{"id":1631,"date":"2012-02-23T14:05:15","date_gmt":"2012-02-23T17:05:15","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=1631"},"modified":"2012-02-23T14:05:15","modified_gmt":"2012-02-23T17:05:15","slug":"as-deformacoes-do-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/02\/23\/as-deformacoes-do-ver\/","title":{"rendered":"As Deforma\u00e7\u00f5es do Ver"},"content":{"rendered":"<p>Viajando de carro por uma estrada cercada de vegeta\u00e7\u00e3o exuberante.<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/02\/as-deformacoes-do-ver\/are-we-there-yet\/\" rel=\"attachment wp-att-1632\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1632\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/02\/Are-We-There-Yet.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/02\/Are-We-There-Yet.jpg 350w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/02\/Are-We-There-Yet-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Filho: &#8220;Vai demorar muito, Pai?&#8221;<\/p>\n<p>Pai: &#8220;Acho que mais 1 hora.&#8221;<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Uma hora! Que chato! N\u00e3o aguento mais &#8220;tipo&#8221; ficar no carro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Esse di\u00e1logo repetiu-se por 3 vezes com intervalos cada vez menores e varia\u00e7\u00f5es regressivas na estimativa de chegada do grande, assim como nas interjei\u00e7\u00f5es de extremo enfado do pequeno, acercadas de &#8220;tipos&#8221; por todos os lados. Foi quando o pai resolveu jogar sujo.<\/p>\n<p>Pai: &#8220;Filho, o que voc\u00ea acha dessa floresta?&#8221;<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Bonita, u\u00e9. Por qu\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>Pai: &#8220;E de que cor ela \u00e9?&#8221;<\/p>\n<p>Filho (espantado pelo retrovisor): &#8220;Verde, ora. Como assim?&#8221;<\/p>\n<p>Pai: &#8220;Verde. Mas como eu sei que o verde que <em>voc\u00ea<\/em> v\u00ea \u00e9 igual ao verde que <em>eu<\/em> vejo?&#8221;<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Porque \u00e9.&#8221;<\/p>\n<p>Pai: &#8220;Como voc\u00ea sabe? E se o que n\u00f3s chamamos de <em>verde<\/em> for, digamos, um tipo de <em>vermelho<\/em> pra voc\u00ea que desde beb\u00ea achou que aquilo era um <em>verde<\/em>\u00a0e ficou por isso mesmo?&#8221;<\/p>\n<p>Filho (come\u00e7ando a sentir o efeito): &#8220;S\u00f3 um nome?&#8221;<\/p>\n<p>Pai (com um olho no retrovisor onde v\u00ea o menino com o olhar perdido pela janela do carro e o outro na m\u00e3e que com as sombrancelhas fletidas expressava uma certa reprova\u00e7\u00e3o pelo conhecido golpe baixo): &#8220;Isso. <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Distinguishing_blue_from_green_in_language\">S\u00f3 um nome<\/a>&#8221; &#8211; tirando uma das m\u00e3os do volante, para apontar o c\u00e9u com o indicador.<\/p>\n<p>Entrando numa pequena estrada.<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Mas, ent\u00e3o. Tipo&#8230; Mas o que isso <em>afeta<\/em> (verbo utilizado por crian\u00e7as habituadas ao game <em>Pok\u00e9mon<\/em>\u00a0da Nintendo dado que determinados golpes n\u00e3o <em>afetam<\/em> o oponente, no sentido de diminuir sua energia vital, p.ex. golpes de \u00e1gua afetar\u00e3o pouco pokemons aqu\u00e1ticos que, por sua vez, s\u00e3o bastante <em>afetados<\/em> por golpes de fogo e assim por diante)?&#8221;<\/p>\n<p>Pai (Pensando: &#8220;Maldito moleque pragm\u00e1tico! Puxou a m\u00e3e!&#8221; Esta n\u00e3o conseguiu evitar que sua boca se deslocasse leve e charmosamente para direita. Ele conhecia aquele sorriso. Mantinha os olhos na estrada, um pouco mais perigosa e movimentada agora. A floresta havia dado lugar a casinhas e pequenas propriedades): &#8220;Isso &#8216;afeta&#8217; que cada um de n\u00f3s tem um jeito de ver as coisas.&#8221; (seja o que Deus quiser, pensou de novo).<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Mas, Pai&#8230; (mudando o tom enfezado e esbo\u00e7ando um certo cansa\u00e7o pelo esfor\u00e7o de abstra\u00e7\u00e3o)&#8230; E meus desenhos?&#8221;<\/p>\n<p>Acabando de entrar numa estrada de terra com pedregulhos que, ao atingir o ch\u00e3o do carro, soavam como o inverso de uma chuva seca.<\/p>\n<p>Pai: &#8220;Que \u00e9 que tem seus desenhos?&#8221;<\/p>\n<p>Filho: &#8220;Se eu desenho o que eu vejo, a pessoa que olha, tipo, v\u00ea o qu\u00ea? O que eu vi?&#8221;<\/p>\n<p>Foi quando uma voz feminina aveludada e calma disse, em bom sotaque portugu\u00eas: &#8220;Chegando ao seu destino&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viajando de carro por uma estrada cercada de vegeta\u00e7\u00e3o exuberante. 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