{"id":1732,"date":"2012-03-02T18:31:26","date_gmt":"2012-03-02T21:31:26","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=1732"},"modified":"2012-03-02T18:31:26","modified_gmt":"2012-03-02T21:31:26","slug":"o-sherpa-subterraneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/03\/02\/o-sherpa-subterraneo\/","title":{"rendered":"O Sherpa Subterr\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1737\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/03\/o-sherpa-subterraneo\/andarilho\/\" rel=\"attachment wp-att-1737\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1737\" class=\" wp-image-1737\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/03\/andarilho.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"306\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/03\/andarilho.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/03\/andarilho-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1737\" class=\"wp-caption-text\">Caspar Friederich - O andarilho<\/p><\/div>\n<p>A melhor forma de aproximar-se de um &#8220;conhecimento&#8221; e operacionaliz\u00e1-lo de modo a poder emitir ju\u00edzos com valor de verdade sobre ele \u00e9, na minha opini\u00e3o, escalar-lhe os caminhos montanhosos de suas v\u00e1rias faces dotados das &#8220;ferramentas&#8221; que nossa condi\u00e7\u00e3o humana permite. Ci\u00eancia, literatura, filosofia, artes, s\u00e3o formas de captar o que nos cabe da <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/01\/coisa-em-si\/\">coisa-em-si<\/a>\u00a0humana. Argue-se que um desequil\u00edbrio axiol\u00f3gico em rela\u00e7\u00e3o ao que representa uma verdade cient\u00edfica e uma liter\u00e1ria ou pict\u00f3rica, pode inviabilizar essa discuss\u00e3o, como a disputa entre o rochedo e o mar. Muito foi escrito sobre isso e tal debate est\u00e1 mesmo na base de uma teoria da verdade que tem na ci\u00eancia seu modelo mais bem acabado. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel concordar com <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.2307\/427972\">Albert Levi<\/a> quando ele diz que &#8220;mesmo nossas armas foram roubadas&#8221;, pois ao tentar atribuir verdades a obras liter\u00e1rias, p.ex., as julgamos com os &#8220;ju\u00edzes da ci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Esse assunto me \u00e9 bastante caro como pode ser notado por sua recorr\u00eancia nesse blog, mas me justifico. Se a medicina n\u00e3o deve ser confundida com a ci\u00eancia m\u00e9dica &#8211; um de seus pilares de sustenta\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 porque o paciente n\u00e3o pode ser <em>reduzido<\/em> \u00e0 fisiologia, fisiopatologia e farmacologia de suas agruras. Qualquer m\u00e9dico que n\u00e3o seja um cientista em exerc\u00edcio ilegal da profiss\u00e3o sabe que a ci\u00eancia m\u00e9dica n\u00e3o d\u00e1 conta do todo de seus pacientes. Adoecer \u00e9 uma forma de <em>ser-no-mundo<\/em> que pode ser entendida de <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/08\/dek_-_doenca\/\">v\u00e1rias maneiras<\/a>. Se assim \u00e9, deve haver outros caminhos que conduzam \u00e0s verdades deste ou daquele pacientes individuais. Mas que caminhos? Perdemos a inoc\u00eancia quando descobrimos o vi\u00e9s. Tais individualidades assemelham-se mais a idiossincrasias sem padr\u00f5es definidos, a um labirinto no qual n\u00e3o se trilha o mesmo caminho duas vezes.<\/p>\n<p>A n\u00f3s, m\u00e9dicos de um tempo em que a informa\u00e7\u00e3o e sua velocidade viral formam a tessitura do real que nos afeta, resta conhecer as outras faces da montanha que constituem um paciente de carne e ossos. Como se n\u00e3o bastasse as centenas de artigos, livros e pr\u00e1tica \u00e1rdua e incessante que visam a resposta \u00e0 pergunta &#8220;o que \u00e9?&#8221;, ao m\u00e9dico ainda urge a indaga\u00e7\u00e3o abissal: &#8220;<em>quem<\/em> \u00e9 esse ser que sofre?&#8221; Do que \u00e9 ele constitu\u00eddo e como esse &#8220;material&#8221; afeta seu ser-no-mundo? Ah, h\u00e1 ainda o mundo&#8230;<\/p>\n<p>Compreenderia melhor se eu sentisse as dores que sentem? Se sentisse a falta de ar que sentem? Acolheria melhor se me acometesse o medo que os acomete? Mestre da interpreta\u00e7\u00e3o dos signos, sou o mero usu\u00e1rio de um programa escrito pelo paciente no que se refere a este &#8220;lado oculto da montanha&#8221;. Esse programa, constru\u00eddo ao longo de toda sua vida com a <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?s=gadamer+que+flui+de+pessoa+para+pessoa\">vasta riqueza que flui do contato entre humanos<\/a> e suas humanidades, me ilude e confunde. Eu precisava &#8220;falar&#8221; a <em>linguagem de m\u00e1quina<\/em> subjacente a esse <em>software<\/em>. (E n\u00e3o me venham com a psican\u00e1lise! Tamb\u00e9m ela,\u00a0<em>software<\/em>. E, ainda pior, metalinguistico).<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que entendi que n\u00e3o estavam nas alturas as minhas respostas. De fato e ao contr\u00e1rio, \u00a0precisava de algo como um <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Sherpa_people\">sherpa<\/a>\u00a0<\/em>subterr\u00e2neo, senhor dos caminhos intr\u00ednsecos de seu pr\u00f3prio ser. Precisava de um super-paciente com poderes de express\u00e3o al\u00e9m do homem que pudesse levar-me ao n\u00edvel primitivo de sua constitui\u00e7\u00e3o primordial. Que me conduzisse \u00e0 crueza e \u00e0 viol\u00eancia de seus impulsos mais b\u00e1sicos para eu ent\u00e3o ver, com meus pr\u00f3prios olhos, onde est\u00e1 a semente que se desdobra em doen\u00e7a l\u00e1 em cima, l\u00e1 na superf\u00edcie revolta e polu\u00edda das conven\u00e7\u00f5es sociais onde se d\u00e1 o fat\u00eddico encontro. Mas, um paciente assim subverte o equil\u00edbrio de for\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o com m\u00e9dico subvertendo tamb\u00e9m, a pr\u00f3pria medicina. Ao m\u00e9dico \u00e9 necess\u00e1rio deixar-se sequestrar por ele o que n\u00e3o acontecer\u00e1 se ele n\u00e3o tiver a consci\u00eancia do querer.\u00a0O m\u00e9dico \u00e9 <strong>treinado<\/strong> para n\u00e3o faz\u00ea-lo e, se for bom, n\u00e3o o far\u00e1 de fato. A \u00fanica alternativa poss\u00edvel ent\u00e3o, \u00e9 abandonar a arena de embate onde se d\u00e1 o contato com o paciente e procur\u00e1-lo em outros lugares sem deixar de &#8220;estar&#8221; m\u00e9dico sob o risco de perder o olho cl\u00ednico que o identifica. E onde encontr\u00e1-lo? Antes, onde procur\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Se consideramos, como acima, outras formas de obten\u00e7\u00e3o de &#8220;verdades&#8221; com todos os problemas que disso possam decorrer, temos que procurar pelos grandes mestres e por seus vest\u00edgios patol\u00f3gicos. Ora, quem dentre os humanos domina a linguagem das artes? Quem dentre n\u00f3s traduz melhor seus interst\u00edcios mais febris em quadros, poesias, livros, esculturas, personagens, m\u00fasica e todas as manifesta\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito humano? Como \u00e9 quando um g\u00eanio das artes escreve, pinta, comp\u00f5e, representa, sobre suas doen\u00e7as ou sobre a forma como percebe as doen\u00e7as? Ao conceber uma obra de car\u00e1ter universal, um artista contribui para o <em>corpus <\/em>cultural\u00a0da humanidade, criando novos gostos, novas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o, novas formas de ser-no-mundo e com elas, novas formas de adoecer. E o ciclo se fecha.<\/p>\n<p>Por isso, quando um pintor como C\u00e9zanne faz a pergunta da crian\u00e7a\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/02\/as-deformacoes-do-ver\/\">\u201cse eu desenho o que eu vejo, a pessoa que olha, tipo, v\u00ea o qu\u00ea? O que eu vi?\u201d<\/a>\u00a0a resposta vem na forma de uma sabedoria profunda. \u00c9 como se perguntasse &#8220;quando eu conto a voc\u00ea a dor que sinto, o que \u00e9 que voc\u00ea sente?&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_tiny.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=The+Journal+of+Aesthetics+and+Art+Criticism&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.2307%2F427972&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Literary+Truth&amp;rft.issn=00218529&amp;rft.date=1966&amp;rft.volume=24&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=373&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.jstor.org%2Fstable%2F427972%3Forigin%3Dcrossref&amp;rft.au=Levi%2C+A.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Health%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Levi, A. (1966). Literary Truth <span style=\"font-style: italic\">The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 24<\/span> (3) DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.2307\/427972\" rev=\"review\">10.2307\/427972<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A melhor forma de aproximar-se de um &#8220;conhecimento&#8221; e operacionaliz\u00e1-lo de modo a poder emitir ju\u00edzos com valor de verdade sobre ele \u00e9, na minha opini\u00e3o, escalar-lhe os caminhos montanhosos de suas v\u00e1rias faces dotados das &#8220;ferramentas&#8221; que nossa condi\u00e7\u00e3o humana permite. 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