornado uma grande amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade.&#8221; Prossegue dizendo que &#8220;as assim chamadas profiss\u00f5es da sa\u00fade t\u00eam um poder morbidizante indireto &#8211; um efeito anti-sa\u00fade (<em>health<\/em>&#8211;<em>denying<\/em>)\u00a0estrutural.&#8221; Esta \u00faltima sindrome, \u00e9 batizada de <em>N\u00eamesis M\u00e9dica<\/em>. Em uma interpreta\u00e7\u00e3o particular do mito de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Prometeu\">Prometeu<\/a>, Illich o coloca como vil\u00e3o da hist\u00f3ria e o aproxima do &#8220;homem-comum&#8221; contempor\u00e2neo que provocou a inveja dos deuses e atraiu para si sua pr\u00f3pria n\u00eamesis. N\u00eamesis que agora se tornou end\u00eamica, como um efeito colateral do progresso, disseminada em v\u00e1rias atividades, inclusive na pr\u00f3pria medicina.<\/p>\n<p>N\u00eamesis \u00e9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo de um <a href=\"http:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=12807\">romance<\/a> de Philip Roth (vejam interessante\u00a0<a href=\"http:\/\/www.amalgama.blog.br\/10\/2011\/casamento-severo\/\">resenha<\/a> no Am\u00e1lgama). O livro \u00e9 ambientado em Newark &#8211; EUA na \u00e9poca da epidemia de poliomielite bulbar que acometeu a Am\u00e9rica do Norte e a Europa na d\u00e9cada de 50. (A mesma epidemia que possibilitou <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/08\/acidos_bases_e_uti_v\/\">a cria\u00e7\u00e3o das unidades de terapia intensiva<\/a>). Nesse livro, a n\u00eamesis \u00e9 a p\u00f3lio, <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/arteelazer,philip-roth-fala-de-seu-novo-romance-nemesis,575532,0.htm\">veja s\u00f3<\/a>.<\/p>\n<p>Fiquei ouvindo Stravinsky pelo YouTube do celular no carro no tr\u00e2nsito massacrante de S\u00e3o Paulo uma semana inteirinha. Fiquei lendo n\u00eamesis, m\u00e9dicas e n\u00e3o-m\u00e9dicas, ouvindo Stravinsky. Comecei um romance sobre p\u00f3lio, lembrei de viagens, pra\u00e7as, mo\u00e7as e cervejas&#8230; tudo ouvindo Igor (virei \u00edntimo). Intui que isso talvez seja, precisamente, viver. Atormentado. O duro \u00e9 viver comigo&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+Epidemiology+%26+Community+Health&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1136%2Fjech.57.12.919&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Medical+nemesis&amp;rft.issn=0143-005X&amp;rft.date=2003&amp;rft.volume=57&amp;rft.issue=12&amp;rft.spage=919&amp;rft.epage=922&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fjech.bmj.com%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1136%2Fjech.57.12.919&amp;rft.au=Illich%2C+I.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Medicine%2CHealth%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Illich, I. (2003). Medical nemesis <span style=\"font-style: italic\">Journal of Epidemiology &amp; Community Health, 57<\/span> (12), 919-922 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1136\/jech.57.12.919\" rev=\"review\">10.1136\/jech.57.12.919<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pessoas que me cercam costumam usar a palavra &#8220;atormentado&#8221; para definir um estado de esp\u00edrito que, por vezes, me consome. Um estado de profunda introspec\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o por temas ou autores ou m\u00fasicas ou qualquer que seja a pe\u00e7a intelectual que se encaixe nesse cen\u00e1rio. 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