{"id":1505,"date":"2012-01-27T02:46:23","date_gmt":"2012-01-27T05:46:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=1505"},"modified":"2012-01-27T02:46:23","modified_gmt":"2012-01-27T05:46:23","slug":"um-rosto-sem-as-macas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/01\/27\/um-rosto-sem-as-macas\/","title":{"rendered":"Um Rosto sem as Ma\u00e7\u00e3s"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>1<\/strong><\/p>\n<p>O Ambulat\u00f3rio Did\u00e1tico estava frio e vazio naquela manh\u00e3 de sexta-feira. Era meu dia de chegar primeiro. Cumprimentei os funcion\u00e1rios de sempre com um sorriso autom\u00e1tico, contornei o cadastro de pacientes e entrei na sala de discuss\u00e3o afundando na poltrona de couro surrado que nunca me parecera t\u00e3o confort\u00e1vel. Dor de cabe\u00e7a e sono s\u00e3o uma combina\u00e7\u00e3o terr\u00edvel para quem tem que discutir didaticamente casos de Cl\u00ednica M\u00e9dica com alunos do 5o ano de medicina. Eles s\u00e3o, por vezes, digamos, demasiado insistentes em detalhes que t\u00eam pouca import\u00e2ncia. A mentalidade pr\u00e1tica do m\u00e9dico mais experiente constroi atalhos dif\u00edceis de serem trilhados pelos estudantes. Se bem que eu n\u00e3o poderia ser chamado exatamente de experiente dado que terminara a resid\u00eancia h\u00e1 apenas 2 anos. Na verdade, eu era bem mais confiante que experiente. Tinha aquela confian\u00e7a pr\u00f3pria de motociclistas cuja moto ainda nunca havia derrubado. Ocupava a mesma posi\u00e7\u00e3o de outros m\u00e9dicos, estes sim, com 20 ou 30 anos de formatura. Senhores bonach\u00f5es aos quais eu frequentemente confrontava em conhecimento e condutas. Eles, bem, digo que eles tinham bastante paci\u00eancia comigo.<\/p>\n<p>Dizia ent\u00e3o, que sentara na poltrona e, com a cabe\u00e7a apoiada na m\u00e3o direita fechada sobre minha maxila, fiquei a vegetar modorrento, quase arrependido da noite anterior, quando chegou um interno com a ficha de um paciente na m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>2<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Posso discutir um caso?&#8221; &#8220;Claro&#8221; eu disse sem a menor convic\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 uma paciente de 31 anos cuja queixa \u00e9 que seu rosto emagreceu&#8230;&#8221; disse o aluno e ficou me encarando, esperando alguma rea\u00e7\u00e3o. De olhos fechados, inabal\u00e1vel, eu disse &#8220;Quantos quilos ela perdeu e em quanto tempo?&#8221; iniciando a caracterizac\u00e3o anamn\u00e9stica de um poss\u00edvel quadro consumptivo. &#8220;Ela engordou&#8221; disse o quintanista, com um rasgo indisfar\u00e7\u00e1vel de prazer. Eu tive que abrir os olhos e olhar para o rapaz. Era um garoto grande, 1,90 m, bom aluno e bom atleta, mas nada de excepcional. J\u00e1 conhecia-o de outros casos e nunca tinha me chamado aten\u00e7\u00e3o exceto pelo corpanzil. Seus pacientes que retornariam das consultas passadas ainda n\u00e3o haviam chegado e ele resolveu chamar a mo\u00e7a que aguardava, sozinha, na sala de espera. \u201cEngordou?\u201d \u201cSim. Disse que ganhou uns 3 kg. Mas, o rosto emagreceu\u201d \u2013 respondeu agora bem s\u00e9rio, dando peso \u00e0s suas afirma\u00e7\u00f5es. A impress\u00e3o de que ele me pregava uma pe\u00e7a foi se dissipando.\u00a0\u201cVoc\u00ea a examinou?\u201d \u201cSim. N\u00e3o vi nada de mais. Tudo normal.\u201d Levantei da minha poltrona e fiz sinal para que ele me mostrasse o consult\u00f3rio onde estava. O ambulat\u00f3rio come\u00e7ava a receber outros pacientes e a sala de pr\u00e9-consulta \u2013 onde as enfermeiras aferem os dados vitais e avaliam as queixas dos pacientes \u2013 j\u00e1 estava lotada. Entramos no consult\u00f3rio 12.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>3<\/strong><\/p>\n<p>Era uma mo\u00e7a bem clara, de cabelos castanho-claro, finos e estendendo-se at\u00e9 os ombros; t\u00edmida, corou ao me ver. Me apresentei e sentei na cadeira reservada ao m\u00e9dico. O aluno ficou em p\u00e9 do meu lado direito. \u201cO que aconteceu?\u201d \u2013 perguntei. \u201cDr. Eu vou me casar em Julho e fui experimentar o vestido. A costureira ao me ver ficou feliz porque achou que eu tivesse emagrecido. Mas na verdade, engordei. Acho que estou nervosa, trabalhando muito e tenho abusado do chocolate\u201d \u2013 disse isso e olhou para o ch\u00e3o, como se tivesse cometido um pecado. \u201cSim. Mas e a hist\u00f3ria do seu rosto?\u201d \u2013 perguntei querendo chegar logo ao problema. \u201cPois \u00e9. Todo mundo est\u00e1 dizendo que meu rosto emagreceu, mas eu, de fato, engordei um pouco.\u201d Olhei bem de frente para ela. Levantei e peguei seu queixo com a m\u00e3o direita, para examin\u00e1-la bem de perto. Eu jamais tinha visto algo semelhante. De fato, o rosto da mo\u00e7a estava emagrecido. As ma\u00e7\u00e3s do rosto bem murchas deixavam transparecer os ossos que estavam por tr\u00e1s. Os olhos discretamente encovados. Tive uma ideia. \u201cVoc\u00ea tem alguma fotografia antiga com voc\u00ea? A identidade, por exemplo?\u201d Ela tinha. A foto n\u00e3o deixava d\u00favidas. Seu rosto, de fato, emagrecera, dando-lhe um aspecto que chamamos de <em>emaciado<\/em>. Nenhum sinal de desnutri\u00e7\u00e3o. Nenhuma outra queixa. Nada. Apenas um rosto sem as ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/01\/um-rosto-sem-as-macas\/consultorio-12\/\" rel=\"attachment wp-att-1510\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1510 aligncenter\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/01\/Consultorio-12.jpeg\" alt=\"\" width=\"180\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>(Continua&#8230;)<\/p>\n<p>PS. A foto acima n\u00e3o \u00e9 da paciente em quest\u00e3o, mas \u00e9 supreendentemente parecida e me lembrou esta hist\u00f3ria. Colocarei o link na continua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 O Ambulat\u00f3rio Did\u00e1tico estava frio e vazio naquela manh\u00e3 de sexta-feira. Era meu dia de chegar primeiro. 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